Por Roberta Quintino (Psat/Fiocruz)
Encerrou na última terça-feira (6/5) o terceiro e último módulo da Formação-ação de Promoção da Saúde e Participação Social vinculado ao projeto Territórios de Cuidado, realizado em Boa Vista, capital de Roraima. A atividade reuniu cerca de 50 educandos e educandas de aproximadamente 30 movimentos e organizações dos estados do Amapá, Amazonas e Roraima, marcada pela troca de saberes, fortalecimento da participação social e defesa doo Sistema Único de Saúde (SUS).
O projeto é realizado pelo Programa de Promoção à Saúde, Ambiente e Trabalho (Psat), da Fiocruz Brasília, em parceria com o Ministério da Saúde. O encontro aconteceu entre os dias 4 e 6 de maio, no Boa Vista Eco Hotel, sendo a etapa final do processo formativo iniciado em março.
Durante os três dias de atividades, os participantes aprofundaram debates sobre a trajetória histórica do SUS, os desafios atuais enfrentados pelo sistema, a Política Nacional de Saúde Indígena e a Política Nacional de Promoção da Saúde. A formação também propôs reflexões sobre a participação popular para além dos espaços institucionais, valorizando as redes comunitárias, os territórios e as formas coletivas de organização social.
Além de promover um espaço de convivência, escuta e fortalecimento das diversidades presentes nos territórios amazônicos. Um dos momentos de destaque foi a Feira de Saberes e Sabores, com trocas culturais, experiências comunitárias e confraternização entre os participantes.
No encerramento, educandos e educandas também apresentaram vídeos e podcasts produzidos ao longo da formação. Os materiais refletem experiências vividas nos territórios e durante os módulos do curso, ampliando o debate sobre saúde, comunicação popular e organização coletiva.
Para José Erivando, do município de Mazagão, no Amapá, um dos aprendizados mais marcantes foi o contato com os conhecimentos tradicionais sobre cura e uso das ervas medicinais. Segundo ele, a experiência trouxe reflexões importantes sobre espiritualidade, ancestralidade e saúde coletiva.
“Um ensinamento que deixou marcado para mim foi justamente a cura pelas ervas, esse ensinamento que o nosso povo indígena trouxe para esse encontro. Se falou muito dessa cura com as plantas, a questão espiritual e como ela é usada dentro das comunidades”, destacou.
Ele afirma que pretende levar esse conhecimento para os territórios onde atua, incentivando o diálogo sobre práticas tradicionais de cuidado e saúde. “Nós vamos falar desse conhecimento que viemos buscar dentro do Território de Cuidados. Buscar na natureza, não importa o credo, se é umbanda, se é indígena, mas entender que todas as ervas servem para as curas”, afirmou.
Outro aspecto destacado por José Erivando foi o fortalecimento do entendimento sobre os conselhos e os instrumentos de participação social no SUS. “Foi um dos pontos focais e algo que eu não tinha conhecimento. Dentro da lei orgânica do SUS, a gente veio absorver aqui melhor e hoje vai poder discutir isso dentro dos conselhos de saúde e outros espaços, para que esses conselhos possam melhorar suas atuações, porque isso promove saúde”, explicou.
A educanda Geice Thomas, do território indígena Canauanim, em Roraima, também ressaltou a importância da coletividade construída durante os três módulos do curso. Para ela, a convivência entre povos indígenas, representantes de religiões de matriz africana, lideranças comunitárias e outros participantes fortaleceu ainda mais sua identidade cultural e sua atuação política.
“Esse curso foi universal. Tinha várias pessoas do terreiro, pastores e nós, povos indígenas, estávamos envolvidos ali. Isso foi muito importante para mim, fortaleceu ainda mais a minha cultura”, contou.
Segundo Geice, a troca entre participantes de diferentes territórios foi um dos elementos mais importantes da formação. “A gente viu que cada um tinha suas diferenças, mas eles passaram para nós os conhecimentos deles e nós passávamos os nossos conhecimentos para eles. Isso foi muito marcante para mim.”
Conselheira de saúde em seu território, Geice destacou que o curso ampliou sua compreensão sobre direitos e legislação em saúde, fortalecendo sua atuação nas comunidades indígenas. “O maior legado que eu tive foi conhecer a lei da saúde, entender que todos nós temos direito a uma saúde de qualidade. Agora eu tenho mais conhecimento para falar sobre essas leis e fortalecer isso dentro da minha área indígena e nas conferências que participo”, afirmou.
Ao final do encontro, o sentimento compartilhado entre os participantes foi o de fortalecimento coletivo e continuidade da luta em defesa do SUS, da promoção da saúde e da participação popular nos territórios. O último módulo consolida os aprendizados construídos ao longo da formação e reafirma o compromisso das organizações e comunidades envolvidas com práticas de cuidado, direitos sociais e organização popular.
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