Especialista tira dúvidas sobre vírus causador de surto em cruzeiro

Fiocruz Brasília 11 de maio de 2026


Maíra Menezes (IOC/Fiocruz)

 

O surto no navio de cruzeiro MV Hondius, que partiu da Argentina em direção a Cabo Verde no começo de abril, chamou atenção para o hantavírus. No Brasil, o Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) atua como Referência Regional para Hantaviroses junto ao Ministério da Saúde (MS).

 

À frente do serviço de referência, a médica infectologista Elba Lemos aponta que o surto representa um risco baixo para a saúde pública global, mas reforça a importância de diagnosticar rapidamente a hantavirose, considerando a gravidade da doença. Confira a entrevista.

 

IOC/Fiocruz: Um surto de doença infecciosa assusta a maioria das pessoas, especialmente depois da pandemia de covid-19. Qual o risco dos casos de hantavírus no cruzeiro MV Hondius para a saúde pública?

Elba Lemos: Embora seja um evento grave, com mortes que são motivo de tristeza, a avaliação é de baixo risco para a saúde pública global, como afirmou a Organização Mundial da Saúde (OMS). O hantavírus é pouco conhecido pela população em geral, mas não se trata de um vírus novo. A transmissão de uma pessoa para outra é rara. No cruzeiro, isso pode ter sido favorecido pelo ambiente confinado. Mas esse vírus não está associado a epidemias, apenas com casos isolados ou surtos.

 

IOC/Fiocruz: Pelo menos oito passageiros do cruzeiro MV Hondius apresentaram sintomas suspeitos de hantavirose, incluindo três pessoas que morreram, segundo informações divulgadas pela OMS na quinta-feira (7/5). Como avaliar esse surto?

Elba Lemos: O que aconteceu nesse cruzeiro é um evento inusitado. O hantavírus é encontrado em roedores silvestres e pode ser transmitido para pessoas, principalmente pela inalação de partículas virais presentes nas fezes, urina e saliva dos roedores e, menos frequentemente, pela mordedura destes animais. A transmissão de uma pessoa para outra acontece somente com a variante do hantavírus Andes – Orthohantavirus andesensis – que circula na Argentina e no Chile. Mesmo nestes casos, estudos de surtos anteriores indicam que a capacidade de transmissão do vírus é limitada, principalmente diante de medidas de contenção efetivas instituídas para interromper a transmissão viral.

 

IOC/Fiocruz: Que medidas são recomendadas para prevenir a propagação da doença?

Elba Lemos: O hantavírus pode ter um período de incubação desde 3 até 60 dias. Ou seja, uma pessoa pode ser infectada e só apresentar sintomas dois meses depois. Por isso, o rastreamento dos passageiros e trabalhadores do navio é muito importante. As pessoas possivelmente expostas ao hantavírus devem ser orientadas a ficar em isolamento até finalizar o período de incubação e acionar os serviços de saúde se apresentarem qualquer sintoma da doença. Além disso, é preciso reconstituir as atividades dos passageiros que apresentaram quadro de hantavirose nos 60 dias anteriores aos sintomas, para buscar o local e os fatores de risco associados com a origem da infecção e atuar também nessa área.

 

IOC/Fiocruz: Embora seja pouco conhecida pela população em geral, a hantavirose é uma doença que ocorre no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, em 2025, foram 36 casos, incluindo 15 mortes. Qual o cenário dos hantavírus no nosso país?

Elba Lemos: Existem nove genótipos de hantavírus no Brasil, que são diferentes daquele que ocorre na Argentina e no Chile. Nenhum deles teve registro de transmissão de uma pessoa para outra. Os casos de hantavirose são mais frequentes nos estados do Sul e Sudeste (com exceção do Espírito Santo). Também se destacam Mato Grosso, Amazonas, Pará e Maranhão. Porém, uma vez que existem roedores infectados, a possibilidade de infecção por hantavírus não pode ser desconsiderada em todo o país. Importante registrar que o cenário de ocorrência de hantaviroses pode ser influenciado por fenômenos climáticos, como El Niño, entre outros fatores associados com o aumento do número de roedores silvestres, as chamadas ratadas.

 

IOC/Fiocruz: Por que o vírus Andes identificado no cruzeiro MV Hondius não circula Brasil? O que pode acontecer se uma pessoa infectada por esse vírus chegar aqui?

Elba Lemos: Essa espécie do vírus Andes é restrita à Argentina e ao Chile. Isso acontece porque cada genótipo de hantavírus é mantido na natureza em uma espécie de roedor, que é o seu reservatório. Podemos dizer que cada vírus tem o seu “roedor de estimação”. O vírus Andes é mantido na natureza no Oligoryzomys longicaudatus, que é um roedor específico da Argentina e do Chile. Como esse roedor não é encontrado no Brasil, não temos esse vírus aqui. Se uma pessoa infectada pelo vírus Andes chegar ao Brasil, é possível que ocorram casos por transmissão pessoa-a-pessoa, mas isso pode ser limitado com medidas de contenção efetivas. Para além disso, não há transmissão do vírus do ser humano para o rato. O vírus não vai se estabelecer no Brasil, porque o roedor reservatório dele não está presente aqui.

 

IOC/Fiocruz: Quais os sinais e sintomas da hantavirose?

Elba Lemos: O quadro clínico inicial é muito parecido com outras viroses. Entre os sinais e sintomas iniciais estão: febre alta, mal-estar, dor de cabeça e no corpo, tosse seca e manifestações gastrointestinais, como náusea, vômitos e diarreia. Com a evolução da doença, pode haver: pneumonia, dificuldade de respirar, insuficiência respiratória aguda e choque circulatório.

 

O risco de óbito é elevado na ausência de tratamento em unidade de terapia intensiva (UTI). Como esta progressão pode ser muito rápida, o conhecimento sobre a doença  é muito importante para que seja feito diagnóstico diferencial, principalmente com a dengue, cuja terapia de hidratação preconizada pode agravar o quadro pulmonar dos pacientes com hantavirose.

 

Assim, quando um paciente chega ao serviço de saúde com “sintomas de virose”, o médico deve perguntar sobre as suas atividades nos últimos 60 dias. Se ele vive ou trabalha em área rural, realizou limpeza de galpão, atividade em depósito de grãos, desmatamento ou aragem de terras ou ainda ecoturismo, existe risco de exposição a roedores silvestres ou suas excretas. Então, é preciso considerar a possibilidade de hantavirose.

 

IOC/Fiocruz: Um teste rápido para diagnóstico de hantavírus foi desenvolvido pelo IOC em parceria com o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Biomanguinhos/Fiocruz) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Qual a importância dessa inovação?

Elba Lemos: Embora rara, a hantavirose é uma doença grave. Em média, quatro em cada dez pessoas infectadas morrem. O teste rápido é capaz de detectar a infecção em 15 a 20 minutos, com apenas uma gota de sangue. É um exame simples para orientar o manejo inicial dos pacientes, sem necessidade de infraestrutura laboratorial. Isto é muito importante, pois o fator tempo é fundamental para reduzir a letalidade da doença, que ocorre predominantemente em áreas rurais, muitas vezes remotas. No ano passado, obtivemos o registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Atualmente, o teste vem sendo usado em pesquisas. Se houver demanda do Ministério da Saúde, ele pode ser produzido para fornecimento ao Sistema Único de Saúde (SUS).

 

IOC/Fiocruz: Como prevenir a infecção por hantavírus?

Elba Lemos: As medidas de controle e prevenção têm foco no roedor, reduzindo ou eliminando o contato com estes animais silvestres e suas excretas. É importante dizer que o desmatamento favorece a disseminação do hantavírus porque desequilibra o meio ambiente, aumentando a presença de determinadas espécies de ratos silvestres, geralmente reservatórios, que se adaptam bem ao ambiente humano, que oferece fonte alimentar e condições de abrigo.

 

Algumas medidas de prevenção são: manter distância entre as residências e áreas de mata; evitar deixar restos de alimento e ração em áreas externas, para não atrair os roedores; manter galpões de armazenamento de grãos bem fechados; ao entrar num ambiente fechado, abrir as janelas para arejar e não varrer o chão, porque isso aumenta a chance de aerolização e inalação de partículas virais. Nestes casos, é indicado é borrifar água sanitária para umedecer o piso e inativar o vírus; se houver muitos ratos no ambiente, a vigilância sanitária deve ser acionada.

 

IOC/Fiocruz: Com esta situação ainda em andamento, já existem lições que podemos aprender com o surto de hantavírus no cruzeiro?

Elba Lemos: Esse evento chama atenção para a globalização de doenças, porque as viagens internacionais, cada vez mais frequentes, têm o potencial de levar agentes infecciosos de um local para outro, mesmo que não causem pandemia ou epidemia, como é o caso dos hantavírus. Isso reforça a importância do conhecimento, por parte dos profissionais da saúde, sobre a existência das hantaviroses, assim como da formação de profissionais de turismo e orientação para os viajantes sobre os riscos existentes em cada destino e as medidas de prevenção que devem ser adotadas, incluindo a vacinação para doenças como sarampo, febre amarela e hepatite B.

 

Fotos: Rudson Amorim (perfil pesquisadora) e Josué Damacena (teste rápido) 

 

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