Encontro Nacional do Nós na Rede reúne experiências e amplia diálogo sobre saúde mental no SUS

Fiocruz Brasília 28 de setembro de 2026


Vanessa Bernardes (Nusmad/Fiocruz Brasília)

 

Realizado em Manaus, encontro promoveu a troca de experiências entre participantes do projeto e outros trabalhadores interessados na pauta da saúde mental, com reflexões sobre os desafios da Rede de Atenção Psicossocial

 

Experiências construídas nos territórios, inquietações sobre os desafios atuais da saúde mental no Brasil e diferentes perspectivas sobre o cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS) estiveram no centro do Encontro Nacional do Projeto Nós na Rede, realizado na quarta-feira (16/9), em Manaus (AM), durante a programação do 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS), da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

 

Com o tema “Experiências Territoriais e Desafios Contemporâneos da Atenção Psicossocial”, a atividade reuniu educadores, cursistas e integrantes das equipes envolvidas no curso Nós na Rede, mas foi além dos participantes do projeto. Pessoas com diferentes trajetórias e experiências também se somaram ao encontro, ampliando as perspectivas presentes no debate sobre a saúde mental no SUS e a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).

 

Para Erika Almeida, coordenadora-geral de Ações Estratégias de Educação na Saúde da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde (SGETS/MS), o Nós na Rede tem papel estratégico na mobilização e no fortalecimento da RAPS. “Para nós, do Ministério da Saúde, o Nós na Rede é mais que um curso de qualificação, é uma grande estratégia de mobilização. É também uma oportunidade de fortalecer a rede e, principalmente, uma oportunidade de costurar esses ‘nós’ que formam essa grande rede de atenção psicossocial”, destacou.

 

Fabiana Damásio, diretora da Fiocruz Brasília, também ressaltou a trajetória construída pelo projeto e a importância de sua continuidade. “Para mim, o Nós na Rede é uma construção histórica por tudo que ele representa. E a gente está aqui lutando para que o Nós na Rede seja essa política de Estado e que haja uma continuidade dessa ação para a população.” Segundo Fabiana, a abrangência alcançada pelo projeto também evidencia sua dimensão no fortalecimento do cuidado em saúde mental. “O Nós na Rede é a representação de um cuidado diário. Ele alcançou mais de 1.900 municípios, é uma potência que a gente tem e que precisa sustentar e conservar.”

 

Um espaço para falar e escutar

 

A proposta do encontro, coordenado por Daiana Brito, Mariana Nogueira e Larissa Polejak (frente nacional pedagógica do curso), privilegiou a participação e a construção coletiva. Os participantes foram convidados a refletir sobre como se sentem diante da pauta da saúde mental no SUS e na RAPS e a compartilhar inquietações, desafios e questões que atravessam suas experiências nos diferentes territórios.

 

O exercício colocou a escuta no centro da atividade. Ao reunir pessoas diretamente envolvidas no Nós na Rede e participantes que tiveram contato com o projeto naquele espaço, o encontro possibilitou que diferentes olhares se encontrassem em torno de uma pergunta comum: quais questões nos mobilizam hoje quando pensamos o cuidado em saúde mental no SUS?

 

As inquietações compartilhadas serviram como ponto de partida para um diálogo sobre os desafios contemporâneos da atenção psicossocial e sobre os caminhos possíveis para o fortalecimento de uma rede de cuidado articulada às necessidades e singularidades das pessoas e dos territórios.

 

Para Tassi de Oliveira, educador do Nós na Rede, essa dimensão de escuta foi um dos aspectos marcantes da experiência nos territórios. “O Nós na Rede chegou no território e disse para o indivíduo que estava ali: ‘Aqui tem uma alma viva’. Nos encontros que conduzi, a maior parte dos comentários dos cursistas era de que os encontros presenciais eram um momento em que eles podiam ser escutados. É esse tipo de escuta que o Nós na Rede proporciona e é esse tipo de escuta que a gente precisa aprender a fazer”, afirmou.

 

Entre as inquietações apresentadas durante as discussões, a emergência climática e seus impactos sobre a saúde mental ganharam destaque, a partir das experiências vivenciadas no Amazonas. Os participantes chamaram atenção para situações recentes enfrentadas no estado e para a forma como eventos climáticos extremos atravessam a vida das populações, os territórios e a própria capacidade de resposta dos serviços de saúde.

 

Na atividade, foi apontada, ainda, a preocupação com o preparo das políticas e dos serviços de saúde para responder às emergências climáticas, especialmente diante da perspectiva de que esses eventos se tornem cada vez mais frequentes e intensos. Na avaliação compartilhada pelos participantes, os impactos não se restringem às demandas imediatas provocadas pelas emergências, mas alcançam também a saúde mental das populações e dos próprios trabalhadores responsáveis pela continuidade do cuidado em contextos adversos.

 

No Amazonas, essa discussão se conecta a desafios já presentes na organização da atenção à saúde. As grandes distâncias, os deslocamentos fluviais, as particularidades de acesso aos diferentes territórios e as condições ambientais interferem tanto na oferta das políticas públicas quanto na possibilidade de garantir a continuidade do cuidado. Durante o encontro, essas questões também foram relacionadas aos desafios logísticos encontrados para a oferta do curso Nós na Rede no estado.

 

Outra inquietação compartilhada pelos grupos esteve relacionada à precarização dos vínculos empregatícios dos trabalhadores da rede de atenção psicossocial no SUS e ao atendimento das demandas de saúde mental na Atenção Primária à Saúde, considerada um nível de atenção fundamental para o cuidado nos territórios. Os relatos colocaram em discussão os desafios enfrentados pelas equipes para acolher essas demandas e articulá-las aos demais pontos da Rede de Atenção Psicossocial.

 

Ao reunir questões relacionadas à emergência climática, aos vínculos empregatícios das trabalhadoras da Rede, à Atenção Primária, às distâncias e às condições de acesso, o debate evidenciou como as características de cada território interferem concretamente na implementação das políticas públicas. No contexto amazônico, pensar o fortalecimento da RAPS significa também discutir como preparar a rede para responder a cenários de emergência sem perder de vista a continuidade do cuidado em saúde mental.

 

Experiências que aproximam territórios

 

As discussões também dialogaram com as experiências acumuladas pelo Nós na Rede ao longo de seus ciclos formativos. Desenvolvido pelo Ministério da Saúde em parceria com a Fiocruz Brasília, Escolas do SUS e de Saúde Pública, e contando com o apoio do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) e do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS), o projeto tem na educação permanente uma estratégia para fortalecer as práticas de atenção psicossocial e aproximar a formação dos desafios vivenciados cotidianamente nos serviços e territórios para o cuidado em liberdade.

 

Nesse percurso, experiências locais se tornaram também oportunidades de aprendizagem coletiva. Ao oportunizar o diálogo de pessoas de diferentes regiões, formações e vínculos com a atenção psicossocial, a atividade possibilitou que conhecimentos construídos no âmbito do curso se encontrassem com outras experiências e questões presentes no SUS.

 

Construção coletiva

 

A atividade também reforçou uma dimensão que atravessa a trajetória do Nós na Rede: a construção do conhecimento a partir do encontro. Ao final, as reflexões produzidas pelo grupo convergiram para uma compreensão compartilhada sobre a importância de manter abertos os espaços de diálogo e participação na construção da atenção psicossocial. O encontro evidenciou que fortalecer a RAPS também passa pela possibilidade de reunir diferentes vozes para pensar, coletivamente, os caminhos do cuidado em saúde mental e o cuidado em liberdade no SUS.

 

 

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