Cultura avaliativa e pluralidade marcam abertura da Semana da Avaliação 2026

Fiocruz Brasília 27 de maio de 2026


Cléber Gonçalves/Ipea*

 

Especialistas defenderam políticas públicas baseadas em evidências e mais diálogo com a sociedade

 

A defesa de políticas públicas informadas por evidências, a ampliação da cultura de avaliação no setor público e a incorporação de diferentes perspectivas sociais marcaram a abertura da Semana da Avaliação 2026, realizada na sede da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Brasília, nesta terça-feira (26/5).

 

Representantes do governo, da academia e de instituições de pesquisa destacaram a importância da avaliação para aprimorar políticas públicas, fortalecer a transparência e enfrentar desigualdades sociais.

 

Com o tema “Cultura avaliativa e conhecimentos plurais para a política pública”, a ideia é criar um espaço permanente de diálogo, aprendizagem e colaboração entre instituições e especialistas envolvidos com monitoramento, avaliação e uso de evidências em políticas públicas. Confira a programação.

 

O chefe de gabinete da presidência da Embrapa, André Alarcão, destacou a importância da avaliação para o aprimoramento das políticas públicas e classificou o tema como central para o futuro do Estado. Segundo ele, a avaliação contribui para decisões em áreas estratégicas, como segurança alimentar, saúde, educação, inclusão social e sustentabilidade. “Estamos falando sobretudo da capacidade do Estado de aprender, corrigir rotas e gerar melhores resultados para a sociedade”, afirmou.

 

O coordenador de planejamento e análise de políticas públicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Roberto Pires, destacou a importância da avaliação para o fortalecimento das capacidades analíticas do Estado brasileiro e para a produção de políticas públicas mais qualificadas. Para ele, a avaliação deve ir além de indicadores fiscais e de eficiência. “É preciso pensar o que essas políticas fazem com as pessoas e como elas são vividas pela população”, opinou.

 

A vice-diretora da Fiocruz Brasília, Denise Oliveira e Silva, destacou a evolução da capacidade brasileira de produzir avaliações de políticas públicas. Segundo ela, nas décadas de 1980 e 1990, muitos processos avaliativos eram conduzidos por organismos internacionais. “Hoje, nós temos brasileiros capazes de fazer uma avaliação com qualidade”, defendeu.

 

Denise ressaltou ainda que a Semana da Avaliação 2026 significa a construção de caminhos que são baseados na equidade, na justiça social e na democracia, porém o desafio das instituições ainda é construir uma agenda de avaliação que atenda aos anseios da população.

 

“A avaliação não pode ser algo que saia de uma experiência eminentemente técnica, ela precisa fazer sentido para a construção de uma agenda, de uma ciência cidadã, promover o diálogo de uma evidência que faça sentido para a população”, assinalou a vice-diretora.

 

O diretor de Altos Estudos da Escola Nacional de Administração Pública (Enap), Alexandre Gomide, destacou a importância da pluralidade de saberes e perspectivas para o fortalecimento do campo da avaliação de políticas públicas. Segundo ele, o debate promovido pela Semana da Avaliação ajuda a evitar tanto o tecnicismo quanto o distanciamento entre ciência e gestão pública.

 

Para Meiruze Sousa Freitas, diretora do Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde, a avaliação de políticas públicas deve estar conectada aos desafios sociais do país e à diversidade da população brasileira. É papel dos profissionais da área contribuir para que as decisões públicas sejam baseadas nas melhores informações possíveis e em estratégias efetivas.

 

Ela também destacou a importância de ampliar o diálogo com a sociedade e enfrentar desigualdades persistentes no país. “A gente ainda vive um país de grande violência e de grande desigualdade, especialmente quando fala da violência contra a mulher”, declarou.

 

Avaliação transformadora e justiça social

A palestra inaugural da Semana da Avaliação 2026 abordou o tema “Avaliação transformadora para mudanças transformadoras” e foi conduzida pela professora emérita da Gallaudet University, Donna Mertens. Referência internacional na área de avaliação transformadora, metodologias e equidade, a pesquisadora apresentou reflexões sobre o papel da avaliação na promoção de políticas públicas mais inclusivas, participativas e orientadas para a justiça social.

 

A professora defendeu a necessidade de uma mudança de paradigma nos processos de avaliação de políticas públicas. Para ela, avaliações não são neutras e refletem escolhas metodológicas, políticas e culturais. “Se você quiser me dizer que avaliação não é política, eu tenho experiências que diriam o contrário”, defendeu, ao lembrar sua atuação em políticas voltadas a grupos vulneráveis nos Estados Unidos.

 

Mertens criticou a ideia de objetividade absoluta nos processos avaliativos e defendeu abordagens mais participativas e conectadas às realidades sociais. Segundo ela, muitas avaliações operam a partir de uma cegueira cultural, ignorando perspectivas diferentes das dos avaliadores. “Talvez tenhamos uma chance melhor de entender a realidade de pessoas que vivem experiências diferentes da nossa quando desafiamos nossas próprias lentes culturais”, destacou.

 

A pesquisadora também ressaltou a importância de incorporar conhecimentos tradicionais e perspectivas indígenas às metodologias de avaliação. Para ela, comunidades historicamente marginalizadas precisam participar da construção das políticas e dos processos avaliativos: “Se nós não escutarmos e aprendermos com as comunidades indígenas, não conseguiremos trabalhar efetivamente com elas”.

 

Outro ponto enfatizado pela professora foi a necessidade de fortalecer vínculos entre avaliação, justiça social e direitos humanos. Segundo Mertens, avaliações transformadoras devem enfrentar desigualdades e apoiar mudanças sociais concretas. “Precisamos construir relações colaborativas e compreender a dinâmica de poder para que pessoas tradicionalmente excluídas possam participar autenticamente do processo”, destacou.

 

Ao encerrar a palestra, Donna Mertens afirmou que promover mudanças transformadoras exige enfrentar desafios complexos e permanentes. “Tudo isso me diz que esse trabalho não será fácil”, concluiu.

 

A Semana da Avaliação 2026 é realizada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Escola Nacional de Administração Pública (Enap), Fiocruz Brasília, Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO), Ministério da Saúde, Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) e Ministério da Educação (MEC), com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

 

Clique aqui e assista à transmissão do primeiro dia de evento. Confira a galeria de imagens aqui.

 

*Com edição da Assessoria de Comunicação da Fiocruz Brasília.

 

 

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