Vanessa Bernardes (Nusmad/Fiocruz Brasília)
Participação do Núcleo da Fiocruz Brasília reúne pesquisas, experiências e diferentes linguagens para discutir saúde mental, gênero, juventudes, interseccionalidade, território e desafios da Atenção Psicossocial
O Núcleo de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas (Nusmad) da Fiocruz Brasília participou do 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), em Manaus (AM), com uma programação marcada pela diversidade de temas e perspectivas que atravessam a saúde mental e a Atenção Psicossocial no país.
Nos dias 17 e 18 de setembro, integrantes e pesquisadores vinculados ao Núcleo participaram de comunicações orais, coletivos temáticos, mesa-redonda e atividades em outras linguagens. As discussões abordam cuidado em liberdade, autonomia das mulheres, juventudes, gênero e sexualidade, população LGBTQIA+, interseccionalidade, território e produção de narrativas sobre experiências de cuidado.
A presença do Nusmad no congresso reúne diferentes frentes de pesquisa e atuação em torno de questões relacionadas à garantia de direitos e à produção do cuidado em saúde mental. As atividades colocam em diálogo produção de conhecimento, experiências, territórios e sujeitos, ao mesmo tempo em que discutem desafios contemporâneos para a Atenção Psicossocial.
Território, gênero e interseccionalidade atravessam debates
As relações entre saúde mental, gênero, território e as diferentes dimensões que atravessam as experiências de vida estiveram entre os temas discutidos no Coletivo Temático – Liberdade de Ser, coordenado pela historiadora e pesquisadora do Nusmad, Fernanda Maria Duarte Severo. O CT articula gênero, saúde mental, injustiças climáticas e trabalho a partir das histórias de si, dos territórios de resistência e protagonismo e das narrativas de cuidado.
Segundo a pesquisadora, “foi especialmente significativo coordenar o Coletivo Temático, ao lado de Simone Paulon e Helisleide Bomfim, que são usuárias do SUS. O espaço permitiu reunir experiências de diferentes locais do Brasil e discutir como saúde mental, gênero, luta socioambiental, economia solidária e direito à moradia se articulam na construção de territórios onde a liberdade e o cuidado potencializam a vida”.
Durante a atividade, Juliana Galvão Rodrigues, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), chamou atenção para o afastamento dos territórios como um dos desafios para pensar as relações sociais e a produção do cuidado na atualidade.
“Um grande desafio desse tempo é pensar no andamento dessa sociedade cada vez mais individualista, cada vez mais apartada dos territórios. Nessa pesquisa, a gente viu o quanto está distante do território e percebeu que tem que aprender e reaprender o tempo todo numa sociedade que está em constante movimento e com um sentimento muito fortemente individualista”, afirmou.
Ao comentar o conjunto dos trabalhos apresentados, Fernanda Severo chamou atenção para outro elemento comum às experiências compartilhadas no coletivo: a busca por diferentes formas de comunicação para enfrentar preconceitos e estigmas.
“Uma coisa que me chama atenção hoje é como todos os trabalhos apresentados aqui buscaram recursos audiovisuais, podcasts, áudios. Ou seja, todos nós, de alguma maneira, estamos tentando comunicar algo que quebre preconceitos e estigmas. E a sensação imediata é que a gente ainda pode se ajudar muito”, afirmou.
A diversidade de recursos observada por Fernanda também está presente na própria programação do Nusmad no congresso, que combina formatos acadêmicos tradicionais com produções audiovisuais e outras linguagens.
Mulheres, autonomia e juventudes
As experiências das mulheres usuárias dos serviços de saúde mental ganham espaço na comunicação oral “O cuidado e a autonomia das mulheres usuárias da saúde mental nas metrópoles: Diários de Sampa e Salvador”. O trabalho reuniu Taiane Naressi Lopes, Fernanda Maria Duarte Severo, André Vinicius Pires Guerrero, João Aranha, Vera Roçado, Lorena Padilha Pereira, Juliana Rodrigues de Vargas, Laura Souza e Yuri Prado.
As juventudes também integram esse conjunto de discussões. A comunicação “Da experiência à Agenda Pública: Juventudes em acolhimento e pós-acolhimento na formulação de políticas” abordou a relação entre as experiências de jovens e a construção de políticas públicas. O trabalho reuniu os profissionais Lorena Padilha Pereira, Fernanda Maria Duarte Severo, André Vinicius Pires Guerrero, Márcia Caldas, Luísa de Marillac Xavier Passos, João Aranha, Yuri Prado, Vera Roçado e Taiane Naressi Lopes.
Os dois trabalhos aproximam questões de autonomia e participação de contextos específicos de vida e cuidado, ampliando a discussão sobre a presença das experiências dos próprios sujeitos na produção de conhecimento e na formulação de políticas.
Narrativas audiovisuais sobre morar e cuidar em liberdade
A utilização de diferentes formas de comunicação, aparece também em “Diários de Sampa – Morar em Liberdade: Narrativas audiovisuais sobre o cuidado em liberdade e reinserção social na metrópole paulistana”.
Apresentada na modalidade “Outras linguagens”, a produção tem autoria de Juliana Rodrigues de Vargas, Fernanda Maria Duarte Severo, André Vinicius Pires Guerrero, Lorena Padilha Pereira, João Aranha, Yuri Prado, Vera Roçado, Taiane Naressi Lopes e Laura Souza.
Sobre a participação do Núcleo, Fernanda Severo considera que “consolidamos redes de intercâmbios e ampliamos horizontes reflexivos para as nossas pesquisas Memórias da Saúde Mental/Morar em Liberdade e Territórios da Construção de Si, ações que tenho coordenado no Nusmad”.
Ao incorporar narrativas audiovisuais ao espaço do congresso, a atividade amplia as possibilidades de compartilhar experiências relacionadas à vida em liberdade e à reinserção social, aproximando outras formas de expressão dos debates produzidos no campo da saúde coletiva.
Diversidade, pertencimento e cuidado nos CAPS
As relações entre gênero, sexualidade, raça/cor/etnia e território também integram a participação vinculada ao Núcleo. No dia 17, o trabalho “Panorama de iniciativas sobre gênero, sexualidade, raça/cor/etnia nos CAPS do município de São Paulo: território, interseccionalidade e pertencimento” reuniu Tarsila Flores, Joyce Juliana Dias de Avelar, Luiz Felipe Zago e André Vinicius Pires Guerrero.
Na sexta-feira (18), a discussão se ampliou com a comunicação oral “O Cuidado à População LGBTQIA+ nos Centros de Atenção Psicossocial”, de Joyce Juliana Dias de Avelar, Bruno Correia da Mota, Tarsila Flores, Luiz Felipe Zago e André Vinicius Pires Guerrero.
As apresentações trazem para o debate as diferentes dimensões sociais que atravessam as experiências dos sujeitos e sua relação com os serviços de saúde mental, dialogando com questões de interseccionalidade e pertencimento presentes em outras atividades do Congresso.
Cuidado em liberdade e os desafios da Atenção Psicossocial
A programação se completou com a mesa-redonda “Cuidado em liberdade em tempos de disputa: desafios contemporâneos da Atenção Psicossocial no Brasil”, que reuniu Mariana Lima Nogueira, professora e pesquisadora da Fiocruz; Andreia Beatriz Silva dos Santos, médica, conteudista e educadora do Projeto Nós na Rede; e Tassi de Oliveira Santos e Lucas Fonseca, educadores do projeto.
A atividade, que teve a sala lotada, reuniu cerca de 60 participantes em um debate sobre os desafios contemporâneos para o cuidado em liberdade e a Atenção Psicossocial no Brasil. As discussões abordaram especialmente as relações entre raça, gênero e saúde mental, evidenciando como diferentes marcadores sociais e desigualdades atravessam as experiências de sofrimento, o acesso aos serviços e as práticas de cuidado nos territórios. A presença de profissionais envolvidos no Nós na Rede também aproximou o debate das experiências de formação e cuidado construídas no âmbito do projeto.
Para a participante da mesa, Andréia Beatriz, médica, conteudista e educadora do curso Nós na Rede, “o cuidado em liberdade exige enfrentar o racismo e a antinegritude como condições fundamentais para produzir uma atenção psicossocial comprometida com direitos, autonomia e humanidade”.
A mesa colocou o cuidado em liberdade no centro da discussão sobre os desafios contemporâneos da Atenção Psicossocial no país, tema que atravessa diferentes trabalhos apresentados durante o congresso.
Segundo a professora e pesquisadora da Fiocruz Brasília, Mariana Nogueira, “as discussões suscitadas pelos participantes da mesa afirmam que falar de atenção psicossocial é falar de um campo profundamente em disputa. E não apenas de uma disputa entre modelos assistenciais, mas entre diferentes projetos de cuidado, de liberdade, de direitos e de sociedade”.
Ao reunir pesquisas, experiências e narrativas que partem de diferentes sujeitos e territórios, a participação do Nusmad no 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde evidencia conexões entre saúde mental, direitos, diversidade e produção do cuidado. As atividades também apontam para a importância de ampliar as formas de produzir e comunicar conhecimento, incorporando vozes, experiências e linguagens capazes de aproximar o debate acadêmico das realidades vividas nos territórios.
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