Beatriz Muchagata (CTIS/Fiocruz Brasília)
Curso em Rio Bonito do Iguaçu fortalece resposta comunitária com base em inteligência cooperativa e atenção primária à saúde
Em novembro de 2025, fortes chuvas atingiram o município de Rio Bonito do Iguaçu, no interior do Paraná, e mudaram a rotina da cidade em poucos dias. Ruas alagadas, casas danificadas e famílias fora de casa passaram a fazer parte do cenário local.
Assim como em outros desastres, a primeira resposta veio da própria população. Moradores se mobilizaram para ajudar vizinhos, organizar abrigos improvisados e compartilhar informações sobre áreas de risco. Sem sistemas estruturados de alerta ou protocolos locais definidos, a organização aconteceu a partir da urgência.
O episódio não foi isolado. A combinação entre fenômenos como o El Niño e as mudanças climáticas têm alterado o regime de chuvas no Sul do Brasil, aumentando a frequência e a intensidade de eventos extremos. No território, isso se traduz em mais situações de risco e maior pressão sobre comunidades e serviços públicos.
Da resposta espontânea à organização coletiva
A experiência vivida em Rio Bonito do Iguaçu evidenciou uma necessidade prática: como melhorar a preparação para situações como essa? A partir dessa pergunta, começou a se estruturar a formação de Brigadas Populares de Resposta a Desastres.
A proposta é transformar a mobilização espontânea em uma capacidade organizada de atuação, envolvendo moradores e profissionais do território. Nesse processo, a Plataforma de Inteligência Cooperativa com a Atenção Primária à Saúde (PICAPS) se apresenta como uma solução que atua como uma infraestrutura sociotécnica essencial para a adaptação climática.
A iniciativa parte da integração entre diferentes tipos de conhecimento — desde dados oficiais até a experiência de quem vive no território — para fortalecer a identificação de riscos, a comunicação em situações de emergência e a articulação entre atores locais.
Articulação institucional e fortalecimento dos territórios
No Paraná, essa estratégia é desenvolvida no CoLaboratório da UniCentro, com atuação em Irati e Guarapuava. O espaço funciona como uma Sala de Educação e Cooperação Social, reunindo iniciativas voltadas à redução de vulnerabilidades e à construção de territórios mais resilientes, alcançando mais de 477 mil pessoas.
É nesse contexto que ocorre a formação das brigadas, coordenada pela Força Nacional do SUS (FN-SUS) em parceria com a Fiocruz Brasília, por meio do CoLaboratório de Ciência, Tecnologia, Inovação e Sociedade (CTIS).
A formação das Brigadas Populares de Resposta a Desastres representa um avanço na preparação dos territórios frente aos eventos climáticos extremos, fortalecendo a capacidade comunitária de resposta e proteção da vida. “Essa iniciativa demonstra a importância da parceria entre a Força Nacional do SUS e a Fiocruz, unindo ciência, formação e atuação territorial em defesa do SUS e das populações mais vulneráveis”, afirma Rodrigo Stambeli, coordenador nacional da Força do SUS.
Segundo ele, além de qualificar lideranças locais, a formação também contribui para melhorar a articulação entre diferentes setores no território. “A integração entre saúde, defesa civil e comunidade torna a resposta aos desastres mais rápida, eficiente e humanizada. Preparar os territórios é fundamental para reduzir impactos, salvar vidas e ampliar a resiliência do sistema de saúde diante das mudanças climáticas”, completa.
O papel dos movimentos sociais na resposta
A formação também ganha força a partir da participação dos movimentos sociais no território. Para Maria Izabel, representante do MST do Paraná, a experiência recente em situações de desastre reforçou a necessidade de organização comunitária. “Nossa participação nas Brigadas de Solidariedade em Rio Bonito do Iguaçu nos mostrou a importância de estarmos preparados para esses momentos, principalmente para quem vive no campo, onde o socorro muitas vezes demora mais a chegar. Entender o que fazer antes, durante e depois das catástrofes nos torna mais ativos e organizados para agir com solidariedade”, afirma.
Ela destaca que a iniciativa também dialoga com valores já presentes no cotidiano das comunidades. “Produzir comida boa, cuidar da natureza e cuidar das pessoas nos faz mais humanos e nos ajuda a construir um outro jeito de viver em sociedade, onde a solidariedade está no centro das relações”, completa.
Formação prática e resultados esperados
O curso tem duração de oito semanas, com carga horária de 60 horas, e combina atividades teóricas e práticas. Entre os conteúdos trabalhados estão gestão de riscos e desastres, comunicação em emergências, primeiros socorros, saúde mental, logística humanitária, organização de abrigos e vigilância em saúde.
A formação também inclui atividades práticas, como mapeamento participativo do território, simulados de emergência e elaboração de planos de contingência. A proposta é que os participantes consigam aplicar o conteúdo diretamente na realidade local.
Participam da iniciativa profissionais da saúde, lideranças comunitárias, agricultores familiares, educadores e trabalhadores da assistência social, o que amplia a capacidade de atuação das brigadas no território.
Entre os resultados esperados estão a criação de brigadas comunitárias organizadas, a implementação de sistemas locais de alerta e o fortalecimento da articulação entre comunidade, poder público e instituições.
A iniciativa também aponta para efeitos mais duradouros, como a redução da vulnerabilidade frente a novos eventos extremos e o fortalecimento da capacidade de resposta local.
Preparação como caminho
A experiência de Rio Bonito do Iguaçu mostra que, diante de um cenário de mudanças climáticas, a organização comunitária deixa de ser apenas uma resposta emergencial e passa a ser parte central da preparação para o que ainda pode vir.
LEIA TAMBÉM