Iniciativa aproximou residentes de diferentes programas da Escola de Governo Fiocruz-Brasília das realidades do sistema prisional, fortalecendo a formação em saúde e contribuindo para um cuidado mais qualificado no SUS
Bruna Pina (Nusmad/Fiocruz Brasília)
O Sistema Único de Saúde (SUS) é construído diariamente nos territórios, a partir das necessidades reais da população. Para que esse cuidado seja efetivo, é fundamental que a formação dos profissionais de saúde acompanhe essa realidade, aproximando o ensino das comunidades. É nesse encontro entre conhecimento e prática que se fortalecem tanto a formação quanto as políticas públicas.
Com esse propósito, a Fiocruz Brasília, por meio do Núcleo de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Nusamd), articulou, em parceria com a Comissão de Residência Multiprofissional em Saúde e em Área Profissional da Saúde (COREMU), a Comissão de Residência Médica (COREME) e as coordenações dos programas de residência da Escola de Governo Fiocruz-Brasília, a participação de residentes nas Ações de Cidadania em Saúde no Sistema Prisional. A iniciativa levou profissionais em formação para atuar em um dos contextos mais complexos da saúde pública brasileira, durante ações realizadas nos estados do Mato Grosso, Amapá e Acre.
Ao inserir residentes em um cenário historicamente invisibilizado, a experiência ampliou o acesso ao cuidado para pessoas privadas de liberdade e servidores penitenciários e consolidou um modelo de formação baseado na vivência dos territórios e na compreensão das diferentes realidades que compõem o SUS.
Os residentes participaram das ações, representando os programas de Atenção Básica, Saúde da Família com Ênfase na População do Campo; Vigilância em Saúde; Medicina de Família e Comunidade; e Gestão de Políticas Públicas para a Saúde. A iniciativa reuniu profissionais das áreas de medicina, enfermagem, nutrição, fisioterapia e educação física, que passaram a integrar equipes multiprofissionais durante as ações, desenvolvendo atividades de promoção da saúde, prevenção de agravos e assistência em um ambiente que exige respostas articuladas e sensíveis às especificidades da população atendida.
Formação que fortalece o SUS
Para o coordenador do Nusamd, André Guerrero, experiências como essa demonstram que a formação em saúde precisa acontecer onde os desafios estão presentes.
“São essas experiências em campo que transformam a ida das residências em uma ação estruturante, aproximando profissionais em formação das diferentes realidades do SUS e contribuindo para um cuidado mais qualificado, humano e conectado às necessidades da população.”
Segundo ele, quando os residentes vivenciam diferentes contextos sociais e sanitários durante a formação, retornam aos seus serviços mais preparados para compreender as necessidades da população e contribuir para o fortalecimento das redes de atenção à saúde.
Essa também é a avaliação da enfermeira e tutora da Residência de Atenção Básica, Rosália Gomes, que destaca o papel da iniciativa na integração entre diferentes áreas do conhecimento. “Nós pudemos levar cinco dos seis programas de residência para experimentar um novo campo de atuação. Foi uma ação muito importante para os residentes poderem experimentar um novo ambiente e trazer os múltiplos olhares dos diversos programas para a saúde da população privada de liberdade.”
A presença de residentes de diferentes programas favoreceu uma atuação interdisciplinar, permitindo que distintas competências dialogassem em torno de um mesmo objetivo: ampliar o cuidado em um contexto marcado por desafios sociais, sanitários e institucionais.
Conhecimento que retorna aos territórios
Além da contribuição imediata às equipes que atuam nas unidades prisionais, a iniciativa deixa um legado permanente na formação dos profissionais. A experiência vivida em campo acompanha os residentes ao longo de suas trajetórias e amplia sua capacidade de responder às diferentes realidades encontradas no SUS.
Para o residente de Medicina de Família e Comunidade Caio Aguiar Carvalho, a imersão possibilitou compreender, na prática, a complexidade do cuidado destinado a uma população em situação de vulnerabilidade.
“Quando a gente tem essa oportunidade de fazer uma imersão em outro estado e ter contato com a população privada de liberdade, a gente entende de fato o que é a realidade de uma população realmente vulnerável.”
Ele destaca que o aprendizado não termina ao final da ação. “É uma oportunidade para a gente não só aprender sobre novas patologias, sobre novas populações, mas também, quando a gente chega ao nosso cenário, ser um multiplicador do que aconteceu lá, pegar nossa experiência e transformar vidas na nossa localidade a partir do conhecimento que adquirimos.”
Esse potencial multiplicador é um dos principais resultados da iniciativa. Cada residente retorna ao seu território levando uma compreensão mais ampla sobre equidade, organização das redes de cuidado e atenção integral à saúde, fortalecendo os serviços onde passará a atuar.
Um modelo de formação orientado pelos territórios
Ao aproximar residentes de realidades pouco presentes nos cenários tradicionais de ensino, a Fiocruz Brasília reafirma uma concepção de formação comprometida com os princípios do SUS. Mais do que ampliar campos de prática, a instituição investe em experiências capazes de preparar profissionais para responder aos desafios concretos encontrados nos diferentes territórios brasileiros.
Ao longo de três Ações de Cidadania em Saúde no Sistema Prisional, essa proposta mostrou que formar profissionais também é fortalecer políticas públicas. Quando ensino, assistência e gestão caminham juntos, o conhecimento produzido na formação retorna para os territórios em forma de cuidado mais qualificado, sensível e conectado às necessidades da população.
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