Iris Pacheco (Psat/Fiocruz Brasília)
Entre os dias 3 e 5 de novembro, Santo Amaro, na Bahia, recebeu o II módulo da Formação-Ação em Promoção da Saúde e Participação Social, reunindo lideranças de movimentos sociais e educadores(as) em vivências sobre cultura, cuidado, mobilização e participação social.
O Centro Vocacional Tecnológico Territorial do Pescado (CVTT) da Bahia Pesca, localizado na Fazenda Oruabo, em Acupe, Santo Amaro, foi o palco de intensas trocas e aprendizados durante esse momento. A atividade reuniu 62 lideranças de comunidades de pescadores e marisqueiras, quilombolas e indígenas, além de integrantes de movimentos negro, feminista, LGBTQIAPN+ e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Território como espaço vivo
O encontro foi marcado por reflexões sobre o tema: Território, Cultura e Saúde, conduzidas pela professora e pesquisadora Deise Queiroz da Silva, do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). A educadora provocou o grupo a refletir sobre os desafios e potenciais da mobilização comunitária. “Os territórios são ricos, mas também cheios de questões. É muito bom quando temos a chance de ouvir, de pensar como intermediar as diferenças e construir redes que fortaleçam as lideranças e os projetos já existentes”, destacou Deise.
Durante as rodas de conversa, os participantes compartilharam experiências e desafios relacionados à mobilização popular. Um dos pontos debatidos foi a desvalorização dos cuidados tradicionais, como rezas e banhos de ervas, práticas que fazem parte da memória viva dos territórios.
O professor Francisco Anísio Costa Pinto, de Santo Estêvão, ressaltou a importância dessas práticas. “Ao longo do tempo, a saúde tradicional foi extinta com o falecimento das pessoas mais antigas, e a saúde formal não deu conta de tudo. É importante discutir isso para que possamos reconstruir o cuidado de forma integral”, salientou.
Já Maria Abade, do Quilombo Engenho da Ponte (Cachoeira), destacou a importância de manter e compartilhar esses saberes ancestrais para que não caiam no esquecimento. “Essa troca é um aprendizado que levo na bagagem para minha comunidade. Já fazemos esse cuidado tradicional e vamos colocar em prática a nossa tenda, porque territórios de cuidado são pessoas saudáveis, conscientes e acolhedoras.”
Cultura, identidade e pertencimento
Além das discussões teóricas, o módulo contou com oficinas de confecção de máscaras de papelão (Caretas de Saubara), que reforçaram o sentimento de pertencimento e identidade cultural entre os participantes.
As caretas são uma manifestação cultural de máscaras artesanais com formas inspiradas no folclore afro-indígena. Elas fazem parte do repertório festivo do Recôncavo, especialmente em Saubara, mas sua origem remonta ao período das lutas pela independência baiana que se celebra anualmente no 2 de julho.
Em um dos debates, emergiu a crítica à falta de incentivo às atividades culturais nos territórios: “o capital não tem interesse que as atividades culturais sejam exercidas, pois a cultura nos dá ousadia e ensina a enfrentar o medo. Precisamos retomar nossos espaços comunitários e fortalecer a cultura como prática de liberdade.”
Saberes ancestrais e cuidado com o corpo
Como parte do tempo comunidade, os educandos produziram um Boletim e um Podcast, entrevistando moradores mais velhos para registrar memórias e práticas de cuidado tradicionais em saúde.
Dona Adeilde Ferreira, 79 anos, integrante da Irmandade da Boa Morte, relembrou os cuidados naturais que marcaram sua infância. “A gente dava banho de sabugueiro para sair o sarampo e a catapora e sentia resultado. Hoje, o povo corre logo para o médico… Para a gripe, um chá ou mingau de Santo Antônio levanta até defunto.”
Já Mãe Sylvia de Bamburucema, de São Félix, falou sobre a importância das ervas no cuidado das famílias quando o acesso à saúde era limitado. “Quando eu sentia alguma coisa, minha mãe corria para as folhas: fazia chá, banho, tirava o sumo e dava para beber. Era o que salvava muito a gente.”
Para III módulo, os(as) educandos(as) farão uso da comunicação popular para contar histórias sobre receitas afetivas a partir do audiovisual. A expectativa é que o material seja compartilhado presencialmente no último encontro da turma, programado para o início de dezembro, encerrando um ciclo de aprendizado que une cuidado, cultura e participação popular.