Relato de Júlia Raquel Barbosa dos Santos Costa (setembro/2025)
A minha ótica do SUS sempre foi a de uma usuária eventual do Sistema: a Unidade Básica de Saúde (UBS) era um cenário de visitas pontuais e os hospitais raramente me viam (ainda bem!). Fui uma criança saudável que precisou de pouca assistência, se bem que, parando para pensar, a minha infância e adolescência só foram saudáveis e seguras graças a um Programa tão completo e importante quanto o Programa Nacional de Imunizações (PNI). E é aí que a trajetória de uma vida no SUS se inicia. Curioso, né?
O Sistema Único de Saúde (SUS) perpassa nossas vidas e rotinas de formas sutis, culturalmente estabelecidas. É como acordar cedo num domingo e o corpo estar automaticamente inclinado a tomar um bom café na padaria da esquina, e, naquele trajeto até o cheiro inebriante de pão na chapa, passar pela casa da sua vizinha, Dona Geralda, a enfermeira que aplicou todas as suas vacinas quando você era criança, naquela UBS que fica a 200 metros da padaria, a um quilômetro da sua casa, a mesma Unidade em que sua mãe fez o pré-natal, e a mesmíssima unidade em que sua avó, há 10 anos, tão oportunamente, recebeu o diagnóstico e o tratamento da dengue, doença que deixou dores articulares como sequelas, tratadas no grupo de fisioterapia do antigo NASF (Núcleo Ampliado de Saúde da Família), hoje eMulti (Equipes Multiprofissionais na Atenção Primária à Saúde).
Nesse rodeio que mistura cultura, rotina, território e familiaridade, o que quero dizer é que o SUS está onde existe gente, gente comum, vivendo suas vidas. Crianças, adolescentes, adultos e idosos. Na minha escolha de formação profissional — medicina veterinária —, confesso que jamais teria imaginado atuar no SUS até que, sutilmente, como ele bem faz, esse Sistema deu um jeito de me mostrar, mais uma vez, que ele é para mim e que eu precisava dele. Desde a vacina antirrábica (obrigatória para o seguimento das atividades da faculdade) até as matérias de Vigilância em Saúde durante o curso, tive a oportunidade de, aos poucos, me encantar aos montes pela Saúde Única. E é aí que a minha perspectiva muda de “O SUS me serve” para “Quero servir o SUS!”.
De projetos de iniciação científica a saídas de campo, estágios e vivências voluntárias na saúde pública, eu me descobri como uma veterinária que gosta de gente e de bicho. A Fiocruz Brasília entra nesta história como propulsora de toda a minha satisfação atual na vida acadêmica e profissional: o Programa de Residência Multiprofissional de Vigilância em Saúde (PRMVS). Ingressar neste processo seletivo expandiu meus horizontes e me mostrou que o médico veterinário pode não só trabalhar na agropecuária e nas clínicas de pets, como ter outras atuações profissionais, cuidando, inclusive, da saúde humana. Isso mesmo: o veterinário também cuida de gente! O PRMVS integra os saberes de diversas formações profissionais em uma área que ainda recebe pouco destaque no SUS, mas que está em tudo: a vigilância.
É de uma responsabilidade gigantesca lidar com dados de saúde que são usados para planejar ações de prevenção e promoção da saúde da população brasileira. Esse trabalho, por vezes atrás de um computador, tem um alcance imenso. O SUS está na qualidade da água que a gente bebe, no controle de doenças que acometem animais domésticos — como pude aprender no meu primeiro cenário de campo na vigilância ambiental —, nas vacinas aplicadas e no estudo das taxas de incidência e prevalência — como entendi na vigilância epidemiológica. Tudo isso me fez enxergar um SUS plural como deve ser, universal, integral e com equidade, garantindo mais saúde a quem mais precisa. No meio de tantos gráficos, tabelas e trabalhos acadêmicos, eu me enxerguei como protagonista de uma só saúde, promovida das mais variadas formas, inclusive pelas mãos de uma médica veterinária como eu. Por isso, só tenho a agradecer à Fiocruz Brasília: hoje entendo que eu sou para o SUS, assim como ele é para mim.
“Dê Letras à Sua Ação” busca divulgar artigos assinados por colaboradores e estudantes da Fiocruz Brasília sobre iniciativas relacionadas a seus trabalhos ou de seus colegas. Os relatos são de responsabilidade de seus autores.
Fotos: Acervo Pessoal