Iris Pacheco/Psat – Fiocruz Brasília
Realizado, entre os dias 25 a 27 de agosto, o I módulo do Curso de Formação-ação: promoção da saúde e participação social no Polo de Breves, Arquipélago de Marajó (PA). A Marajó é um território com mais de 2.500 ilhas e ilhotas que reúnem inúmeros saberes tradicionais relacionados à saúde e ao cuidado coletivo.
“Aqui, nós contamos com mais de 50 pessoas dos movimentos sociais, agroextrativistas, ribeirinhos, pescadores e trocamos diálogos acerca dos saberes, das linguagens, do que é produzido aqui neste tão rico território. Precisamos entender que cuidar da saúde vai muito além de ir ao hospital ou tomar um medicamento, saúde é também cultura, ambiente, afeto, solidariedade. Tudo isso faz parte da saúde coletiva, então, cuidar do território, das pessoas que nele vivem e da natureza, é cuidar da nossa saúde”, contextualiza Anael Nascimento, engenheira ambiental e pesquisadora do Projeto Territórios de Cuidado.
É buscando desvelar esses saberes que os temas propostos na formação buscam dialogar com as lideranças das comunidades que compõem o Arquipélago do Marajó, de forma que as políticas públicas em saúde considerem esses territórios e seus conhecimentos. É o que considera o antropólogo e educador popular, Gustavo Moura, ao trabalhar o tema da Determinação Social da Saúde.
“A nossa ideia aqui é trabalhar uma concepção de promoção da saúde, de territórios de cuidado que, por um lado, tenha um pé na comunidade, nos territórios, nos saberes populares, nos saberes não acadêmicos, mas que, por outro lado, tenha outro pé na luta por políticas públicas, na relação com o estado, com o governo, com o poder público”, salienta.
As reflexões apontadas nesse debate apontam para a compreensão sobre como a saúde ultrapassa o corpo individual e envolve território, cultura, políticas públicas e lutas sociais. É o caso das dinâmicas de trabalho em grupo que explora a força do Muiraquitã (símbolos de proteção representado por animais) e a memória viva de Dalcídio Jurandir, romancista brasileiro, escritor marajoara, considerado um dos principais nomes da literatura amazônica. Suas obras retratam o cotidiano, as paisagens e os personagens da região. Entre os títulos mais conhecidos estão: “Chove nos Campos de Cachoeira”, “Marajó”, “Três Casas e um Rio” e “Belém do Grão-Pará”. Ambos na perspectiva de conectar saberes tradicionais, literatura amazônica e práticas de resistência.
E, por falar em grandes nomes da cultura nortista, no dia 26 de agosto, em meio a jornada de formação, a comunidade recebeu a notícia do falecimento do Mestre Damasceno. Foram 71 anos de vida representando a música e a cultura do Pará. Nascido em Salvaterra, na comunidade quilombola de Salvá, Arquipelágo do Marajó, o cantor e compositor foi referência no carimbó e criador do Búfalo-Bumbá, versão marajoara da tradicional festa do Boi-Bumbá. Autor de mais de 400 canções, sua obra é reconhecida como patrimônio histórico do Pará. Honrando sua memória, um cortejo marcado por música, dança e alegria se estendeu por dois dias em uma toada de grande despedida.
É em meio a essa memória histórica de saberes e cuidados coletivos ancestral presentes no cotidiano dessas pessoas que a preservação da tradição do uso de ervas e raízes da floresta se sobressai. Quem nos conta um pouco da experiência é a pescadora Luzia de Fátima, da Comunidade Santa Cruz.
“Eles deixaram para nós os nossos remédios de raízes e ervas, onde temos uma senhora chamada Dona Tamázia, de 110 anos, que já fez muitos partos, ela puxa e faz benzeção. Para nós, é uma cultura tradicional da nossa região ribeirinha, e é muito importante resgatar essa cultura dos nossos antepassados. A Dona Tamázia para a gente lá, é uma mãe, história viva de 110 anos, ela amassa açaí, ela tem as ervas como malva grossa, erva doce (…)”, ressalta Luzia.
Entre as conversas sobre promoção da saúde e participação social surge a reflexão sobre qual desenvolvimento precisamos e queremos e como ele deve respeitar os territórios, os saberes tradicionais e o papel histórico das mulheres no cuidado e na vida comunitária. É o caso da atuação das parteiras que ainda desenvolvem importante trabalho em comunidades ribeirinhas e indígenas, como conta a agroextrativista Nalcilene Pantoja.
“Minha mãe é uma parteira muito famosa, herdou da minha avó. Minha avó pegou todos os filhos dela e a minha mãe pegou 7 meus. Eu faço remédios caseiros para os meus netinhos, chás para mim, banhos, tudo a gente faz. Tem tantos remédios lá, porque nós moramos na riqueza e, muitas vezes, a gente não sabe”, compartilha.
Um povo sábio, de luta, de resistência, mas também de fé. Todos os dias, a formação inicia com a mística, mas também com orações e canções, como a música “Pai Nosso dos Mártires”, que lembra a luta e a esperança dos povos da Amazônia: saúde é lutar contra tudo aquilo que nos oprime.
Por fim, a comunicadora e educadora, Mariana Castro, apresenta elementos sobre a Comunicação em Saúde ao realizar a oficina sobre Boletim e Podcast como ferramentas de resistência, transformação social e produção de conhecimento, memória, cultura e arte nos territórios.
O Projeto Territórios de Cuidado é uma iniciativa desenvolvida pela Fiocruz Brasília, por meio do Programa de Promoção da Saúde, Ambiente e Trabalho (Psat), em parceria com o Ministério da Saúde, por meio do Departamento de Prevenção e Promoção da Saúde (Depros), da Secretaria de Atenção Primária à Saúde, e até o mês de outubro estará no Polo de Breves realizando os encontros presenciais da Formação-ação em saúde.