Guia sobre atenção psicossocial em desastre socioambientais é lançado para o público

Fiocruz Brasília 16 de outubro de 2026


Publicação foi inspirada na experiência do Projeto Caminho das Águas, percurso de formação e cuidado desenvolvido no Rio Grande do Sul e oferece subsídios para profissionais e gestores fortalecerem o cuidado nos territórios

 

Fábio Marques (Nusmad/Fiocruz Brasília)   

 

Diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas e da atenção necessária aos possíveis impactos do fenômeno El Niño, fortalecer as redes de cuidado, proteção e solidariedade é fundamental. E para ajudar nesse caminho, já está disponível o Guia de Bolso Orientações para Atenção Psicossocial em Situações de Desastres Socioambientais: caminhos para proteger a vida, sustentar o cuidado e fortalecer os territórios antes, durante e após os eventos extremos.

 

A publicação reúne orientações para apoiar profissionais e gestores na preparação dos territórios, na organização das respostas psicossociais durante os desastres e na continuidade do cuidado às populações atingidas, contribuindo também para a reconstrução da vida coletiva.

 

“Este guia é fruto de uma experiência coletiva que nos ensinou muito sobre os desafios do cuidado em situações de desastres socioambientais. Para o Nusmad, contribuir com essa construção é fortalecer o SUS e as redes de cuidado, reconhecendo que proteger a saúde mental também significa valorizar os vínculos, a participação das comunidades e as estratégias coletivas de recuperação da vida”, destacou o coordenador do Núcleo de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Nusmad0 da Fiocruz Brasília, André Guerrero.

 

O guia é resultado da experiência do percurso formativo e de cuidado Atenção Psicossocial em Desastres Socioambientais: o cuidado no Caminho das Águas, desenvolvido em 138 municípios do Rio Grande do Sul. A iniciativa reuniu aprendizados sobre os desafios enfrentados pelas comunidades e pelos profissionais que atuam no atendimento às populações atingidas por eventos extremos.

 

O documento destaca a importância de articular diferentes políticas públicas e redes de atenção, reconhecer as vulnerabilidades e os recursos existentes em cada território e valorizar a participação das comunidades na construção das respostas. Também ressalta o papel dos vínculos sociais, da memória coletiva e das estratégias comunitárias de cuidado nos processos de recuperação.

 

“Estou muito feliz em participar deste encontro e, especialmente, do lançamento deste guia de bolso. Considero essa iniciativa muito especial porque consegue abordar um fenômeno novo, que traz impactos importantes para a saúde mental, a partir de referenciais sólidos da Reforma Psiquiátrica. Adaptar esses princípios para responder aos novos desafios da sociedade brasileira, sem perder de vista os fundamentos da política de saúde mental, não é uma tarefa simples. Por isso, acredito que essa experiência representa uma contribuição muito importante para o fortalecimento do cuidado”, destacou o diretor do Departamento de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati.

 

Outro ponto abordado é a necessidade de considerar as particularidades de cada contexto na atenção psicossocial. A publicação orienta que as respostas não sejam padronizadas e que as reações emocionais diante de experiências extremas não sejam automaticamente tratadas como doenças. A proposta é fortalecer práticas de cuidado que respeitem as experiências das pessoas e as formas coletivas de enfrentamento das situações de emergência.

 

“Esse documento tem um efeito para os profissionais, para os gestores, mas principalmente para a população, para as pessoas que estão nos territórios que vivem essas situações das emergências e dos desastres. Além disso, o guia poderá ajudar outros países da região das Américas”, destacou a representante da Opas, Maria Cristina Hoffmann.

 

Articulação institucional e fortalecimento do cuidado

A elaboração do guia contou com a participação de diferentes instituições que contribuíram para aproximar as experiências dos territórios das políticas públicas de saúde e para ampliar o acesso a conhecimentos que podem orientar o trabalho de profissionais e gestores diante de desastres socioambientais.

 

“A realidade aqui para nós dos desastres socioambientais infelizmente não foi algo que ficou em 2024, ele permaneceu. E desenvolver um produto como este baseada no acolhimento, que valoriza os saberes locais, as particularidades dos territórios e o cuidado com quem estava fragilizado pelas experiências vividas é muito gratificante, pois conseguimos materializar e ampliar o alcance desse conhecimento coletivo”, pontuou a coordenadora da Política Estadual de Saúde Mental da Secretaria Estadual de Saúde Mental do RS, Miriane Oliveira.

 

Ao sistematizar orientações construídas a partir de experiências concretas, a publicação busca contribuir para a qualificação da atenção psicossocial e para o fortalecimento da capacidade dos territórios de se preparar, responder aos eventos extremos e sustentar o cuidado durante a recuperação.

 

Para finalizar, a representante do Fórum Gaúcho de Saúde Mental, Fátima Fischer agradeceu a todos os envolvidos na construção do Guia e destacou a qualidade do material.

 

“Estávamos um pouco cansados de protocolos prontos, que nem sempre dialogavam com o cotidiano dos territórios. Nesse processo, construímos algo que considero o embrião de uma política pública, que vai além da saúde mental. Ao longo da formação, revisitamos e atualizamos os princípios da Reforma Psiquiátrica diante dos desafios dos desastres socioambientais. Fizemos isso com os pés no chão, estando ao lado das pessoas, dando as mãos, atravessando pontes, entrando em barcos e ajudando a reconstruir caminhos. Foi uma experiência muito bonita, que reafirmou a importância desses princípios e mostrou o quanto ainda precisamos avançar. Tenho certeza de que esse conhecimento construído coletivamente também poderá contribuir com outros territórios que enfrentem situações semelhantes”, falou.

 

O guia está disponível para consulta e pode ser utilizado como referência por equipes de saúde, gestores, usuários dos serviços, lideranças comunitárias, trabalhadores de outras políticas públicas e demais atores envolvidos na proteção e no cuidado das populações afetadas por desastres socioambientais.

 

Acesse aqui o Guia. 

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