As palmas no portão anunciavam: “ô, de casa, é da Saúde!”. Munidos de mapa, prancheta e o brilho no olhar de quem vai a campo para conhecer os processos da vigilância epidemiológica na prática, os 42 alunos da Especialização em Epidemiologia de Campo EpiSUS Intermediário – Turma Centro-Oeste iam, em duplas, percorrendo as ruas da Cidade Estrutural e do Sol Nascente/Pôr do Sol, regiões administrativas (RA) do Distrito Federal, batendo de casa em casa.
No território, onde a vida acontece e a pesquisa se desenvolve e cumpre o seu papel social, a atividade de campo dava conta do inquérito Cobertura vacinal e fatores associados à adesão à vacina contra a dengue em regiões administrativas vulnerabilizadas do Distrito Federal: subsídios para estratégias de enfrentamento às arboviroses. O foco era crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, públicos-alvo dessa vacinação.
A coleta de dados ocorreu nos dias 15 e 16 de maio, junto a responsáveis por crianças e adolescentes. As equipes levantaram informações sobre a cobertura vacinal e os fatores que influenciam a adesão. Ao todo, foram entrevistadas 408 pessoas, com o objetivo de ampliar a compreensão sobre o cenário local e subsidiar ações mais efetivas em saúde pública.
“Para mim, foi uma experiência muito positiva, principalmente pelo contato com as áreas onde as populações vivem para que a gente consiga identificar e ter essa percepção sobre os problemas que elas são acometidas, as dificuldades, os desafios. Mas que, acima de tudo, a gente percebeu que a população busca por saúde e, à medida do possível, tem se comprometido em realizar a vacinação contra a dengue”, afirmou a aluna da especialização EpiSUS Intermediário, Viviane Gusmão.
A atividade buscou ainda sensibilizar a população sobre a importância de manter a caderneta de vacinação atualizada e verificar o esquema vacinal completo, com a aplicação das duas doses da vacina contra a dengue. A pesquisa foi realizada por meio da metodologia “30 por 7”, um modelo de amostragem por conglomerados em três estágios, desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Amplamente utilizada em inquéritos de saúde comunitária, sobretudo em estudos de cobertura vacinal, essa estratégia permite avaliar populações geograficamente dispersas de forma ágil, com menor custo e elevada viabilidade logística.
A iniciativa integrou o Módulo 6 do curso, promovido pela Fiocruz Brasília, por meio do Núcleo de Epidemiologia e Vigilância em Saúde (Nevs) e a Escola de Governo Fiocruz-Brasília, e o Departamento de Emergências em Saúde Pública da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde.
Resultados preliminares
Após a análise dos dados coletados nos territórios, os estudantes elaboraram um relatório técnico mais detalhado, em que se espera que as informações obtidas subsidiem o planejamento de ações estratégicas voltadas ao fortalecimento da vacinação e à ampliação do acesso aos imunizantes, contribuindo para o enfrentamento das arboviroses no Distrito Federal.
Na RA do Sol Nascente/Pôr do Sol, foram abordadas 2.691 residências, com coleta de dados válidos em 204. A partir dos resultados preliminares, foi possível verificar que metade das famílias possuem renda mensal de até um salário-mínimo (49,2%), e é beneficiária de algum programa social (59%). A cobertura vacinal estimada foi de 70,9% para a primeira dose da vacina contra dengue e de 47,9% para o esquema completo (dose 1 + dose 2). A comunidade desta RA se mostrou favorável à vacinação, com 92,4% dos responsáveis pelas crianças não-vacinadas ou com atraso vacinal manifestando pretensão em realizar a vacinação.
Já na RA da Cidade Estrutural, foram visitados 3.055 domicílios com 204 entrevistados responsáveis por crianças de 10 a 14 anos. Os principais resultados preliminares evidenciaram que a renda familiar era composta por até um salário-mínimo (68,2%) e que recebiam benefício de programa social (68,5%). A cobertura vacinal contra dengue foi de 62,8% para a primeira dose e de 46,4% para o esquema completo. Observa-se que 31,6% não estavam vacinados, sendo os principais motivos da não vacinação o desconhecimento sobre a existência da vacina (40,4%) e a falta de tempo para levar para vacinar (18,4%). No entanto, os responsáveis relataram interesse em levar as crianças e/ou adolescentes para se vacinarem.
A atividade de campo contou com o apoio da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) e dos Agentes Comunitários de Saúde dos territórios envolvidos, fundamentais para a execução das ações e para o diálogo com a população local.
A especialização
A Especialização EpiSUS Intermediário – Turma Centro-Oeste é uma estratégia de capacitação em serviço voltada a profissionais que atuam no Sistema Único de Saúde (SUS), com o objetivo de fortalecer a vigilância epidemiológica e a capacidade de resposta a emergências em saúde pública. A turma atual é composta por 42 profissionais de saúde dos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal.
“O trabalho de campo é o momento e que a gente reúne todo o conhecimento teórico do curso e aplica para uma questão de saúde coletiva real do território. A gente pretende fazer uma contribuição que é dupla, tanto para a formação dos profissionais que atuam no SUS, quanto para uma resposta que ajude o território a traçar as estratégias para alcançar uma boa cobertura vacinal”, ressalta a coordenadora da especialização EpiSUS Intermediário, Priscila Bochi.
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Com informações da Nota Técnica do Núcleo de Epidemiologia e Vigilância em Saúde (Nevs/Fiocruz Brasília).
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