A Fiocruz Brasília deu início, nesta quinta-feira (11), ao projeto de pesquisa sobre evidências em cannabis medicinal no Distrito Federal. O marco zero da iniciativa foi celebrado durante um seminário realizado na sede da instituição, reunindo representantes de associações de pacientes, profissionais de saúde, gestores públicos, pesquisadores, instituições acadêmicas e órgãos reguladores.
O encontro marcou oficialmente o início da execução da pesquisa, que irá sistematizar e qualificar dados clínico-assistenciais produzidos por associações com experiência consolidada no uso medicinal da cannabis no Distrito Federal. A proposta alia produção científica, assistência em saúde e participação social, fortalecendo o diálogo entre diferentes atores envolvidos na temática.
O objetivo do estudo é gerar evidências sobre os efeitos terapêuticos e a segurança do uso medicinal de preparações à base de cannabis, com predominância de canabidiol (CBD) e diferentes concentrações de tetrahidrocanabinol (THC), em adultos e crianças acompanhados pelas associações participantes.
Ao longo da pesquisa, serão analisadas informações relacionadas à efetividade dos tratamentos, à qualidade de vida dos pacientes e aos possíveis eventos adversos, contribuindo para a produção de conhecimento científico e para o fortalecimento de políticas públicas voltadas ao acesso seguro e qualificado à cannabis medicinal.
A pesquisa será conduzida pela Fiocruz Brasília, por meio do Programa de Evidências para Políticas e Tecnologias em Saúde (Pepts) e do Núcleo de Epidemiologia e Vigilância em Saúde (Nevs). Durante o lançamento da iniciativa, a diretora da Fiocruz Brasília, Fabiana Damásio, destacou a importância de ampliar o diálogo sobre a cannabis medicinal e fortalecer a produção de evidências científicas sobre o tema.
Segundo ela, a pesquisa se soma a uma agenda estratégica da Fundação, que está presente em 12 estados brasileiros e reúne diferentes unidades dedicadas ao desenvolvimento de estudos e ações relacionadas à temática. “É muito importante que possamos nos somar a esse esforço. Espero que esta pesquisa no Distrito Federal gere subsídios que contribuam para o conjunto de estudos desenvolvidos pela Fiocruz em todo o país”, afirmou.
Fabiana ressaltou ainda que a proposta da instituição é construir a agenda da cannabis medicinal de forma articulada, reunindo diferentes setores e atores envolvidos no debate. A diretora destacou que a iniciativa ocorre em um momento oportuno, marcado pelas discussões conduzidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em torno de um novo marco regulatório para a produção de cannabis com fins medicinais no Brasil.
Ao reforçar a relevância do estudo, Damásio também defendeu o fortalecimento de uma ciência cidadã, comprometida com temas que ainda enfrentam preconceitos e estigmas sociais. “Precisamos produzir dados e evidências que possam subsidiar o desenvolvimento de políticas públicas e ampliar as formas de cuidado à população”, concluiu.
O coordenador da Área de Promoção da Saúde da Fiocruz, Valber Frutuoso, destacou que a Fundação vem acumulando experiência e atuação na pauta da cannabis medicinal, especialmente no campo da incidência política e da defesa de avanços regulatórios no Brasil. Segundo ele, o estudo iniciado pela Fiocruz Brasília representa um passo estratégico para ampliar a produção de evidências científicas sobre o tema. “O Brasil precisa ganhar tempo nessa corrida, que é de extrema importância. A pesquisa que começa hoje é fundamental porque vai produzir evidências qualificadas para o campo da cannabis medicinal”, afirmou.
Frutuoso ressaltou que a geração de conhecimento científico é um dos elementos essenciais para avançar na incorporação de medicamentos à base de cannabis no sistema de saúde. Embora reconheça a existência de desafios regulatórios e legais, ele destacou os avanços recentes promovidos pela Anvisa, que têm ampliado o debate sobre a regulamentação da produção e do uso medicinal da planta no país.
O coordenador também mencionou as contribuições da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para o desenvolvimento de estudos relacionados à cannabis, reforçando a importância da atuação integrada entre instituições de pesquisa, órgãos reguladores e gestores públicos.
Para ele, a articulação entre diferentes atores é fundamental para alcançar o objetivo de ampliar a produção de medicamentos à base de cannabis e viabilizar sua oferta no Sistema Único de Saúde (SUS). “Ainda precisamos superar obstáculos importantes, mas a produção de evidências científicas é um passo indispensável para construir esse caminho e garantir que esses tratamentos cheguem a todas as pessoas que deles necessitam”, concluiu.
A programação também contou com uma mesa técnica dedicada à discussão dos avanços científicos, regulatórios e sociais relacionados à cannabis medicinal. O debate reuniu pesquisadores, gestores públicos e representantes da sociedade civil que compartilharam experiências e perspectivas sobre o fortalecimento da agenda no Brasil.
Representando a Associação de Pacientes BioSer, Igor Aveline abordou o papel das organizações da sociedade civil na garantia do acesso a preparados à base de Cannabis sativa L., destacando a contribuição dessas entidades para o acolhimento de pacientes e para a ampliação do acesso ao tratamento.
Michelle Zanon, representante do Ministério da Saúde, apresentou o Programa de Pesquisa Clínica e discutiu possíveis estratégias para a construção de uma agenda nacional de pesquisa em cannabis medicinal, destacando a importância da articulação entre instituições de pesquisa, gestores e órgãos reguladores para o avanço do tema no país.
Na sequência, o pesquisador Renato Malcher, da Universidade de Brasília (UnB), apresentou um panorama das pesquisas em cannabis medicinal desenvolvidas no país, enquanto a professora Andrea Gallassi, também da UnB, discutiu as evidências científicas relacionadas aos usos medicinais de preparados à base de cannabis e seus potenciais benefícios terapêuticos.
Encerrando a mesa, as pesquisadoras Luciana Gallo (Nevs/Fiocruz Brasília) e Flávia Elias, (Pepts/Fiocruz Brasília), apresentaram o projeto de pesquisa “Efeitos e segurança do uso medicinal de preparações à base de Cannabis no Distrito Federal”, detalhando os objetivos, a metodologia e a relevância da iniciativa para a produção de evidências científicas que possam subsidiar políticas públicas e ampliar o acesso qualificado ao tratamento.
O evento de lançamento também contou com a participação do deputado federal Rodrigo Rollemberg, autor da emenda parlamentar que viabilizou recursos para a realização da pesquisa. Durante a atividade, o parlamentar destacou a importância da produção de evidências científicas para qualificar o debate sobre a cannabis medicinal e subsidiar a formulação de políticas públicas voltadas à ampliação do acesso seguro e equitativo aos tratamentos.
Rollemberg ressaltou ainda o papel estratégico da Fiocruz na condução de estudos que contribuam para o avanço do conhecimento científico e para a construção de soluções que respondam às necessidades da população, especialmente de pacientes que já encontram na cannabis medicinal uma alternativa terapêutica para diferentes condições de saúde.
Confira aqui as fotos do evento.
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