Envelhecer é não se isolar. A frase, repetida por diferentes vozes ao longo do encontro, sintetizou a principal reflexão do Ciclo de Inspirações – O futuro é logo aqui, promovido pela Fiocruz Brasília na última segunda-feira (29). Com o tema “Envelhecimento Ativo e Múltiplas Velhices: tô dentro!”, a atividade reuniu pessoas idosas, pesquisadores, gestores públicos, representantes de povos e comunidades tradicionais, quilombolas, indígenas, quebradeiras de coco e lideranças para discutir os diferentes modos de envelhecer no Brasil e a construção de políticas públicas que respeitem essa diversidade. O evento, realizado em parceria com a Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), integra a programação dos 50 anos da Fiocruz Brasília.
A diretora da Fiocruz Brasília, Fabiana Damásio, destacou que a parceria nasce do compromisso de construir um futuro mais digno para quem envelhece. “Queremos um futuro para o país de forma mais digna, para que as pessoas tenham mais condições de seguir adiante na vida. Foi com essa perspectiva que começamos a construir uma parceria com a Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa em torno de projetos que hoje fazem parte dessa agenda, entre eles o Viva Mais Cidadania.”
Segundo ela, promover espaços de diálogo sobre envelhecimento significa reconhecer as diferentes trajetórias e garantir que todas as pessoas possam envelhecer com dignidade, pertencimento e direitos.
O encontro convidou o público a refletir sobre três perguntas centrais: Quem envelhece? Como se envelhece? E quem não envelheceu? Por quê? As questões conduziram uma conversa marcada por diferentes experiências de vida, territórios e culturas, evidenciando que envelhecer não é uma experiência única, mas atravessada por desigualdades sociais, raciais, territoriais, ambientais e culturais.
Na abertura, o secretário nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, Alexandre da Silva, lembrou uma reflexão da ministra Carmen Lúcia para discutir direitos humanos. “O que foi justo para muitos no passado, hoje pode parecer injusto.”
O secretário ressaltou que o diálogo realizado na Fiocruz Brasília inaugura uma nova etapa do programa Viva Mais Cidadania, ampliando a formação voltada às diversas velhices e incorporando os conhecimentos produzidos nos territórios.
“Vamos desenvolver uma formação mais aprofundada na perspectiva das diversas velhices. Tivemos uma abertura muito representativa, com mulheres quilombolas, indígenas, quebradeiras de coco, pescadoras, representantes de religiões de matriz africana e tantos outros segmentos. O diálogo mostrou que o programa está alinhado às demandas de grupos que historicamente ficaram à margem das políticas públicas para as pessoas idosas.”
Saberes ancestrais e novos olhares sobre o envelhecimento
As falas dos participantes mostraram que envelhecer vai muito além da passagem do tempo. É também permanecer ativo na comunidade, preservar tradições, fortalecer vínculos e ocupar novos espaços.
Representando as Quebradeiras de Coco do Tocantins, Maria Edinalva Ribeiro da Silva, compartilhou sua visão sobre a longevidade. “Não queremos ter 60+ e permanecer no isolamento. Queremos viver com segurança, autonomia e aprender mais sobre a longa vida”, afirmou.
Ela lembrou um meme que circula nas redes sociais. “Hoje, para encontrar a avó, o neto precisa ir até a academia ou ao show. São esses lugares que nós queremos ocupar. Tenho 62 anos e tenho orgulho de enxergar essas oportunidades.”
Em outro momento, resumiu a essência do encontro: “Quem não quer envelhecer, vai morrer novo.”
A representante quilombola de Minas Gerais, Sandra Maria Andrade, relacionou envelhecimento, ancestralidade e mudanças climáticas. “Com as mudanças climáticas, as nossas ervas não estão nos curando mais. Mas a gente se apega às nossas tradições, à nossa ancestralidade e aos nossos orixás. No quilombo, a gente vai longe no envelhecimento, sorrindo, cantando e dançando.”
Sandra também reforçou a mensagem que atravessou toda a programação. “Jamais envelhecer sozinho. Não vamos nos isolar. Se o filho ou o neto não nos querem, vamos contar com os amigos, ir às praças, porque lá sempre vamos encontrar alguém.”
A valorização da memória também apareceu na fala de Marcelo Rodrigues de Araújo Medeiros, Pai Pequeno do Distrito Federal. “A colcha de retalhos é um mural de memórias dos nossos ancestrais, porque a costura está na alma.”
Já Airy Gavião, uma líder indígena originária do Pará, chamou a atenção para outra percepção do tempo. “Envelhecer também é estar em harmonia com a natureza e com o tempo, que é diferente do contexto urbano, onde existe hora para tudo e até para comer olhando o relógio.”
O encontro reuniu representantes de povos e comunidades tradicionais e territórios do campo, da floresta e das águas, reforçando que pensar o envelhecimento exige reconhecer as diferentes realidades brasileiras.
A iniciativa integra o programa Viva Mais Cidadania, que busca fortalecer os direitos, a participação social e o protagonismo de pessoas idosas em situação de vulnerabilidade, valorizando cultura, memória, ancestralidade e diversidade territorial.
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