Leishmaniose é tema de encontro de pesquisadores

Por: Fiocruz Brasília
03/04/2019

Nathállia Gameiro


Pesquisadores e técnicos de diferentes unidades da Fiocruz estiveram reunidos na última segunda-feira para revisar e construir estratégias prioritárias para o enfrentamento da doença no Brasil

 

Atualmente, existem cerca de 12 milhões de pessoas infectadas por leishmaniose em 88 países. Um deles é o Brasil, o mais afetado, com mais de 20 mil casos registrados da forma cutânea e três mil casos na forma visceral anualmente, ao lado de Bangladesh, Índia, Etiópia e Sudão. A doença está entre as mais negligenciadas do mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), atingindo em sua maioria, as populações mais pobres.


Diante dessa realidade, e com a concepção de que a leishmaniose é uma questão de saúde pública, a Fiocruz conta com um Programa de Pesquisa Translacional em Leishmaniose. O grupo esteve reunido na última segunda-feira, 01 de abril, na Fiocruz Brasília, para alinhamento e atualização das ações realizadas e construção de proposta de planejamento de atividades.

Participaram do encontro a diretora da Fiocruz Brasília, Fabiana Damásio, e os pesquisadores de diferentes unidades da Fundação, Carlos Morel, Manoel Barral, Ricardo Godoi, Edgar Carvalho, Paulo Machado, Patrícia Veras, Gerson Penna, Agenor Álvares, Paulo Cury, Wagner Martins, Cláudio Maierovitch, Celina Roitman, Márcio Cavalcante, Tainá Raiol, Juliana Girardi, Márcia Motta e Ricardo Sampaio.

Este foi o terceiro encontro do grupo, que teve início nas discussões do Fórum das Unidades Regionais da Fiocruz (FUR), em 2013. Uma segunda oficina foi realizada em 2015, com especialistas, analistas, pesquisadores e diretores regionais da Fiocruz. A ação cooperativa esteve focada na identificação e formulação de portfólio de projetos direcionados a buscar efetividade de esquemas terapêuticos no tratamento de casos humanos de Leishmaniose Tegumentar Americana (cutânea) e de Leishmaniose Visceral.

 

Durante este tempo, o grupo identificou o aumento de pesquisas científicas na área, que coloca o Brasil entre os países com maior número de publicações científicas sobre o tema; e na contramão disso, a falta de acesso a tratamentos efetivos para pacientes e o aumento do número de casos registrados. Para diminuir a lacuna entre o número de publicações e a situação epidemiológica do Brasil, o Programa ativou uma rede de pesquisadores no campo para melhorar a qualidade do cuidado com o doente. “Nosso trabalho não é só fazer pesquisa básica ou aplicada clínica, mas fazer o enfrentamento do ponto de vista do que está disponível na indústria farmacêutica, com patente, e que pode ser utilizado em humanos”, afirmou o pesquisador da Fiocruz Brasília Gerson Penna.

 

Durante o terceiro encontro, foram apresentados estudos sobre o tema por pesquisadores da Fiocruz, nas áreas de avaliação de drogas existentes e toxicidade; análise de patentes e negociação de medicamentos para saúde pública; e implantação, estruturação e manutenção de plataforma de governança e gestão de rede cooperativa de pesquisa translacional.

Como resultado, foram agendadas oficinas de trabalho para os próximos meses com o objetivo de discutir vários pontos, como os aspectos relacionados às patentes de medicamentos, e em particular aprofundar a análise sobre a patente da Miltefosina; a possibilidade de  incluir novas drogas; e decisão sobre que produtos serão priorizados para articulação de financiamento junto ao Ministério da Saúde. Outro encaminhamento definido pelo grupo é aprofundar os estudos sobre a possibilidade de produzir Miltefosina no país e sobre novos ensaios clínicos fazendo sua combinação com outra droga para evitar monoterapia, como é chamada a terapia com um medicamento de cada vez.

O Programa de Pesquisa Translacional tem como finalidade o desenvolvimento de ferramentas e respostas para o controle de um ou mais agravos importantes no cenário epidemiológico do Brasil, além de fortalecer a capacidade tecnológica na fronteira do conhecimento. A Fiocruz conta com 12 programas em atividade, que reúnem pesquisadores, tecnólogos e técnicos de diferentes setores e unidades da instituição com foco na solução de um problema de saúde pública a ser realizado com trabalho em rede.

 

Leishmaniose

A leishmaniose é uma doença causada por protozoário e transmitida pela picada de inseto da família flebotomíneos, também conhecido como mosquito-palha. O vetor se contamina com o sangue de pessoas e de animais doentes, principalmente cães, e transmite o parasita à pessoas e animais sadios. Existem dois tipos de leishmaniose, a visceral e a tegumentar, capazes de causar sérios danos às pessoas afetadas por essa doença, podendo ser fatal ou causar deformações.

Já a leishmaniose visceral é uma doença ainda sem cura e que apresenta uma ampla distribuição geográfica de casos humanos no Brasil, onde se destacam as regiões Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste. Entre os principais sintomas estão febre, palidez, fraqueza e aumento das vísceras – principalmente do baço, do fígado e da medula óssea. Já a leishmaniose tegumentar provoca úlceras na pele e nas mucosas das vias aéreas superiores.

O combate aos focos do mosquito é feito com a limpeza de resíduos orgânicos de terrenos, com a retirada de fezes de animais, folhas, frutas e lixo comum. Esses mosquitos, diferentemente do mosquito Aedes aegypti, não precisam de água parada para se reproduzir.


Os países das Américas fecharam acordo no final do ano passado, durante reunião da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), para implementar uma série de ações nos próximos cinco anos, buscando controlar de forma mais efetiva os vetores que transmitem doenças como malária, dengue, zika, febre amarela, peste, leishmaniose e Chagas.