Há oito meses, encontros nacionais e regionais vêm fortalecendo coletivos de Economia Popular e Solidária, promovendo a troca de experiências e consolidando uma rede de apoio voltada à geração de renda, à reabilitação psicossocial e ao cuidado em saúde mental
Bruna Viana (Nusmad/Fiocruz Brasília)
Mais do que apoiar iniciativas de geração de trabalho e renda, a Chamada Pública de Seleção de Projetos e Coletivos de Geração de Trabalho Associativo e Cooperação na perspectiva da Economia Popular e Solidária, desenvolvidos no âmbito da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), vem promovendo um amplo processo de formação, articulação e fortalecimento de coletivos de todo o país.
Iniciado em novembro de 2025 com 30 coletivos selecionados na primeira convocatória, o projeto passou a contar, a partir de março de 2026, com outros 34 coletivos, totalizando 64 iniciativas distribuídas pelas cinco regiões do Brasil. Enquanto os primeiros grupos já acumulam oito meses de encontros, os novos participantes vêm sendo incorporados ao percurso formativo e às atividades de articulação nacional, ampliando a diversidade de experiências e fortalecendo a rede construída coletivamente.
Ao longo desse processo, representantes dos coletivos vêm participando de encontros nacionais e regionais que aproximam diferentes realidades, estimulam a troca de experiências e consolidam uma rede comprometida com a Economia Popular e Solidária, a reabilitação psicossocial e a defesa do cuidado em liberdade.
Os primeiros fios: encontros que aproximam pessoas, coletivos e territórios
Realizados mensalmente desde novembro de 2025, os encontros nacionais e regionais seguem reunindo pessoas usuárias da RAPS, trabalhadores e apoiadores em um processo permanente de formação, escuta e construção coletiva. Mais do que atividades de capacitação, proporcionam o intercâmbio de experiências entre coletivos de diferentes regiões do Brasil, fortalecendo iniciativas de geração de trabalho e renda e ampliando as conexões entre os participantes.
Cada encontro aborda um eixo considerado essencial para o fortalecimento da Economia Popular e Solidária e da reabilitação psicossocial. O percurso teve início com uma reflexão sobre os sonhos, reconhecendo o direito de cada participante de construir novos projetos de vida. Em seguida, foram debatidos trabalho e Economia Popular e Solidária, destacando a geração de renda como instrumento de autonomia, cidadania e inclusão social.
Os encontros seguintes trataram da arte e cultura, valorizando a produção artística como forma de expressão, pertencimento e cuidado; da comunicação como direito, discutindo estratégias para ampliar a visibilidade dos coletivos e fortalecer suas narrativas; e, por fim, da comercialização e da formalização, oferecendo subsídios para ampliar a sustentabilidade, a organização e a autonomia dos empreendimentos solidários.
Ao longo desse percurso, os encontros vêm se consolidando como espaços de escuta, acolhimento e construção coletiva, reafirmando que o cuidado em saúde mental também se fortalece por meio do trabalho, da cultura, da convivência e da participação social.
Entrelaçando saberes: uma rede construída por muitas vozes
Um dos principais resultados do projeto vem sendo a constituição de uma rede nacional entre os coletivos participantes.
Ao reunir experiências de diferentes regiões do Brasil, os encontros permitem que pessoas que antes atuavam de forma isolada passem a compartilhar desafios, soluções e estratégias, fortalecendo a cooperação e o sentimento de pertencimento a um movimento nacional em defesa da Economia Popular e Solidária e da Reforma Psiquiátrica.
Essa construção coletiva inspirou uma das atividades mais simbólicas do projeto: a elaboração da trama.
A proposta convidou representantes dos coletivos a refletirem sobre o que significa construir uma rede e sobre o papel da Reforma Psiquiátrica na transformação do cuidado em saúde mental. A partir desse exercício, cada participante compartilhou palavras, sentimentos e reflexões sobre liberdade, trabalho, pertencimento, cuidado e luta antimanicomial. Essas contribuições deram origem à trama, uma obra coletiva construída com frases produzidas pelos próprios participantes durante os encontros.
Mais do que uma peça artística, a trama representa o próprio processo vivido ao longo do projeto. Assim como uma rede depende da união de muitos fios para ganhar força e sustentar quem dela faz parte, o cuidado em liberdade também se fortalece por meio da construção de vínculos, da solidariedade, da convivência e da participação social. A obra traduz visualmente a diversidade de histórias, territórios e experiências que passaram a compor uma mesma rede nacional, reafirmando um dos princípios centrais da Reforma Psiquiátrica brasileira: o cuidado se constrói coletivamente.

Fios que ecoam: comunicação para fortalecer a rede
A comunicação também ocupou um lugar de destaque na programação dos encontros. Reconhecida como um direito e uma ferramenta para fortalecer a participação social, ela foi trabalhada como estratégia para ampliar a visibilidade dos coletivos e consolidar a rede construída durante o projeto.
Durante a oficina sobre comunicação, o coletivo Trecho 2.8, que atua nessa área, compartilhou conhecimentos sobre produção de vídeos para redes sociais, apresentando orientações sobre elaboração de roteiros, gravação, linguagem audiovisual e edição de conteúdos.
A partir dessa troca de saberes, todos os coletivos produziram vídeos apresentando suas histórias, seus territórios, seus produtos e o impacto da Economia Popular e Solidária em suas comunidades.
Os vídeos produzidos pelos coletivos passarão a integrar o perfil da Rede Nacional de Economia Solidária em Saúde Mental, que será lançado após o período de defeso eleitoral. A iniciativa dará continuidade às ações de comunicação do projeto, ampliando a divulgação das experiências e fortalecendo os vínculos construídos ao longo dos encontros.
Cada fio conta uma história
Ao longo dos encontros, os participantes compartilharam experiências que mostram que a Economia Popular e Solidária vai muito além da geração de renda.
Para Clara, do coletivo Tecendo a Vida, participar de um grupo de geração de trabalho representa encontrar oportunidades de pertencimento e inclusão que muitas vezes não existem em outros espaços. “Pra mim é importantíssimo o grupo de geração de renda. Esse grupo abre portas para nós que, às vezes, não temos portas em lugares privados. A gente acaba se encontrando nesse lugar”, afirmou.
O impacto da Economia Solidária na saúde mental também aparece no relato de Felippe, do coletivo Solidariedade Custa Pouco, que resume a transformação vivenciada a partir do trabalho coletivo. “Quando comecei a fazer Economia Solidária as vozes da minha cabeça começaram a diminuir”, contou ele durante um encontro.
Uma trama que continua sendo tecida
Em andamento desde novembro de 2025, o projeto vem promovendo um avanço inédito para a reabilitação psicossocial no Brasil. Pela primeira vez, uma iniciativa nacional concedeu 320 Bolsas de Reabilitação Psicossocial a pessoas usuárias da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). A primeira convocatória contemplou 30 coletivos e, desde março deste ano, outros 34 passaram a integrar a iniciativa, totalizando 64 coletivos de Economia Popular e Solidária distribuídos por todas as regiões do país.
Além do apoio financeiro para fortalecer os empreendimentos e ampliar a produção dos coletivos, o projeto segue desenvolvendo um percurso formativo composto por encontros nacionais e regionais, ações de articulação, oficinas temáticas e iniciativas voltadas ao fortalecimento da Rede Nacional de Economia Solidária em Saúde Mental.
Mais do que contribuir para a geração de trabalho e renda, as bolsas reconhecem o trabalho desenvolvido nos coletivos como parte do processo de reabilitação psicossocial, valorizando o protagonismo, a autonomia e a participação social das pessoas usuárias da saúde mental.
As atividades da chamada pública seguem ao longo de 2026. Novos encontros nacionais e regionais, ações formativas, oficinas, estratégias de comunicação e iniciativas de fortalecimento da rede continuam mobilizando os coletivos, ampliando a circulação de conhecimentos e consolidando uma articulação nacional comprometida com a Economia Popular e Solidária, a Reforma Psiquiátrica e o cuidado em liberdade.
A iniciativa vem lançando as bases para uma rede permanente de cooperação, capaz de fortalecer a autonomia, a cidadania e a inclusão social de pessoas usuárias da saúde mental em todo o Brasil.