Fiocruz participa da inauguração do Memorial Iyá Nitinha de Oxum

Fiocruz Brasília 3 de novembro de 2026


Evento marcou a culminância do projeto de valorização dos saberes ancestrais

 

Simone Kabarite (VPAAPS/Fiocruz)  

 

Em uma cerimônia marcada pela emoção e pela valorização da ancestralidade, foi inaugurado, no dia 26 de outubro, o Memorial Iyá Nitinha de Oxum, dedicado ao legado de uma das mais importantes referências do candomblé no Brasil. Localizado no terreiro Ilê Asé Iyá Nassô Oká Ilê Osun, em Miguel Couto, Nova Iguaçu (RJ), o memorial busca preservar a trajetória da ialorixá, dar visibilidade ao seu legado e contribuir para o reconhecimento dos saberes tradicionais de matriz africana e do papel das lideranças femininas na formação cultural do país.

 

A programação reuniu três momentos de homenagem: a inauguração do memorial, que reúne objetos históricos relacionados à trajetória de Mãe Nitinha; a apresentação de um busto de bronze da imagem da Yalorixá; e a entrega da horta comunitária, resultado de um projeto da Coordenação de Promoção da Saúde da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS) da Fiocruz e da Fiocruz Brasília, voltado à promoção da soberania e da segurança alimentar e nutricional e da saúde.

 

A cerimônia contou com a participação do coordenador de Promoção da Saúde da Fiocruz e do projeto, Valber Frutuoso; da vice-diretora da Fiocruz Brasília e também coordenadora da iniciativa, Denise Oliveira e Silva; da deputada estadual Renata Souza; e de lideranças religiosas, entre elas Pai Mauro de Oxóssi e Ogan Julinho, filho biológico de Mãe Nitinha.

 

“Tudo com tempo, tem tempo”

Durante a cerimônia, Denise destacou a importância de reconhecer os saberes ancestrais e ampliar o diálogo entre esses conhecimentos e a ciência. Segundo ela, a experiência de aproximação com a comunidade também representa uma oportunidade de aprendizado para uma instituição centenária como a Fiocruz, que pode contribuir para a valorização de conhecimentos historicamente inviabilizados.

 

A vice-diretora ressaltou que a ciência precisa ultrapassar perspectivas exclusivamente eurocêntricas e reconhecer outras formas de produção do conhecimento. “É preciso honrar os ancestrais que trouxeram essa sabedoria e que estão aqui hoje. E ter a gratidão de viver isso. É algo que eu não vou esquecer jamais”, destacou.

 

Ao agradecer à comunidade pela confiança e pelos aprendizados compartilhados, Denise evocou uma expressão atribuída a Mãe Nitinha: “Tudo com tempo tem tempo”, destacando a importância da sabedoria ancestral no desenvolvimento do projeto.

 

Valber Frutuoso também ressaltou a emoção de participar do momento e os desafios envolvidos na aproximação entre a ciência institucional e os saberes dos povos de matriz africana. Para ele, a iniciativa representa uma oportunidade de aprender com as comunidades, levar seus conhecimentos para dentro da Fiocruz e contribuir para que sejam respeitados, valorizados e reconhecidos.

 

“É um desafio atuar junto a uma ciência tradicional, pautada em elementos que conduzem muito à questão do colonialismo. Ao mesmo tempo, poder resgatar tudo aquilo que a nossa ancestralidade nos deixou, nos premiou como conhecimento, como bravura, como luta e como resistência”, afirmou.

 

O coordenador enfatizou que as casas de axé são espaços de cuidado, acolhimento e aprendizagem e defendeu seu reconhecimento como espaços de promoção da saúde, perspectiva que vem sendo trabalhada no diálogo com a instituição. Ao final, ressaltou que o projeto é um passo inicial para ampliar esse trabalho em mais terreiros, fortalecer parcerias e aprofundar a valorização dos saberes tradicionais e das comunidades de axé.

 

A curadoria do acervo do Memorial de Iya Nitinha foi feita pela Ekede Jussara Teixeira Sales, por Iyá Débora D’Oxum e pela pesquisadora e especialista em digitalização de acervos Diana Santos Souza. “Escolhemos fazer um percurso nas memórias das águas de Mãe Nitinha de Oxum, selecionando objetos que fizeram parte de sua iniciação no Candomblé no Terreiro da Casa Branca, em Salvador, aos 4 anos de idade, e vestes que marcam tradições que a Yalorixá herdou e que manteve viva no Axé Iyá Nassô Oká – Ilê Osùn. Integram, ainda, horarias recebidas por Iyá Nitinha, como a Comenda Rio Branco, e a Medalha Pedro Ernesto, entre outras”, afirmou Diana.

 

Para proporcionar uma experiência sensorial aos visitantes, o Memorial criou o circuito cinco sentidos onde é possível ouvir a voz de Mãe Nitinha, sentir seu perfume e a suave brisa de seu leque, bem como refletir diante dos búzios sobre a responsabilidade abraçada por ela, ainda na juventude, de ser Ialorixá e carregar a missão de dar continuidade às tradições do candomblé com compromisso e amorosidade.

 

Ao longo da noite, o público aguardou a inauguração do busto de bronze dedicado a Mãe Nitinha. Mãe Débora de Oxum, neta da ialorixá e herdeira do terreiro, convidou as lideranças presentes a participar da retirada do manto que cobria a escultura em homenagem à trajetória da religiosa e ao legado de conhecimentos ancestrais, culturais e espirituais que deixou para o país.

 

Fotos: Marcelo Moreno 

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