Cooperação entre Fiocruz Brasília e Unicentro fortalece governança territorial em Pinhão (PR)

Fiocruz Brasília 10 de março de 2026


A iniciativa conta com a atuação da pesquisadora pinhãoense Ione Rodrigues Correia Woynaroski, que exerce papel estratégico como agente territorial na região

 

Fiorenza Cadore

A articulação entre o CoLaboratório de Ciência, Tecnologia, Inovação e Sociedade (CTIS) da Fiocruz Brasília e o Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Comunitário (PPGDC) da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) tem impulsionado um processo de organização territorial voltado ao desenvolvimento saudável, sustentável e solidário no município de Pinhão (PR).

A aproximação entre as instituições começou em 2024, quando a pesquisadora Ione Rodrigues Correia Woynaroski ingressou na especialização em Transformação Digital em Saúde, oferecida pela Fiocruz Brasília. O diálogo com pesquisadores do CoLaboratório CTIS evidenciou convergências entre o trabalho acadêmico desenvolvido na Unicentro e as metodologias da Fiocruz voltadas à promoção de Territórios Saudáveis, Sustentáveis e Solidários.

“Fiquei entusiasmada ao conhecer a lógica da Picaps, que contempla o uso do conceito denominado inteligência cooperativa, com a produção de informação a partir da interação entre diversos atores, sejam públicos ou privados, inseridos em um ambiente complexo, diante da necessidade de superar a fragmentação de saberes para compor soluções públicas. O conceito de inteligência cooperativa representa uma dinâmica de construção coletiva a partir da contribuição dos indivíduos que compõem uma rede, permitindo trazer importantes reflexões que, quando integradas, permitem contribuir de forma relevante para processos de desenvolvimento territorial”, relata Ione.

A cooperação foi consolidada em 2025, após a visita do pesquisador e coordenador do CoLaboratório CTIS, Wagner Martins, à Unicentro. A partir desse encontro, Pinhão foi definido como território prioritário para ações de pesquisa, formação e intervenção social, devido às vulnerabilidades socioambientais e à necessidade de fortalecer políticas públicas de saúde e desenvolvimento local.

Segundo Ione, a articulação nasceu da necessidade de enfrentar desafios complexos de saúde pública que não podem ser resolvidos por um único setor. O modelo adotado baseia-se na inteligência cooperativa, conceito que promove a construção coletiva de soluções a partir da colaboração entre universidades, movimentos sociais, comunidades e instituições públicas.

A proposta busca integrar saberes científicos e conhecimentos populares, promovendo intervenções que considerem os determinantes sociais, ambientais e econômicos da saúde. Essa abordagem também fortalece a participação social e amplia a capacidade de resposta dos territórios diante de crises e desigualdades.

Entre os principais objetivos da cooperação foi a criação de um CoLaboratório de Territórios Saudáveis, Sustentáveis e Solidários no âmbito da Unicentro, com atuação direta em Pinhão. Embora o espaço físico ainda não esteja estruturado, a iniciativa já funciona por meio de ações no território. O projeto busca:

  • aproximar ciência e comunidade;
  • desenvolver pesquisas e tecnologias sociais voltadas ao território;
  • implementar um sistema participativo de monitoramento territorial;
  • estimular inovações sociotécnicas para enfrentar vulnerabilidades locais.

As ações também estão alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 das Nações Unidas.

Seminário mobiliza território

Um marco importante do processo foi a realização do Seminário Oficina Prospectiva Territorial, em novembro de 2025, em Pinhão. O encontro reuniu pesquisadores, lideranças comunitárias, movimentos sociais, agricultores familiares e agentes públicos para discutir desafios e potencialidades do território.

“O Seminário foi o divisor de águas que transmutou dados estatísticos em engajamento real. O evento ocorreu sob severa adversidade climática, no centro urbano, em meio a apagões de energia elétrica e sem ter conhecimento das fortes tempestades que estavam ocorrendo no interior e em cidades vizinhas, a equipe terminava os preparativos para o evento. Apenas no dia do evento, soube-se do tornado e ventos fortes que atingiram comunidades e destruíram o município de Rio Bonito do Iguaçu. A presença de 92 pessoas em meio à tormenta foi uma surpresa, um símbolo da resiliência comunitária que aguarda ansiosa pela união com instituições que realmente proponham alternativas a partir do território”, destacou Ione.

Mobilização comunitária e próximos passos

A partir do seminário, organizações sociais do município iniciaram um processo de articulação para fortalecer a governança territorial. Entre as entidades envolvidas estão associações comunitárias rurais e urbanas, cooperativas da agricultura familiar, sindicatos e movimentos sociais.

Em dezembro de 2025 foi iniciada a Jornada Popular em Organização Territorial, com o objetivo de apresentar o plano de ação às comunidades, ampliar a mobilização social e buscar recursos para estruturar o futuro CoLaboratório no município.

Para Ione, o processo já demonstra resultados concretos. A rede territorial formada entre comunidades e instituições mostrou capacidade de mobilização rápida diante de situações de emergência, como os impactos do tornado que atingiu a região de Rio Bonito do Iguaçu.

Apesar dos avanços, ainda existem desafios relacionados à infraestrutura, mobilidade entre comunidades rurais e acesso a internet e equipamentos. Atualmente, parte das atividades ocorre em espaços comunitários e na própria residência da pesquisadora. Mesmo assim, o processo em curso em Pinhão aponta para um modelo de desenvolvimento territorial baseado na cooperação, na valorização dos saberes locais e na construção coletiva de soluções para promover saúde, sustentabilidade e justiça social.

A experiência em Pinhão evidencia que a implementação da Agenda 2030 depende de processos construídos coletivamente nos territórios. A iniciativa tem transformado vulnerabilidades históricas em caminhos para maior autonomia comunitária e fortalecimento da capacidade local de produzir conhecimento e soluções.

 

Para a pesquisadora Ione Rodrigues Correia Woynaroski, o desenvolvimento sustentável emerge justamente do encontro entre a ciência acadêmica e os saberes populares das comunidades. Nesse contexto, as redes sociotécnicas formadas entre instituições, organizações sociais e moradores do território apontam para novos modelos de governança e para um futuro mais sustentável.

 

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