O que antes era marcado por mato e braquiária [espécie de capim], hoje floresce em vida. O solo, que era compactado e aparentemente infértil, passou a produzir mais de cinco toneladas de alimentos, entre milho, abóbora e feijão. Essa transformação define a experiência das hortas agroecológicas dos terreiros participantes do Projeto Ecoilê, observadas de perto no último sábado (18/4), durante a saída de campo de 2026. A primeira edição do dia de campo ocorreu em 2023, quando foram visitados quatro terreiros integrantes do projeto.
A iniciativa busca implementar ações que promovam tecnologias sociais em terreiros de matriz africana no Distrito Federal, com foco no fortalecimento de políticas públicas voltadas à agroecologia, à saúde, à soberania e à segurança alimentar e nutricional.
A atividade percorreu três dos oito terreiros participantes. A primeira parada foi no Centro Espírita Social e Cultural Pai Tomé de Aruanda (Cepta), localizado na região da Ponte Alta Norte, no Gama (DF). No local, os visitantes acompanharam de perto a mudança do território: onde antes havia solo compactado e presença de resíduos sólidos, hoje se estabelece uma horta produtiva, com cerca de 98 espécies de plantas medicinais. As plantas são utilizadas em rituais religiosos, nos atendimentos espirituais e distribuídas à comunidade do entorno, ampliando os impactos sociais da iniciativa.
Para o Pai Francisco de Ogum, a iniciativa é resultado do esforço coletivo, aliado à orientação da equipe técnica do projeto. Atualmente, o espaço conta com uma farmácia viva. Além das plantas medicinais, também são cultivadas hortaliças. “O Ecoilê nos trouxe o conhecimento necessário para trabalhar em nossos espaços. Hoje, contamos com uma horta-farmácia que atende tanto a nossa comunidade religiosa quanto a comunidade do entorno do Centro”, destacou.
Seguindo o cronograma do dia de campo, o segundo terreiro visitado foi a Seara Espírita de Umbanda Ogum, Oxóssi e Xangô, localizada em Taguatinga (DF). Assim como em outros espaços, surgiu a proposta de transformar a área em um ambiente de cuidado com a natureza e de cultivo de ervas ritualísticas.
O primeiro plantio ocorreu em abril de 2024, em um terreno até então degradado, com solo exposto e compactado, pouca vegetação e utilizado como depósito irregular de entulho e lixo. Com a autorização da Administração Regional de Ceilândia e da Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (Seagri-DF), foram iniciadas práticas agroecológicas voltadas à recuperação do solo, tornando-o vivo e produtivo.
Atualmente, o cultivo ocupa uma área de 500m² e reúne uma grande variedade de espécies, incluindo ervas medicinais, plantas ornamentais e árvores frutíferas, somando mais de 100 espécies no acervo.
Para a sacerdotisa do terreiro, Mãe Dercione de Oxum, a transformação do espaço representa resistência e mobilização coletiva. “Onde antes havia solo degradado e descarte irregular de resíduos, hoje brotam a resistência e a vida. Tivemos apoio da comunidade para seguir juntos nessa luta, que foi colocar esse espaço em pleno funcionamento. É uma alegria ver nosso ‘cantinho sagrado’ todo verde, cheio de vida”, afirmou.
O último terreiro visitado foi a Nzo Kia Angurusemavulu, uma casa de Candomblé Angola MoxiKongo, de raiz Bate-Folha (BA). Segundo a mãe pequena Makota Kiesimanzambi, a área destinada ao plantio permaneceu ociosa por mais de 20 anos, apresentando baixa fertilidade, solo exposto, sinais de erosão e alta compactação.
De acordo com Kiesimanzambi, o processo de implantação do cultivo envolveu escuta ativa da comunidade, com a identificação de demandas e expectativas, além da participação dos filhos de terreiro e moradores do entorno. Ela também destacou as dificuldades iniciais para o cultivo das ervas no espaço atual do horto. Antes, as plantas medicinais eram mantidas em canteiros distribuídos pelo terreiro.
Outro desafio relatado foi a baixa produtividade do solo. Ainda assim, a primeira colheita, realizada em 2023, resultou em cerca de 1,5 tonelada de abóbora e milho. Ela ressaltou a alegria da comunidade ao acompanhar a transformação da área, antes infértil, em um espaço produtivo, onde hoje brota vida por meio dos alimentos cultivados.
Atualmente, o espaço reúne mais de 70 espécies, entre elas girassol, guandu, gergelim, feijão-de-porco, alecrim, capim-santo, manjericão, cidreira e orégano. Ao todo, já foram produzidas mais de cinco toneladas de alimentos, incluindo milho, abóbora, feijão, batata-doce, quiabo e mandioca. Essa produção atende mais de 60 famílias da comunidade do entorno, além de filhos de santo, parceiros e colaboradores da casa.
As visitas aos terreiros contaram com a participação de coordenadores e pesquisadores do projeto, além de sacerdotes e representantes das demais casas que integram a iniciativa. Também estiveram presentes a diretora da Fiocruz Brasília, Fabiana Damásio; acompanhada da vice-diretora e coordenadora do Projeto Ecoilê, Denise Oliveira e Silva; do pesquisador Wagner Martins; e da assessora da direção, Celina Roitman.
Representantes de ministérios também acompanharam a agenda, entre eles Ronaldo dos Santos, secretário de Políticas para Quilombos, Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana e Ciganos do Ministério da Igualdade Racial; Camila Carneiro, da Secretaria de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; e Ernando Pinto, coordenador-geral de Inclusão Produtiva e Etnodesenvolvimento Quilombola e de Povos e Comunidades Tradicionais da Secretaria de Territórios e Sistemas Produtivos Quilombolas e Tradicionais do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar. Também participou a deputada federal Erika Kokay, responsável pela destinação de emenda parlamentar que contribuiu para a viabilização do projeto.
Para a diretora da Fiocruz Brasília, a iniciativa é motivo de orgulho e emoção. Segundo ela, cada terreiro visitado trouxe uma experiência singular. Ao destacar a trajetória do projeto, ressaltou que o Ecoilê chega ao seu sétimo ano em constante crescimento, promovendo transformações concretas nos territórios.
“Que cada vez mais possamos estar presentes nos solos dos terreiros, fazendo essas políticas públicas florescerem”, enfatizou. A diretora também destacou que o projeto tem contribuído para a construção de políticas públicas voltadas à prosperidade nos solos sagrados do Distrito Federal.
Projeto Ecoilê
O Projeto Ecoilê é resultado da cooperação entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Instituto Federal de Brasília (IFB) e terreiros de matriz africana da Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (RIDE-DF). A iniciativa busca integrar saberes ancestrais a tecnologias contemporâneas, com o objetivo de promover saúde, agricultura, soberania e segurança alimentar e nutricional.
O Ecoilê reconhece os terreiros como espaços promotores de saúde e sustentabilidade, valorizando suas vocações produtivas, especialmente na produção agroecológica de alimentos e na criação de pequenos animais. Essas práticas estão diretamente associadas à promoção do reconhecimento cultural, histórico, social e econômico dos patrimônios de saberes e práticas tradicionais.
O projeto é composto por oito terreiros: Ilê Axé Idá Wurá; Ilê Eiyelé Ogè Asé Ogodò Asé Òsógiyan; Ilê Axé Omò Orã Xaxará de Prata; Ilê Odé Axé Opô Inle; Seara Espírita de Umbanda Ogum, Oxóssi e Xangô; Centro Espírita Social e Cultural Pai Tomé de Aruanda; Nzo Kia Angurusemavulu; e Santuário de Maria – Terreiro Vovó Maria Conga.
Confira aqui as fotos do dia de campo 2026.