A iniciativa conta com a atuação da pesquisadora pinhãoense Ione Rodrigues Correia Woynaroski, que exerce papel estratégico como agente territorial na região
Fiorenza Cadore
A articulação entre o CoLaboratório de Ciência, Tecnologia, Inovação e Sociedade (CTIS) da Fiocruz Brasília e o Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Comunitário (PPGDC) da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) tem impulsionado um processo de organização territorial voltado ao desenvolvimento saudável, sustentável e solidário no município de Pinhão (PR).
A aproximação entre as instituições começou em 2024, quando a pesquisadora Ione Rodrigues Correia Woynaroski ingressou na especialização em Transformação Digital em Saúde, oferecida pela Fiocruz Brasília. O diálogo com pesquisadores do CoLaboratório CTIS evidenciou convergências entre o trabalho acadêmico desenvolvido na Unicentro e as metodologias da Fiocruz voltadas à promoção de Territórios Saudáveis, Sustentáveis e Solidários.
“Fiquei entusiasmada ao conhecer a lógica da Picaps, que contempla o uso do conceito denominado inteligência cooperativa, com a produção de informação a partir da interação entre diversos atores, sejam públicos ou privados, inseridos em um ambiente complexo, diante da necessidade de superar a fragmentação de saberes para compor soluções públicas. O conceito de inteligência cooperativa representa uma dinâmica de construção coletiva a partir da contribuição dos indivíduos que compõem uma rede, permitindo trazer importantes reflexões que, quando integradas, permitem contribuir de forma relevante para processos de desenvolvimento territorial”, relata Ione.
A cooperação foi consolidada em 2025, após a visita do pesquisador e coordenador do CoLaboratório CTIS, Wagner Martins, à Unicentro. A partir desse encontro, Pinhão foi definido como território prioritário para ações de pesquisa, formação e intervenção social, devido às vulnerabilidades socioambientais e à necessidade de fortalecer políticas públicas de saúde e desenvolvimento local.
Segundo Ione, a articulação nasceu da necessidade de enfrentar desafios complexos de saúde pública que não podem ser resolvidos por um único setor. O modelo adotado baseia-se na inteligência cooperativa, conceito que promove a construção coletiva de soluções a partir da colaboração entre universidades, movimentos sociais, comunidades e instituições públicas.
A proposta busca integrar saberes científicos e conhecimentos populares, promovendo intervenções que considerem os determinantes sociais, ambientais e econômicos da saúde. Essa abordagem também fortalece a participação social e amplia a capacidade de resposta dos territórios diante de crises e desigualdades.
Entre os principais objetivos da cooperação foi a criação de um CoLaboratório de Territórios Saudáveis, Sustentáveis e Solidários no âmbito da Unicentro, com atuação direta em Pinhão. Embora o espaço físico ainda não esteja estruturado, a iniciativa já funciona por meio de ações no território. O projeto busca:
As ações também estão alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 das Nações Unidas.
Seminário mobiliza território
Um marco importante do processo foi a realização do Seminário Oficina Prospectiva Territorial, em novembro de 2025, em Pinhão. O encontro reuniu pesquisadores, lideranças comunitárias, movimentos sociais, agricultores familiares e agentes públicos para discutir desafios e potencialidades do território.
“O Seminário foi o divisor de águas que transmutou dados estatísticos em engajamento real. O evento ocorreu sob severa adversidade climática, no centro urbano, em meio a apagões de energia elétrica e sem ter conhecimento das fortes tempestades que estavam ocorrendo no interior e em cidades vizinhas, a equipe terminava os preparativos para o evento. Apenas no dia do evento, soube-se do tornado e ventos fortes que atingiram comunidades e destruíram o município de Rio Bonito do Iguaçu. A presença de 92 pessoas em meio à tormenta foi uma surpresa, um símbolo da resiliência comunitária que aguarda ansiosa pela união com instituições que realmente proponham alternativas a partir do território”, destacou Ione.
Mobilização comunitária e próximos passos
A partir do seminário, organizações sociais do município iniciaram um processo de articulação para fortalecer a governança territorial. Entre as entidades envolvidas estão associações comunitárias rurais e urbanas, cooperativas da agricultura familiar, sindicatos e movimentos sociais.
Em dezembro de 2025 foi iniciada a Jornada Popular em Organização Territorial, com o objetivo de apresentar o plano de ação às comunidades, ampliar a mobilização social e buscar recursos para estruturar o futuro CoLaboratório no município.
Para Ione, o processo já demonstra resultados concretos. A rede territorial formada entre comunidades e instituições mostrou capacidade de mobilização rápida diante de situações de emergência, como os impactos do tornado que atingiu a região de Rio Bonito do Iguaçu.

Apesar dos avanços, ainda existem desafios relacionados à infraestrutura, mobilidade entre comunidades rurais e acesso a internet e equipamentos. Atualmente, parte das atividades ocorre em espaços comunitários e na própria residência da pesquisadora. Mesmo assim, o processo em curso em Pinhão aponta para um modelo de desenvolvimento territorial baseado na cooperação, na valorização dos saberes locais e na construção coletiva de soluções para promover saúde, sustentabilidade e justiça social.
A experiência em Pinhão evidencia que a implementação da Agenda 2030 depende de processos construídos coletivamente nos territórios. A iniciativa tem transformado vulnerabilidades históricas em caminhos para maior autonomia comunitária e fortalecimento da capacidade local de produzir conhecimento e soluções.
Para a pesquisadora Ione Rodrigues Correia Woynaroski, o desenvolvimento sustentável emerge justamente do encontro entre a ciência acadêmica e os saberes populares das comunidades. Nesse contexto, as redes sociotécnicas formadas entre instituições, organizações sociais e moradores do território apontam para novos modelos de governança e para um futuro mais sustentável.
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