Iris Pacheco (Psat/Fiocruz Brasília)
Na última quinta-feira (28/5), o debate “Territórios de vida: tecnologias sociais e caminhos para territórios saudáveis e sustentáveis” reuniu pesquisadores, lideranças populares e representantes de movimentos sociais durante o 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente (SIBSA), realizado na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá (MT).
A atividade organizada pelo Programa de Saúde, Ambiente e Trabalho (Psat) da Fiocruz Brasília, foi coordenada por André Luiz Dutra Fenner, pesquisador e coordenador Psat, que destacou a atuação do programa junto aos movimentos sociais na construção de estratégias voltadas à defesa da saúde coletiva, do meio ambiente e dos territórios. Segundo Fenner, o trabalho articula pesquisa, formação e construção coletiva de conhecimentos em diálogo com os povos e comunidades tradicionais.
Ao longo da atividade, expositores de diferentes regiões do país reforçaram a compreensão dos territórios como espaços de produção e reprodução da vida, sustentados por tecnologias sociais, saberes populares e experiências comunitárias capazes de apontar caminhos para sociedades mais justas, saudáveis e sustentáveis.
Franscyslane Vitória da Silva, pesquisadora colaboradora do Psat, destacou a necessidade de superar visões fragmentadas sobre os sujeitos e os territórios. Para ela, as populações carregam tecnologias sociais próprias, construídas historicamente antes mesmo da presença do Estado em muitos locais.
“Temos uma mania de ver as pessoas fragmentadas. Mas os territórios possuem práticas tradicionais de cuidado, agroecologia e outras formas de produzir saúde e vida de forma integral”, afirmou. Ela também ressaltou a importância da escuta dos movimentos sociais e reconheceu que seu aprendizado foi construído na aproximação com os povos do campo, das águas e das florestas.
Representando o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), Adilson Vieira enfatizou esse debate sobre territórios a partir do olhar dos povos e criticou a visão colonialista da Amazônia ser tratada como um “vazio demográfico” ou apenas como reserva de recursos naturais. “Não somos estoque energético para ninguém, não somos vazio demográfico. Quando a gente define o que são esses territórios de vida é um conjunto de coisas que nos garante uma perspectiva de futuro”, afirmou.
A pescadora artesanal Marizelha Lopes, da Articulação Nacional das Pescadoras (ANP/BA), também criticou a invisibilização dos povos tradicionais em projetos de desenvolvimento e alertou para a ausência dessas populações nos debates sobre preservação ambiental. Segundo ela, quando mapas ambientais apresentam apenas reservas de carbono e omitem os povos que vivem nesses territórios, reforçam a lógica de exploração e apagamento.
Ela também destacou que a permanência nos territórios é condição fundamental para garantir a continuidade da vida e das culturas tradicionais. “A primeira solução para este país continuar vivendo bem é não sairmos dos nossos territórios”, declarou.
Representando a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), Mateus dos Santos Brito trouxe dados sobre a luta pela regularização dos territórios quilombolas no Brasil. Segundo ele, após 13 anos de mobilização, o IBGE passou a incluir a população quilombola no Censo, identificando cerca de 1,3 milhão de pessoas distribuídas em aproximadamente 8 mil localidades em 25 estados. Apesar disso, apenas cerca de 500 territórios possuem titulação regularizada.
Mateus afirmou que saúde, para as comunidades quilombolas, está diretamente relacionada ao direito ao território ancestral. “Não existe saúde sem demarcação e titulação”, disse. Ele também denunciou a violência contra quilombolas em disputas fundiárias e cobrou políticas públicas específicas para garantir acesso à saúde, direitos territoriais e valorização das medicinas tradicionais quilombolas.
Ao longo do evento, o Psat ainda organizou outras mesas redondas com foco na vigilância em saúde do trabalhador, na atuação para a transformação dos territórios de vida e trabalho, bem como, o debate de saúde e diversidade nos territórios. Além disso, foram realizadas apresentações orais sobre a formação-ação de agentes de promoção da saúde e igualdade racial e também sobre a produção-pesquisa de materiais didáticos em saúde LGBTQIAPM+.
Lançamentos de livros
Durante o evento foi organizado um espaço para o lançamento de obras relacionadas às temáticas envolvidas no contexto das discussões sobre saúde coletiva e as diversas frentes que a vinculam com outros temas.
Nesse sentido, o Psat realizou o lançamento de duas obras. A primeira é o livro Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar na Promoção da Saúde e de Sistemas Agroalimentares Saudáveis, Sustentáveis e Solidários, coordenado por André Luiz Fenner e Iracema Ferreira de Moura, que sistematiza análises e experiências que apresentam a relação entre saúde, ambiente e trabalho no campo. Além disso, a publicação aponta caminhos concretos para o fortalecimento da agricultura familiar e para a construção de sistemas agroalimentares saudáveis, sustentáveis e solidários.
A outra obra é Meu nome é Pescadora Artesanal – duas décadas de luta da Articulação das Pescadoras da Bahia (ANP) no enfrentamento da invisibilidade e defesa dos direitos das mulheres das águas, organizado por Marizelha Carlos Lopes, Elionice Conceição Sacramento, Andréa Souza Bomfim, Rosânia do Nascimento, que retrata a atuação da Articulação Estadual das Pescadoras da Bahia (ANP-Bahia) e mostra que é possível perceber a potencialidade entre conhecimento acadêmico e tradicional a partir dos territórios.
O 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente aconteceu de 27 a 29 de maio e reuniu pesquisadores, movimentos sociais, povos tradicionais e organizações comprometidas com a defesa da vida, da justiça socioambiental e da saúde coletiva.
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