Avaliação de solos contaminados é tema de seminário na Fiocruz Brasília

Por: Fiocruz Brasília
28/08/2019

Mariella de Oliveira-Costa 

A Fiocruz Brasília, por meio do Programa de Saúde, Ambiente e Trabalho (PSAT), promoveu nesta segunda e terça-feira, 26 e 27 de agosto, o Seminário para Avaliação Rápida de Solos Contaminados por Substâncias Químicas.

 

 A formação foi conduzida por representantes da organização internacional Pure Earth em parceria com o PSAT, com participação de  40 profissionais indicados pelas secretarias estaduais de saúde e de meio ambiente dos estados do nordeste do país,  representantes dos ministérios do Meio Ambiente e da Saúde, Fiocruz, Fundação Nacional de Saúde, Organização Pan-Americana da Saúde,  Movimento pela Soberania Popular na Mineração, e,  do DF, membros da Universidade de Brasília, Instituto Brasileiro de Meio Ambiente, Serviço de Limpeza Urbana, Secretaria de Saúde e  Departamento de Trânsito. O pesquisador do PSAT, André Fenner, apresentou a estrutura jurídica internacional em segurança química e os acordos multilaterais entre diferentes países e lembrou que é importante fortalecer a capacidade técnica para solucionar este problema de relevância ambiental e para tomada de decisão dos governos.

 

A pediatra Lilian Corra, da Pure Earth Argentina, explicou que a metodologia usada pelo grupo é rápida na avaliação dos solos e permite entender quantos locais, que tipo de contaminantes e o número de pessoas afetadas na região. Essas informações vão para um software que verifica as prioridades de investimento, por critérios de risco, aplicando o índice Blacksmith, usado para priorizar avaliações mais detalhadas e definir intervenções. O modelo entende o componente químico, monitora sua inserção no meio ambiente e analisa o problema de saúde por ele causado. “As doenças de causa ambiental, devido à exposição a produtos químicos, são evitáveis”, afirmou ela, ressaltando que os químicos têm um caráter tóxico, e que não há dose segura, pois quando há contaminação no ar, ou na água, esse contaminante em algum momento chega ao solo, naturalmente ou por irrigação. Por isso, é preciso investigar a exposição das pessoas a estes agentes, desde a concepção.

 

Segundo ela, há químicos que são persistentes, como os agrotóxicos, compostos clorados e metais pesados (chumbo, mercúrio, entre outros). Há os desregulardores endócrinos, que são tóxicos para o neurodesenvolvimento, para a fertilidade, e até carcinogênicos.

 

A OMS estima que 12 milhões de crianças nos países em desenvolvimento sofrem de alguma forma de dano permanente, neurotóxico, devido à contaminação por chumbo. Nos Estados Unidos, a carga de doença por envenenamento por chumbo é 20 vezes maior que para asma, e 120 vezes maior que para o câncer.

 

 Durante a abertura da atividade, o coordenador do Psat, Jorge Machado, lembrou que esta agenda relacionada à contaminação é permanente na Fiocruz Brasília. Da Organização Pan-Americana da Saúde, Priscila Bueno ressaltou que o número de áreas contaminadas no Brasil é um grande desafio.

 

O grupo Pure Earth faz parte da Aliança Global para a Saúde e Contra a Contaminação, criada em 2012 e que coordena recursos e atividades para resolver problemas criados pela contaminação química tóxica e para prevenir futuros focos em países em desenvolvimento, tendo como membros também o Banco Mundial, o Banco Europeu de Desenvolvimento Asiático, o Banco Interamericano de Desenvolvimento, a Comissão Europeia, entre outros órgãos internacionais.  

 

Formas de contaminação

Uma área é considerada contaminada pelos pesquisadores quando o terreno ou propriedade cujo solo, águas subterrâneas, material de construção, escombros, estruturas, restos de instalações possuem substâncias contaminantes. A contaminação está na acumulação de substâncias a níveis que repercutem negativamente no comportamento dos solos e águas e que se tornam tóxicas para todos os organismos. É uma degradação química que provoca a perda parcial ou total de produtividade de um solo e da pureza da água. Existe um sem número de fontes de contaminação, que vão de aeroportos, fabricas de cerâmica, cimento e asfalto, fabricas, produção de madeira a até reciclagem de resíduos, entre outros.

 

A emissão de substâncias químicas para o ambiente pode se dar por meio do ar, da água, do solo e dos alimentos. Pelo ar, desde as emissões industriais com queima de resíduos a céu aberto e incineração, pela deposição de poluentes na água, alimentos ou no chão de casas onde as crianças brincam, ou ainda pelo solo onde animais e vegetais crescem e se alimentam. Pela água, além das emissões industriais, as águas na superfície ou subterrâneas podem ser contaminadas e intoxicar quando ingeridas, no preparo de alimentos, na limpeza pessoal ou na irrigação. Nos alimentos, os poluentes vão desde a presença de substâncias químicas em vegetais ou animais.

 

Em se tratando do solo, a terra contaminada é risco pelo contato direto com as pessoas, no respirar ou no contato com a pele, e também por contato indireto com o transporte remoto por correntes de ar e escoamento de terra contaminada, por chuvas ou correntes de superfície. 

 

Avaliação rápida na prática

Na terça-feira, o grupo participante do seminário realizou visita de campo para demonstração da avaliação de sítios contaminados, na área que abrigou o lixão da Estrutural, região a 25 quilômetros de Brasília, onde boa parte da população residente sobrevivia da coleta de resíduos ali descartados, até a desativação do lixão em janeiro do ano passado. Antes da visita, o grupo priorizou quais seriam os espaços visitados e buscou informações suficientes para minimizar as brechas nos dados coletados. Durante a visita de campo, já com dados sobre a região, verificaram o estado do terreno, por meio da análise de amostras do solo, bem como caracterizaram o tipo e a magnitude da contaminação, descrevendo suas fontes e o potencial de impacto nos animais, pessoas, cultivos e fontes hídricas. Os pesquisadores seguiram um formulário padrão para garantir a coleta de informações que seja comparável na base de dados e também considerando o essencial para este tipo de análise.

 

De volta à Fiocruz Brasília, introduziram as informações em base de dados e avaliaram o risco para, a partir deste relatório, determinar prioridades para trabalho e priorizar avaliações posteriores. Nas amostras coletadas, foi identificado que o solo apresenta níveis do elemento químico arsênico, mas dentro dos parâmetros do Conselho Nacional do Meio Ambiente. Rodrigues destacou porém, o risco das plantações cultivadas ao lado do antigo lixão e também do uso daquela área como espaço recreativo das crianças da região, já que com o corre-corre da meninada, a poeira se levanta, prejudicando a qualidade do ar.

 

 O diretor da Pure Earth da Colômbia, Alfonso Rodrigues, explicou que para realizar a análise, são identificadas as áreas com avaliação preliminar do local, avaliação rápida por meio de um equipamento que analisa os componentes contaminados no solo em até 30 segundos, seguida de avaliação detalhada e de risco, com desenho de medidas de redução do risco. Os dados coletados ficam disponíveis em base de dados pública e mundial, acessível pelo site https://www.tsipdatabase.org/login?url=/ . O login e senha do interessado devem ser solicitados pelo e-mail info@blacksmithinstitute.org .

 

Esta visita de campo para avaliação de contaminação será realizada também na próxima semana em duas regiões das cidades de  Belo Jardim e Caruaru, PE.

 

PSAT

O Programa Saúde, Ambiente e Trabalho conduz atividades de promoção da saúde relacionadas ao campo da saúde ambiental e do trabalhador. Atualmente, é responsável por uma residência multiprofissional em saúde da família com ênfase em população do campo, floresta e águas e uma série de formações e pesquisas na área de Territórios Saudáveis e Sustentáveis. Clique aqui para saber mais sobre o PSAT. 

Clique aqui para acessar as fotos produzidas por Sérgio Velho Jr durante a formação  na Fiocruz Brasília. 

Clique aqui para acessar as fotos da visita de campo, produzidas por Leudo Lima.