Seminário reforça protagonismo juvenil no enfrentamento às violências nas escolas

Nathállia Gameiro 28 de agosto de 2026


“A paz é a gente que faz.” Cantado por crianças e adolescentes da Banda Brincantantes, o verso que ecoou pelos espaços da Fiocruz Brasília na manhã desta quinta-feira (27/8) antecipou, em poucas palavras, uma das reflexões que atravessariam o encontro: construir escolas mais acolhedoras, saudáveis e livres de violência é uma tarefa coletiva, e crianças e adolescentes precisam fazer parte dela.

Formada por jovens músicos de 7 a 14 anos de São Sebastião, a Banda Brincantantes, integrante do Ponto de Cultura Ludocriarte, abriu o Seminário Equidade, Identidades e Violência nas Escolas (Seive) com música e uma mensagem de valorização da diversidade, da identidade e da cultura de paz.

Promovido na Fiocruz Brasília, o seminário reuniu estudantes, pesquisadores, educadores, gestores e representantes de instituições públicas para discutir políticas educacionais, saúde, equidade e estratégias de prevenção e enfrentamento às diferentes formas de violência presentes no ambiente escolar. A programação propôs ainda um olhar para a escola que ultrapassa a aprendizagem de conteúdos e a reconhece como espaço de convivência, cidadania, promoção da saúde e construção de políticas públicas.

Um dos organizadores do encontro e integrante do Núcleo de Educação Popular, Cuidado e Participação na Saúde (Angicos) da Fiocruz Brasília, Vinicioz Borba chamou a atenção para o papel da cultura nesse processo. “Dedicamos profunda atenção a este projeto, concebendo-o a partir de uma perspectiva cultural, pois acreditamos firmemente que a arte salva vidas”, afirmou. Para ele, a apresentação dos jovens também materializou a proposta do encontro. “É uma satisfação receber todos vocês que, desde cedo, já promovem uma cultura de paz”.

Jovens no centro da construção

A presença expressiva de estudantes no auditório foi destacada pela coordenadora adjunta do Núcleo Angicos, Dandara Macedo. Para ela, discutir identidade e enfrentamento às violências é parte da construção de uma saúde verdadeiramente inclusiva.

“É gratificante observar este auditório repleto de estudantes, tanto secundaristas quanto universitários, reunidos para debater e edificar políticas públicas e para desenhar o modelo de saúde que nós, enquanto profissionais, docentes e pesquisadores desta instituição, almejamos: uma saúde verdadeiramente inclusiva”, afirmou.

Dandara ressaltou que a iniciativa foi construída considerando justamente aqueles que vivenciam cotidianamente os desafios debatidos. “O seu cerne reside nas pessoas que compõem o cotidiano escolar, ou seja, aqueles que são os sujeitos diretamente impactados por estas questões. É extremamente gratificante constatar que este seminário foi concebido e estruturado a partir da participação ativa de jovens e adolescentes.”

Ao abordar o aumento das violências nas escolas, ela defendeu a articulação entre políticas públicas, comunidades e territórios. “Contamos com a presença e o compromisso de todos os aqui presentes para fortalecer as políticas públicas e consolidar estratégias de combate à violência nos ambientes escolares, em nossas comunidades e nos territórios em que atuamos.”

Escola como espaço de cidadania

A diretora executiva da Escola de Governo Fiocruz-Brasília, Luciana Sepúlveda, reforçou que políticas públicas são construídas pelas pessoas e relacionou a apresentação artística que abriu o encontro à própria formação cidadã. “A arte e a cultura são pilares fundamentais da nossa capacidade de expressão, de escolha e de recriação do mundo”, destacou. Luciana também recuperou sua trajetória na Fiocruz e a experiência no Museu da Vida para defender a aproximação entre ciência e juventude e a democratização do conhecimento científico.

Para ela, pensar conjuntamente saúde e educação exige reconhecer crianças e adolescentes como sujeitos ativos. “O protagonismo estudantil é fundamental, já que a escola é, primordialmente, um espaço de formação cidadã. O ambiente escolar não deve restringir-se à transmissão de conteúdos voltados ao mercado de trabalho”, afirmou.

É também na escola, acrescentou, que diferentes realidades se encontram. “A escola é o lugar onde aprendemos a conviver coletivamente e onde diferentes núcleos familiares se encontram, permitindo o exercício da alteridade tanto no espaço escolar quanto na sociedade.”

Luciana destacou ainda a dimensão intergeracional desse processo. Segundo ela, o diálogo constante com crianças e adolescentes permite que educadores, pesquisadores e gestores ressignifiquem suas próprias práticas e contribui para a construção de “uma sociedade mais democrática, saudável e pautada pela amorosidade”.

A aproximação com a juventude também integra a atuação da Escola de Governo Fiocruz-Brasília. A diretora lembrou que a instituição recebe escolas para visitas e desenvolvimento de projetos conjuntos, buscando promover a integração entre conhecimento científico e tecnológico, instituições de ensino superior, educação básica e sociedade.

Educação também é prevenção

A relação entre educação, saúde e prevenção esteve no centro da mesa “Políticas Educacionais em Saúde e Equidade de Gênero”. O debate partiu do entendimento de que as violências de gênero possuem raízes profundas e podem ser atravessadas por valores e práticas culturais presentes desde a infância e a juventude.

Entre os marcos que orientam esse enfrentamento está a Lei nº 14.164/2021, que incluiu na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional conteúdos relativos à prevenção da violência contra a mulher e instituiu a Semana Escolar de Combate à Violência contra a Mulher.

Representante da Coordenação-Geral de Gestão Estratégica da Educação Básica (Cogeb) do Ministério da Educação, Daiane Andrade, abordou a necessidade de compreender a educação para além dos conteúdos curriculares formais. Segundo ela, é preciso observar como aquilo que é ensinado dialoga com a realidade vivida pelos estudantes em diferentes contextos sociais.

Daiane também chamou a atenção para a relação entre saúde e aprendizagem. Para que o processo educativo aconteça, ressaltou, é necessário considerar as condições de bem-estar dos estudantes e reconhecer que não é possível separar aquilo que acontece na escola das demais dimensões da vida.

Coordenador do Seive, Rafael Gonçalves também situou a saúde na perspectiva do direito e recuperou a construção coletiva do Sistema Único de Saúde (SUS). Ao falar aos estudantes, relacionou a mobilização em defesa da saúde pública à participação social e à educação popular.

Ao longo da manhã, diferentes falas convergiram para uma mesma compreensão: enfrentar as violências nas escolas não é responsabilidade exclusiva da educação, assim como promover saúde não é tarefa restrita aos serviços de saúde. É no encontro entre escola, família, comunidade, políticas públicas e, sobretudo, os próprios estudantes que novas possibilidades podem ser construídas.