Debate reuniu especialistas que destacaram a necessidade de resgate do período para preparar melhor o Brasil em cenários futuros; programação proposta pela ex-ministra da saúde, Nísia Trindade, seguirá com exposição sobre a crise sanitária
Vivian Costa e Rafael Revadam – Jornal da Ciência
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) realizou em 23 de março o encontro “Memória em Brasília: vidas, ciência e escolhas”, no auditório da Faculdade de Ciências da Saúde/Medicina da Universidade de Brasília (UnB).
De acordo com Laila Salmen Espindola, diretora da SBPC e professora da UnB, o evento marcou o início de uma série de seminários em diferentes regiões do País. A iniciativa foi proposta por Nísia Verônica Trindade Lima, ex-ministra da Saúde e pesquisadora da Fiocruz, e integra o pré-lançamento da exposição “Vida Reinventada – a pandemia de Covid-19 e a transformação do futuro”, com inauguração prevista para junho, no Centro Cultural do Ministério da Saúde, no Rio de Janeiro.
Segundo Espindola, o encontro propôs relembrar e registrar a memória das vivências em Brasília durante a pandemia de covid-19, declarada em 11 de março de 2020 pela Organização Mundial da Saúde. “A gente precisa de memória para não poder repetir erros, e para poder olhar para o futuro. Precisamos refletir sobre o que a gente viveu e fazer uma reflexão sobre essas experiências, nossas escolhas para preservar a memória que a pandemia nos deixou”, disse.
A professora lembrou que, no início da pandemia, ela e outros cientistas articularam o Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas com o Hospital Universitário e outras unidades do Distrito Federal para acolher profissionais de saúde no mestrado e doutorado. “Naquele momento eles precisavam ser apoiados e motivados nessa entrega deles. Eles estavam arriscando a própria vida para tentar salvar outras num cenário marcado pelo ódio, pelo negacionismo e por tantas tormentas”, disse.
Espindola também recordou os grupos de WhatsApp criados entre profissionais de saúde para troca de experiências, estudo de artigos e apoio mútuo. “Esse foi um movimento de união muito grande na tentativa de ajudar pessoas. Eu me lembro que dentro das minhas tarefas como coordenadora, eu defini como prioridade não deixar ninguém desanimar”, comentou.
A pandemia de covid-19 teve impacto global. No Brasil, até meados de 2024, o número de óbitos ultrapassou 700 mil. No mundo, a Organização Mundial da Saúde contabilizou milhões de mortes, sendo uma das crises sanitárias mais graves da história recente.
Espindola destacou ainda que arte e cultura foram fundamentais durante a pandemia, atuando como “alívio” para a saúde mental, meio de conexão no isolamento e forma de resistência.
Na mesa de abertura, Inês Fernandes, da Fiocruz, que representou Nísia Trindade, contou que a exposição “Vida Reinventada” pretende reunir ações de memória da pandemia. “O objetivo principal é contribuir para a preservação social, da memória social da pandemia. A ideia é revisitar o passado para pensar na transformação do futuro, ou seja, estarmos preparados para o enfrentamento de, de outras emergências em saúde que poderão surgir no decorrer do tempo”, disse.
Fabiana Damásio Passos, diretora da Fiocruz Brasília e secretária executiva do Sistema Universidade Aberta do SUS (UnaSUS), ressaltou a importância da ciência. “Lembro que Nísia Trindade – então presidente da Fiocruz – orquestrou com maestria todas as unidades da Fundação. Nós somos 17 unidades e ela – na época – sempre falou da importância de atuarmos em cada território deste país levando vacina, ciência, pesquisa e educação para que o enfrentamento da pandemia realmente pudesse funcionar como uma grande rede de solidariedade, de promoção e de integralidade do cuidado. É da natureza institucional da Fiocruz, ao longo da sua história, desde 1900, enfrentando pandemias e epidemias nesse país. Então foi com esse espírito que, naquele momento seguimos”, disse.
Passos também destacou a importância do evento. “Estamos vivendo o novo normal e ao mesmo tempo, no momento em que a pandemia arrefeceu, nós pensamos onde é que fica a solidariedade, onde é que ficou cuidado e como é que a gente realmente se reinventou de verdade. Eu acho que a grande questão do seminário é que a gente preserva a memória para que não negue as 700 mil vidas perdidas”, disse.
“Não podemos esquecer que tudo foi possível aqui no Brasil porque a gente tem o Sistema Único de Saúde em um tempo de redemocratização. Hoje, temos condição de dizer que conseguimos responder à pandemia porque a gente teve a ciência e o SUS aqui trabalhando de mãos dadas a favor da população brasileira. Isso é um ponto muito importante da gente reforçar. Como diz Margareth Dalcolmo em seu livro, ‘precisamos evitar a desmemoria’”, disse.
A segunda mesa-redonda, intitulada “Obscurantismo e inspirações”, contou com as participações da presidente da SBPC, Francilene Garcia; o diretor de jornalismo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Henrique Diebold, além de profissionais do HUB-UnB: Verônica Moreira Amado, Elza Ferreira Noronha e Osvaldo Simari Neto.
“Quero, mais uma vez, reconhecer e parabenizar todos pelo esforço e trabalho numa fase tão difícil para a vida e para o planeta. Uma fase em que nós não estávamos preparados, ou pelo menos no nível de integração que foi necessário aprender durante o período de pandemia. Os depoimentos de todos aqui mostram, de forma significativa, como a dedicação, a união, o trabalho de forma colaborativa com a integração de múltiplas áreas é tão importante, sobretudo com evidências e conhecimento”, pontuou Francilene Garcia.
Garcia ressaltou que a exposição “Vida Reinventada – a pandemia de Covid-19 e a transformação do futuro”percorrerá por todo o Brasil, começando pelo Rio de Janeiro, e que também integrará o calendário da 78ª Reunião Anual da SBPC, que acontecerá entre os dias 26 de julho e 1º de agosto de 2026, na Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ). A ideia é que uma visitação ao Centro Cultural do Ministério da Saúde, onde estará a exposição, ocorra durante a Reunião Anual.
O diretor de jornalismo da EBC, Henrique Diebold, destacou a união da imprensa em tentar noticiar o cenário da pandemia mais real possível, o que gerou conflitos com o Governo Federal da época.
“No que tange a imprensa, nós tivemos muita dificuldade de cobertura na pandemia, especialmente porque nós estávamos diante de um governo negacionista que, inclusive, pela primeira vez na minha carreira, nós tivemos dificuldades para obter informações corretas. Tivemos que fazer um Consórcio de Veículos de Imprensa, entre veículos do Grupo Globo, do Grupo Estado e do Grupo Folha, em junho de 2020, porque os números do Ministério da Saúde saíam a bel-prazer do governo, baseados em critérios de informação extremamente vagos”, lembra.
Verônica Moreira Amado, da HUB-UnB, lamentou que nos dias de hoje haja pouca reflexão sobre o período da pandemia de covid-19. “A pandemia foi muito séria no mundo inteiro, e o nosso País foi um dos lugares onde se transcendeu o evento epidemiológico. Mas a gente conversa pouco sobre, e se a gente conversa pouco, a gente cresce menos. E se a gente cresce menos, a gente não revisita o que aconteceu e é incapaz de identificar quais foram os caminhos melhores e os que não devem ser seguidos, o que também limita a capacidade de planejamento para condições futuras.”
Palestras
O evento contou também com duas palestras. A primeira, intitulada “O friso da Ciência”, foi proferida por Licia Maria Henrique da Mota, professora do Programa de Pós-graduação em Ciências Médicas da Faculdade de Medicina da UnB e médica reumatologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB) da UnB. Em sua fala, ela utilizou a arte para traçar um paralelo entre a busca humana e aquilo que move a ciência e a medicina. “Desde o início da trajetória na medicina a escolha é movida por idealismo. Com o tempo, aprendemos uma distinção fundamental: salvar é raro e heroico; cuidar é cotidiano, profundo e essencial. E a pandemia deixou isso mais claro”, ressaltou.
A professora também compartilhou experiências marcantes vividas durante a pandemia, período que, segundo ela, foi determinante na formação da identidade de muitos médicos. “Acredito que várias coisas nos moldam e nos formam como médicos. São momentos vividos que vamos construindo nossa identidade como médicos. Durante o período da pandemia, profissionais de diferentes especialidades – médicos clínicos, cirurgiões, ginecologistas, psiquiatras – que não atuavam há muito tempo em situações de emergência foram convocados a trabalhar em unidades de emergência e terapia intensiva. Enfrentamos situações extremamente desafiadoras, mas que tornou aprendizados durante a carreira”, disse.
Mota também abordou o impacto da sobrecarga emocional na prática médica. “Os profissionais são constantemente confrontados não apenas com a morte, mas com o sofrimento em suas múltiplas formas, incluindo a frustração diante da impossibilidade de cura ou mesmo de melhora. Eu me lembro que um episódio me marcou muito diante da perda de um paciente, quando uma colega neurologista demonstrou que a essência da medicina está no cuidado e no consolo. Eu tenho infinitas histórias de construção da minha identidade como médica, mas aquele momento eu compreendi de fato a beleza do nosso ofício”, comentou.
A professora também destacou que o reconhecimento nem sempre acontece, e que muitos dos momentos mais significativos da prática médica ocorrem no anonimato, longe de qualquer visibilidade, no cuidado diário.
Já na segunda palestra “Das trevas à luz”, Cleandro Pires de Albuquerque, médico assistente do Serviço de Reumatologia do HUB/UnB, fez um balanço das ações científicas no período da pandemia de covid-19, relatando as experiências do Hospital Universitário de Brasília.
“Foi um desafio que todos nós tínhamos pela frente. Do ponto de vista das equipes de saúde, os esforços foram enormes. Na indústria, nos parques industriais, grandes esforços também foram feitos, sobretudo na indústria farmacêutica e indústria de materiais médicos e hospitalares para fazer frente à demanda, para produzir a quantidade adequada de insumos, de medicamentos, de equipamentos, mas também houve grandes esforços para desenvolver novos medicamentos, novas vacinas.”
Albuquerque contou que o HUB/UnB participou de mais de 20 pesquisas acerca da covid-19 no período da pandemia, o que derivou um comitê organizador e, posteriormente, a Sala de Apoio ao Pesquisador, um local de trocas e amplitude dos estudos em desenvolvimento.
“Em síntese, houve trevas naquele momento de pandemia, mas também houve luz por conta da ciência e por meio da dedicação e da reinvenção de cada um de nós”, concluiu.