A pergunta não é só um convite ao diálogo, mas uma afirmação de que é conversando que a gente se entende. Falar sobre como a pessoa neurodivergente se sente no ambiente do trabalho, ouvir quais são as barreiras de dificuldades que ela enfrenta, entender o papel do gestor e pensar nas adaptações razoáveis para o dia a dia são os caminhos possíveis para evitar o sofrimento dessas pessoas, apontados por Marcello Rezende, psicólogo do trabalho e chefe do Núcleo de Psicologia e Serviço Social da Coordenação de Saúde do Trabalhador (NUPSS/CST/Fiocruz).
Rezende foi um dos painelistas da mesa de debates Diversidade, Inclusão e Trabalho – Vamos Dialogar?, ao lado de Thaysa Garcia, chefe do Núcleo de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador Maduro (NAISTM/CST/Fiocruz). O evento, voltado a toda a comunidade da Fiocruz Brasília, foi realizado na terça-feira (25/8) e teve a mediação de Marisa Augusta de Oliveira, coordenadora de Saúde do Trabalhador da Fiocruz.
O painel de Rezende abordou as dificuldades que pessoas neurodivergentes enfrentam no ambiente de trabalho. Para ele, é fundamental que o gestor, a pessoa neurodivergente e a equipe conversem para compreender as limitações e amenizar as diferenças.
“É preciso promover o diálogo entre as pessoas de fato. A neurodivergência não tem cara. Por isso, é importante entender o perfil da pessoa neurodivergente, quais atividades têm mais afinidade, se é um trabalho mais de campo ou administrativo”, pontua o psicólogo do trabalho, que destaca que é necessário que tanto o gestor quanto a pessoa neurodivergente sejam flexíveis nessa jornada.
Rezende ressaltou ainda que a avaliação biopsicossocial não é para eliminar as pessoas, mas para identificar as dificuldades. “É fundamental respeitar a personalidade para além da deficiência, até para evitar capacitismo”, afirma.
Para a diretora-executiva da Escola de Governo Fiocruz-Brasília, Luciana Sepúlveda, a adaptação deve envolver os dois lados. “É uma linha tênue e acredito que o letramento e encontros como esse sejam importantes para compreender essas diferenças e não gerar nenhum sofrimento, nem para a pessoa neurodivergente e nem para quem convive com ela.”
Convivência intergeracional
O segundo painel Intergeracionalidade e trabalho: desafios entre “novos” e “antigos”, comandado por Thaysa Garcia, abordou a convivência entre diferentes gerações no ambiente de trabalho. “A força de trabalho está ficando grisalha”, afirma a chefe do Núcleo de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador Maduro da Fiocruz.
Segundo ela, o processo de envelhecimento está acelerado no Brasil em comparação com outros países. “Antes, era uma passagem de bastão, mas hoje há a convivência com diferentes gerações no ambiente de trabalho e isso envolve uma série de desafios, principalmente sobre a empregabilidade”, destaca.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o contato intergeracional é a forma mais eficaz de enfrentar o etarismo e promover a inclusão. Thaysa defende a construção de políticas institucionais mais inclusivas para evitar os esvaziamentos, que, segundo ela, “são formas sutis de cometer etarismo, não pensar nas pessoas mais velhas para aproveitar as oportunidades de desenvolvimento, por exemplo”.
A painelista ressaltou que classificar as gerações [Y, Z, X] acaba criando estereótipos e exclusões, e que, diferente do ambiente familiar, em que as pessoas convivem por laços de afeto, no ambiente de trabalho, o convívio diário é uma adaptação.
“A velhice não tem um CID [Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde]. Pensar em diversidade e inclusão é também pensar no envelhecimento, na forma como isso impacta no trabalho, sobretudo o ritmo, a resistência às mudanças, e levar em consideração as diferentes formas de se envelhecer, de acesso à saúde”, pondera Thaysa.
O debate Diversidade, Inclusão e Trabalho – Vamos Dialogar? foi uma iniciativa do Serviço de Gestão do Trabalho, da Coordenação de Gestão, dos Coletivos Jatobá 60+, de Acessibilidade e Inclusão e Pró-Equidade (Pequi) da Fiocruz Brasília.
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