Foi com essa afirmação que a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, abriu a aula magna Justiça Ambiental e Saúde – Desafios para o Presente da Escola de Governo Fiocruz-Brasília, nessa segunda-feira (9/3).
Para a ministra, pensar em justiça climática é, antes de tudo, refletir quem são os mais afetados pelas emergências do clima. “Então, justiça climática é imaginar e ter a certeza de que os mais afetados são aqueles que menos contribuíram para o problema. A pegada de emissão de CO2 de uma pessoa periférica é incomparavelmente menor do que de uma pessoa rica ou de uma pessoa de classe média”, ressaltou.
“Dos indígenas é quase zero, das populações tradicionais a mesma coisa, mas quando seca o rio na Amazônia, quem é que tem que receber cesta básica, água potável, não sei quantos mil galões de água?”, indagou Marina ao evidenciar o fato de que, em uma emergência climática como a seca severa dos rios na Amazônia, o envio de uma cesta básica a uma comunidade isolada pode chegar a mais de R$ 2 mil, ao considerar todos os custos envolvidos com a logística. “É uma operação de guerra”, definiu.
A ministra do Meio Ambiente enfatizou que é preciso e urgente criar formas de gestão dessas crises para pensar o futuro. “A ideia de ter um marco regulatório sobre emergência climática é fundamental, porque o objetivo é decretar a emergência permanente nos municípios vulneráveis, para que as políticas sejam continuadas.”
Ao lado da ministra, Marcele Oliveira, ativista climática e campeã da juventude para a COP30. Duas mulheres pretas, de gerações diferentes e protagonistas de seu tempo. A mesa trouxe a experiência da ministra Marina Silva, à frente da pasta por duas gestões, e o ativismo jovem de Marcele. A mensagem é clara: as mudanças climáticas atravessam gerações e é um problema que exige o comprometimento de todos.
Marcele falou sobre a necessidade de perceber o local onde se vive, e mais, perceber-se como parte desse lugar. “Para um lugar ser melhor, a gente tem que participar”, enfatizou. Até a entrada na universidade, nos seus 20 e poucos anos, a jovem ativista desconhecia a desigualdade. Foi somente quando teve de cruzar a cidade do Rio de Janeiro, partindo de Realengo, na Zona Oeste, quando via a paisagem cinza de concreto dar lugar às árvores da Zona Sul carioca, que aprendeu o termo racismo ambiental.
“Eu só sabia o que era racismo racial, sou uma mulher não retinta vinda de uma família preta. Não sentia falta de nada no meu bairro, até conhecer outras realidades e perceber que onde eu morava faltava tudo.” Faltava até a área verde do bioma Mata Atlântica, que cedeu espaço para construções e estacionamentos. “Aí eu percebi que desconectar a gente do nosso bioma, do nosso ecossistema, da história do nosso território, é também um projeto político.”
Foi quando Marcele, vinda e pertencente de um lugar que sempre se impôs para conquistar as coisas, viu-se atuante na luta pelo Parque Realengo Verde. “Eu me juntei a essa luta enquanto uma pessoa jovem, e vi esse Parque Verde ser garantido e virar uma política pública na cidade toda. Mas antes a gente teve que fazer uma ocupação. Quantos lugares a gente conhece que poderiam ser de uso público para uma coisa bacana e não um estacionamento, shopping ou um espaço vazio?”
Diante de um “mundo destrambelhado em função da geopolítica, da mudança do clima, da perda de biodiversidade”, nas palavras de Marina, ela defende que, por mais distópico que às vezes seja, “a gente não tem que ser nem otimista nem pessimista, tem que ser persistente, a vida é insistência, persistência. O desejo de viver, de viver com divindade, justiça, respeito, conhecimentos, esse desejo tem que persistir, tem que insistir”.
É dessa insistência que nasce o ativismo de Marcele, que se descreve como uma pessoa e pesquisadora que se permite perceber. “E o que eu percebi nesse último ano? Eu percebi que histórias como a minha tem aos montes. Muita gente vive racismo ambiental, muita gente está incomodada com onda de calor, com enchente, com seca, com devastação, com garimpo ilegal. No final das contas, é uma luta também pela sobrevivência, mas não é pela sobrevivência desse sistema econômico. É pela sobrevivência do próprio planeta. A gente está querendo garantir e pensar sobre um modo de vida diferente. Pelo menos é o que eu gostaria”, inspirou.
A aula magna foi mediada pelo vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz), Valcler Rangel, que destacou os projetos da Fiocruz em parceria com o Ministério da Saúde, como o AdaptaSUS, que visa ao fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) para o enfrentamento aos impactos das crises climáticas. O vice-presidente manifestou ainda a intenção de fazer uma cooperação mais intensa com o MMA e fazer com que SUS e meio ambiente sejam uma coisa só.
“É uma luta pelo direito das pessoas, pelos sistemas universais de saúde, fazermos esses programas e propostas se efetivarem, tudo isso em diálogo com os territórios”, assinalou o vice-presidente da Fiocruz.
Mesa de abertura
A aula magna reuniu mais de 250 participantes presenciais nos auditórios externo e interno da Fiocruz Brasília, e cerca de 60 espectadores que acompanharam a transmissão ao vivo.
A mesa de abertura contou com a presença da diretora da Fiocruz Brasília, Fabiana Damásio; da diretora executiva da EGF-Brasília, Luciana Sepúlveda; da vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação (VPEIC/Fiocruz), Marly Cruz; e da representante discente do Mestrado Profissional em Saúde da Família (ProfSaúde), Sueli Muniz.
Ciclo de inspirações
A iniciativa integrou a programação comemorativa dos 50 anos da Fiocruz Brasília e inaugurou o Ciclo de Inspirações – O futuro é logo aqui, série de encontros que, ao longo de 2026, reunirá personalidades de destaque para debater estratégias e caminhos para um desenvolvimento sustentável, com foco na equidade social e na promoção da saúde.
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