Tecelagem Aurora: quando o trabalho tece novos caminhos para a vida

Fiocruz Brasília 11 de junho de 2026


Experiência de economia solidária em Aparecida de Goiânia amplia oportunidades de geração de renda e inclusão social para usuários da Rede de Atenção Psicossocial

 

Fábio Marques (Nusmad/Fiocruz Brasília)

 

Entre fios, teares e máquinas de costura, a Tecelagem Aurora, em Aparecida de Goiânia (GO), vem construindo muito mais do que peças artesanais para o lar. Nascida da experiência de oficinas terapêuticas do CAPS III Bem Me Quer, a cooperativa transformou habilidades manuais em oportunidades de trabalho, geração de renda e participação social para usuários da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), tornando-se uma referência de cuidado em liberdade e inclusão por meio da economia solidária.

 

Em atividade desde 2019 a Tecelagem Aurora ganhou um novo capítulo em sua história com a inauguração, em maio deste ano, do novo espaço físico do projeto que atua como um ambiente de convivência, aprendizado e geração de oportunidades. A cooperativa oferece condições para que os usuários da rede desenvolvam habilidades, ampliem vínculos sociais e participem ativamente da vida econômica e comunitária do território.

 

Durante a inauguração a assessora técnica do Núcleo de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (NuSMAD) da Fiocruz Brasília, Barbara Vaz, esteve presente representando a equipe do Núcleo. “A inauguração simbolizou a concretização de anos de dedicação, sonhos compartilhados, superação de desafios e construção coletiva, revelando as inúmeras conquistas alcançadas pelos participantes. Mais do que um espaço de trabalho e geração de renda, a Tecelagem Aurora representa a produção de autonomia, pertencimento, esperança e cidadania, reafirmando que o cuidado em liberdade se fortalece quando cria oportunidades reais para que as pessoas ocupem seu lugar na comunidade, construam novos projetos de vida e sejam reconhecidas por suas potencialidades”, destacou Barbara.

 

Organizada a partir dos princípios da economia popular e solidária, a iniciativa é resultado de uma trajetória construída pela Coordenação de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde de Aparecida de Goiânia em parceria com o CAPS III Bem Me Quer, que valoriza a cooperação e a construção compartilhada de soluções para desafios comuns.

 

O que começou como uma atividade terapêutica revelou talentos, vocações e o desejo dos usuários de ampliar os horizontes da produção artesanal. Aos poucos, a tapeçaria deixou de ser apenas um recurso de cuidado para se tornar também uma possibilidade de inserção produtiva, fortalecimento da autonomia e exercício da cidadania.

 

Nos últimos anos, esse percurso ganhou novos aliados. A participação da cooperativa na Chamada Pública de Economia Popular e Solidária da Fiocruz Brasília, coordenada pelo Núcleo de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Nusmad), contribuiu para ampliar redes de apoio, fortalecer o empreendimento e conectar a experiência a um movimento nacional voltado à promoção do trabalho, da geração de renda e da inclusão social de usuários da saúde mental.

 

Para a assessora técnica do Nusmad Milena Pacheco, a chamada pública permitiu estreitar o diálogo entre instituições públicas e os coletivos que atuam nos territórios. “A Chamada Pública vem possibilitando o diálogo direto da Fiocruz Brasília, do Ministério da Saúde e dos ministérios parceiros com os coletivos, especialmente com trabalhadores e trabalhadoras que são usuários da RAPS. Nos encontros da rede, eles compartilham os desafios e as potencialidades do cotidiano e nos convidam a construir ações voltadas à ampliação de direitos”, afirma.

 

Com o lema “Aurora – o amanhecer de um sonho que se tornou realidade”, a cooperativa simboliza a abertura de novos horizontes para pessoas que encontraram no trabalho artesanal uma forma de reafirmar direitos e construir novos projetos de vida.

 

Fortalecimento das redes de cuidado

A entrada da Tecelagem Aurora na Chamada Pública de Economia Popular e Solidária da Fiocruz Brasília marcou uma nova etapa em sua trajetória. O reconhecimento fortaleceu uma experiência que transforma trabalho coletivo em oportunidade no território, ampliando a inclusão social e mostrando, na prática, como a geração de renda pode caminhar junto com a promoção da autonomia e da cidadania.

 

Segundo a assessora técnica Bárbara Martins, também integrante do Nusmad, a participação dos coletivos representa um movimento de retomada de direitos historicamente negados.

 

“Com a premissa do direito ao trabalho, a participação dos coletivos nessa Chamada Pública enfatiza o resgate da dignidade, da cidadania e da contratualidade de pessoas marcadas pelo histórico da psiquiatrização. A Economia Popular e Solidária mostra que outras formas de organizar o trabalho e a vida são possíveis, permitindo que a reabilitação psicossocial aconteça efetivamente no cotidiano.”

 

A parceria com a Fiocruz Brasília tem ampliado, ainda, as oportunidades de aprendizado e intercâmbio para a Tecelagem Aurora, aproximando a cooperativa de experiências desenvolvidas em diferentes regiões do país. Nesse processo, valores como cooperação, autogestão e geração coletiva de trabalho e renda ganham força e reforçam princípios que também estão na base do cuidado em liberdade e da atenção psicossocial.

 

“É incrível conhecer e acompanhar iniciativas que celebram a arte, a cultura e a solidariedade como ferramentas potentes do cuidado em liberdade. Ver esses espaços produzindo autonomia, vínculos e outras possibilidades de existência reafirma a força do trabalho coletivo na saúde mental e a importância de reconhecer práticas que entendem o cuidado como uma construção compartilhada”, destacou a assessora técnica do Nusmad, Giovanna Martins.

 

Um espaço construído coletivamente

A inauguração da Tecelagem Aurora reuniu gestores, trabalhadores, usuários, apoiadores e representantes de diferentes instituições que contribuíram para transformar a proposta em realidade.

 

O encontro simbolizou o reconhecimento de uma trajetória construída coletivamente e a consolidação de uma experiência que demonstra como políticas públicas, participação comunitária e economia solidária podem caminhar juntas.