Iris Pacheco (Psat/Fiocruz Brasília)
Nesta sexta-feira (6), foi realizada a cerimônia de encerramento da 5ª turma do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família com Ênfase na Saúde da População do Campo (PRMSFCampo), conhecida como Turma Buriti. O momento foi simbólico para a formação em saúde no Brasil, pois consolida como uma experiência pioneira no país, uma vez que é o segundo programa nacional com essa ênfase, reafirmando seu papel na qualificação de profissionais comprometidos com as realidades e necessidades das populações do campo.
André Fenner, pesquisador e coordenador do Programa de Promoção da Saúde, Ambiente e Trabalho (Psat/Fiocruz Brasília), destacou a importância dos intercâmbios com outras experiências internacionais para fortalecer os processos de formação e organização da saúde no Brasil. Ao mencionar a experiência de Cuba, ele ressaltou como esses diálogos contribuem para compreender melhor a Atenção Primária e os modelos de organização dos serviços de saúde.
Segundo Fenner, “foi uma experiência fundamental para a gente entender a atenção primária e toda a questão dos serviços de saúde e da formação em saúde. Eu acho que foram dois grandes momentos de luta: por um lado, seguimos apoiando e lutando por uma legislação melhor, com menos de 160 horas para vocês; por outro, buscamos trazer experiências de outros lugares para aprimorar cada vez mais o nosso sistema de saúde e levar mais benefícios para a nossa população”.
A formação de profissionais de saúde no Brasil ainda enfrenta desafios para superar modelos tradicionais, muitas vezes fragmentados e distantes das realidades territoriais. Nesse contexto, o PRMSFCampo se apresenta como uma proposta inovadora, promovendo uma formação interdisciplinar, crítica e territorializada, que articula saberes técnicos e populares e fortalece a Atenção Primária à Saúde em áreas rurais.
A vice-diretora da Fiocruz Brasília, Denise Oliveira e Silva, também ressaltou a relevância do programa e sua relação com os movimentos sociais. “As relações que vocês constroem me fazem acreditar que essa é uma missão fundamental. Isso comprova que dentro da Fiocruz também há espaço para inovação. A gente inova através da formação, e isso é uma marca da instituição. Muitas vezes encontramos vocês novamente no mestrado e em outras oportunidades de formação, e isso mostra a continuidade desse processo.”
Denise ainda destacou o caráter celebrativo do momento: “é um momento de celebrar, porque acreditamos que vocês continuam construindo caminhos para os que virão depois, sobretudo com o sucesso que demonstraram ao longo dessa trajetória”.
A cerimônia também foi marcada por falas de representantes institucionais que destacaram o papel transformador da Residência. A representante da Diretoria Regional de Atenção Primária à Saúde da Região Leste, Leniela Bergamo, ressaltou a importância do trabalho desenvolvido pelos residentes nos territórios e agradeceu à turma pelo trabalho que fizeram. “É uma Residência de extrema importância para a nossa região. Todos os programas são, mas você se dedicar a sair de casa é porque tem uma vocação. A Residência é muito importante porque é uma troca de saberes. Os servidores e a população aprenderam muito com a turma e vice-versa.”
Já Alcir Galdino, da Diretoria Regional de Atenção Primária da Região Norte, destacou as transformações no processo de formação em saúde ao longo do tempo. Para ele, “quando a gente olha o que era a Residência lá atrás, que era morar nos hospitais para entender a história da doença. Hoje é outra coisa e a Residência traz isso. Só tenho a agradecer pelo desacomodo que vocês têm gerado na gente e na possibilidade de que a gente consiga se tornar um serviço de saúde mais econômico, universal e integral”.
Representando a Comissão de Residências Multiprofissionais em Saúde da Escola de Governo Fiocruz-Brasília, Osvaldo Bonetti falou sobre a continuidade do processo formativo e o papel social da Residência. “É um momento de mudança de papel. Recebendo novas turmas, o que também nos encanta muito e nos mostra essa possibilidade de continuidade. O processo de humanização que a gente vive hoje na sociedade, em meio a guerras e processos de opressão impulsionados por países imperialistas que se acham donos do mundo, nos exige muita energia, coragem e existência de residentes, trabalhadores e trabalhadoras da saúde para seguir fortalecendo o que é o maior sistema público de saúde do planeta.”
Mais do que o encerramento de um ciclo formativo, a cerimônia simboliza o fortalecimento de um projeto político e pedagógico comprometido com a construção de um Sistema Único de Saúde (SUS) mais justo, equitativo e acessível. Com 5.760 horas de formação ao longo de dois anos, sendo 80% de práticas em serviço e 20% de atividades teóricas, os residentes atuam diretamente em Unidades Básicas de Saúde (UBS) situadas em territórios rurais. O currículo inclui temas como Educação Popular, Saúde Coletiva, Agroecologia e Educação do Campo, sempre em diálogo com os saberes populares e as experiências comunitárias. A atuação multiprofissional, envolvendo diferentes áreas da saúde, fortalece a integralidade do cuidado e amplia a resolutividade dos serviços.
A Turma Buriti deixa como legado uma experiência de formação profundamente conectada aos territórios e às lutas sociais do campo, reafirmando que a formação multiprofissional e interdisciplinar é um caminho potente para transformar realidades e fortalecer o direito à saúde no Brasil.
Clique aqui para ver as fotos.
LEIA TAMBÉM