População brasileira desconhece o mundo cientifico, diz pesquisa

Por: Fiocruz Brasília
14/03/2018

“Ninguém sabe onde e quem faz ciência no país”. A observação foi feita pela pesquisadora da USP, Natália Pasternak, durante a abertura oficial da I Semana de Divulgação Cientifica da Fiocruz Brasília, nesta terça-feira (13/3). Pasternak, que é diretora no Brasil do Festival Internacional de Divulgação Científica Pint of Science: um brinde à ciência, revelou dados de seu estudo, mostrando que 54% das pessoas dizem que a ciência só traz benefícios, e que 50% consideram os cientistas pessoas inteligentes que fazem coisas úteis para humanidade. Apesar da percepção positiva a respeito da ciência, 87% dos brasileiros não souberam nominar nenhuma instituição de pesquisa e 94% não conhecem o nome de nenhum cientista do país.

A pesquisadora participou do painel “Ciência para além dos muros: o papel, desafios e impactos da divulgação científica no Brasil”, junto ao reitor da Unicamp, Marcelo Knobel, e à pesquisadora da USP, Simone Alves. O evento foi aberto por Fabiana Damásio, diretora da Fiocruz Brasília, e Ana Carolina de Oliveira, integrante da Comissão de Divulgação Cientifica da Fiocruz Brasília. 

A necessidade de romper a “ciranda fechada de divulgar só entre os pares” foi destacada por Pasternak após observar que pesquisadores não são treinados para falar com a população, o que precisa ser superado. Ela destacou a importância da informação adequada sobre ciência, que, segundo ela, norteia as decisões das pessoas seja no campo político ou no cotidiano. A escolha do que comer, o uso do celular, a decisão de vacinar ou não os filhos foram exemplos de decisões que precisam ser informadas, fundamentadas. 

Pasternak finalizou a apresentação rememorando uma máxima da propaganda brasileira:  “ O cientista não comunica porque ninguém ouve ou ninguém ouve porque o cientista não comunica?”  

Sob a proteção da torre
Há um longo caminho a se percorrer até convencer cientistas e pesquisadores a abandonarem a proteção dos laboratórios, de suas torres de marfim, pois tal atitude evita conflitos. A observação é de Marcelo Knobel, reitor da Universidade de Campinas (Unicamp), que defendeu a necessidade de os cientistas se posicionarem e participarem sem receios de debate público. Knobel relatou que foi proposto um projeto de lei para o Estado de São Paulo proibindo falar ao celular em postos de gasolina, pois poderia causar incêndio. Como cientista, foi investigar e descobriu não haver nenhum fundamento científico. Decidiu tomar uma posição pública e escreveu artigo na imprensa dizendo ser apenas uma “lenda urbana”.

A pesquisadora Simone Alves, doutoranda do Departamento de Relações Públicas, Publicidade e Propaganda e Turismo da USP, apresentou uma análise das notícias veiculadas nos jornais da de sua universidade, no O Estado de S. Paulo e Folha de São Paulo sobre o caso fosfoetanolamina, no período de 1º de outubro de 2015 a 30 de abril de 2017. A pesquisa mostra uma série de “ruídos”, desde ingerências políticas em temas técnicos até falta de um discurso articulado entre os responsáveis para tratar do tema. O caso fosfoetanolamina ocupou os noticiários quando o departamento de química da USP-São Carlos suspendeu, devido à aposentadoria de um professor, o fornecimento de pílulas para tratamento do câncer, embora não houvesse estudos comprobatórios da eficácia da droga.

Antes da abertura da sessão de debates, o pesquisador da Fiocruz Brasília, Ricardo Sampaio, apresentou o e-Lattes, uma ferramenta digital que disponibiliza e analisa dados dos currículos Lattes de pesquisadores de diversas instituições. 

Debates
A inclusão de dez novas terapias alternativas no SUS pelo Ministério da Saúde, elevando para 29 o leque de procedimentos alternativos oferecidos na rede pública, foi o tema que esquentou o debate dos palestrantes com a plateia. No decorrer das respectivas apresentações, o reitor Marcelo Knobel e a pesquisadora Natália Pasternak criticaram de forma contundente a medida, alegando não haver estudos científicos comprovando a eficácia destas terapias.   

Representantes de instituições como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Conselho Regional de Engenharia e Agronomia  (Crea) corroboraram a posição dos palestrantes, afirmando que mitos surgem de repente. Como exemplo, foi dito que a resistência da população aos alimentos transgênicos deriva de desconhecimento, pois desde os primórdios da humanidade o homem vem promovendo modificações de grãos diversos.

Mas outra parta de plateia se posicionou contra. A pesquisadora da Fiocruz Brasília Socorro Souza destacou a necessidade de se respeitarem a cultura, os saberes e as práticas sociais no cuidado à saúde, o que não entra em conflito com a ciência. Já a representante dos Dragões de Garagem, grupo que busca traduzir para uma linguagem mais acessível pesquisas realizadas no país, disse ser importante preservar o conhecimento, mas que também não se pode perder de vista como tratar o outro. Observou que, em geral, os terapeutas alternativos dedicam mais tempo para ouvir e cuidar, ao contrário de outros profissionais.