O RT-PCR (Reverse Transcription Polymerase Chain Reaction – Reação em Cadeia da Polimerase por Transcrição Reversa) é uma técnica utilizada para detectar e quantificar material genético de vírus, bactérias e outros agentes. É considerado o método mais confiável para identificar infecções por vírus respiratórios na fase aguda. O teste ficou amplamente conhecido na pandemia de covid-19, ao ser usado para extrair o material genético (RNA) do vírus em amostras de secreções nasais e da garganta.
Devido à sua alta precisão, no contexto da pandemia foi fundamental para o correto diagnóstico e confirmação ou exclusão de novos casos da doença em laboratórios de análises clínicas ao redor do mundo.
Nesta entrevista da série “Fala aê” com a bióloga Farah Camila Murtadha, estudante da Residência Multiprofissional em Vigilância em Saúde da Escola de Governo Fiocruz-Brasília, analisou a eficiência e os custos do exame molecular RT-PCR nas redes pública e privada de saúde, comparando dados de 2020 e 2024. O estudo teve como objetivo fortalecer a produção de evidências científicas que contribuam para a gestão do Sistema Único de Saúde (SUS). O trabalho foi premiado como melhor estudo científico no Congresso de Biomedicina do Centro-Oeste e I Congresso Brasiliense de Ciências Biomédicas.
Os resultados reforçam a capacidade do SUS de oferecer diagnósticos de alta tecnologia, gratuitos e ágeis, com desempenho competitivo em relação ao setor privado. A iniciativa também busca demonstrar como o investimento em ciência e tecnologia dentro do sistema público contribui para respostas rápidas em situações epidemiológicas e para o acesso equitativo da população aos exames laboratoriais.
Confira na entrevista abaixo:
Para que a técnica de RT-PCR é utilizada? Qual é a importância desse exame?
Farah Camila Murtadha: A técnica de RT-PCR é um método de diagnóstico molecular amplamente utilizado para detectar a presença de material genético (RNA) de patógenos em uma amostra. Por ser altamente sensível e específica, a técnica consegue detectar o material genético do patógeno mesmo em estágios iniciais da infecção, quando a carga viral ainda é baixa. Isso permite um diagnóstico mais rápido e preciso do que outros métodos. Além disso, contribui para políticas públicas na saúde, já que a detecção rápida desses vírus faz com que medidas sejam tomadas mais rapidamente, evitando uma transmissão em massa. A técnica foi extremamente eficaz durante a pandemia de covid-19, já que, aqueles que recebiam o diagnóstico positivo se isolavam em casa, evitando transmissão da doença.
Qual foi a motivação para realização desse estudo, comparando a RT-PCR na rede pública e privada do Distrito Federal?
Farah: A população já tem conhecimento da eficiência do serviço privado e sabe também da inacessibilidade em relação aos custos dos exames. O intuito do projeto é entender o quanto o custo da técnica diminuiu ao longo dos anos, desde a pandemia de covid-19, além da valorização do sistema público de saúde, demonstrando que o SUS é sim competitivo em relação ao sistema privado, quando se trata de diagnóstico de vírus respiratórios.
Em que medida a pandemia de covid-19 influenciou a escolha do tema e a abordagem da pesquisa?
Farah: Durante a pandemia de covid-19, o Lacen (Lacen/SES-DF), assim como os laboratórios no mundo todo, realizou exames em larga escala. Dessa forma, a pesquisa demonstra que o serviço público foi capaz de entregar resultados de forma eficiente mesmo com recursos limitados. A pesquisa sobre os custos também levanta questões sobre o verdadeiro custo da técnica, já que, no projeto, é levado em consideração somente os valores dos kits utilizados e não dos recursos humanos. A grande diferença do serviço público para o privado é que os valores dos testes que o privado cobra costuma levar em consideração esses outros fatores.
Como é possível garantir um acesso equitativo à detecção de patógenos respiratórios?
Farah: Os exames realizados no Lacen é de forma 100% gratuita, já que as amostras que chegam para o laboratório são coletadas pelas unidades de saúde da rede pública de todo o Distrito Federal. A partir do momento em que este paciente é atendido, todo o processo flui de forma que o resultado saia em menos de 24h, em geral, a partir da chegada da amostra ao Lacen/SES-DF. No privado, apesar da eficiência do fluxo e da liberação ocorrer no mesmo período que o Lacen, eles não fazem um painel completo de forma acessível. Painéis que abrangem vários vírus respiratórios e outros patógenos podem custar mais de R$1.500,00 pela rede particular de diagnóstico. O privado poderia abrir o leque de testes e incluir mais vírus respiratórios em um mesmo teste, assim, o paciente da rede privada receberia um diagnóstico tão completo quanto do Lacen, auxiliando na notificação e na própria vigilância desses patógenos. No entanto, cabe ressaltar que não temos conhecimento se na rede privada também realiza esses exames todos os dias, incluindo sábados, domingos e feriados, enquanto que esse serviço é ininterrupto na rede pública do DF [Lacen/SES-DF]. Além disso, o kit utilizado para os exames no Lacen é fornecido pelo próprio Ministério da Saúde e ele não é comercializado, apesar de existirem kits de outras marcas disponíveis para tal finalidade.
Por que é importante discutir os custos e a efetividade dos exames laboratoriais, especialmente os de RT-PCR, para vírus respiratórios?
Farah: Mostrar para a população sobre a efetividade dos exames na rede pública faz com que o SUS seja mais valorizado, já que a ideia do SUS para muitos é restrita às unidades de saúde, como as Unidades de Pronto Atendimento, as Unidades Básicas de Saúde e os Hospitais Regionais. A divulgação dos custos demonstra que o exame não possui um alto custo apesar da alta tecnologia. Além disso, como estamos desconsiderando o custo de recursos humanos, conseguimos ter um panorama geral de que o exame em si é acessível. Agrega-se, pois, no sistema público, o baixo custo do exame com a alta efetividade e qualidade do mesmo.
O estudo aborda dados de dois momentos distintos: 2020 e 2024. Qual a importância de comparar esses dois períodos?
Farah: Durante a pandemia, a RT-PCR de vírus respiratórios era apenas voltado para a covid-19, e apesar do custo não ter variado muito, em 2024 o exame realizado engloba seis vírus respiratórios (Influenza A e B, Sars-Cov2, Adenovírus, Rinovírus e Vírus Sincicial Respiratório). Dessa forma, se contar o custo do exame por patógeno, o custo diminui significativamente. O objetivo de fazer essa comparação não envolve somente a redução do custo por vírus, mas também realizar a divulgação de que apenas um exame é capaz de realizar o diagnóstico dos seis tipos de vírus respiratórios. As infecções por vírus respiratórios causam sintomas muito parecidos nos pacientes, portanto quanto mais amplo o exame, podendo detectar mais patógenos provavelmente envolvidos, maiores as chances de um tratamento mais assertivo e melhores também as tomadas de decisões frente aos pacientes e aos cenários epidemiológicos.
Quais foram os principais critérios usados para avaliar a efetividade desses testes além do custo?
Farah: Durante a rotina, fazemos um mapa de trabalho com todas as amostras que recebemos no dia. Na maior parte das vezes, esse mapa é liberado no mesmo dia, já que muitas amostras que chegam são de pacientes internados ou esperando leitos de UTI. Dessa forma, nós fizemos uma análise dos mapas de 2024 para entender quantas amostras passaram por uma reextração, ou solicitação de recoleta. Pela análise dos mapas, não houve congestionamento na rotina e não houve amostra para a recoleta. Demonstrando, assim, que a promessa de entrega de laudo em até 24h é condizente, a partir da chegada ao Lacen/SES-DF.
Quais os principais achados do estudo que mais chamaram a atenção da equipe?
Farah: O que mais chamou atenção foi a redução do valor do exame para cada vírus respiratório. Apesar dos kits de amplificação terem sofrido esta alteração, não houve mudança significativa nos valores do kit de extração (2020 – R$21,55; 2024 – R$17,45). Mesmo em situação de pandemia, o valor do kit de extração não superfaturou. Por um período, os kits estavam em falta, já que o mundo todo estava realizando os mesmos testes e necessitando dos kits. Este foi um período em que os testes começaram a sofrer gargalos para a liberação dos resultados. Porém, é possível perceber que, ao longo dos anos, o custo permaneceu próximo. Além disso, o kit de amplificação, no geral, também não sofreu mudanças significativas. O Kit Covid de Amplificação custava R$97,99, enquanto que o Kit multiplex, hoje está em torno de R$81,14. Porém, vale ressaltar que o kit multiplex faz a identificação de seis vírus respiratórios, dessa forma, é como se, para cada vírus, o teste custasse R$13,52, o que faz com que se torne significativa a queda do custo do exame.
O que os dados revelam sobre o desempenho da rede pública de saúde do DF em termos de custo e agilidade?
Farah: Uma vez que a amostra é coletada e essa amostra é enviada ao Lacen, o processamento dessa amostra é realizada no mesmo dia e liberada dentro de um período de 24h. Além disso, o serviço é 100% gratuito, o que o torna acessível para todos os públicos. Portanto, a rede pública tem um desempenho competitivo em relação à rede privada, demonstrando que, mesmo com menos custos, é possível realizar testes de alta performance, utilizando tecnologias modernas e tornar isso acessível para a população.
Como esses resultados podem influenciar políticas públicas de saúde e o financiamento do SUS?
Farah: O SUS possui muitas atividades que a população não tem conhecimento. A partir do momento em que as pessoas começam a entender a importância e a competência que o sistema proporciona, eles começam a valorizar o serviço. A valorização é o primeiro passo para que os governos sejam pressionados para que haja um aumento no financiamento.
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