O que o vento não levou: a experiência de Rio Bonito do Iguaçu no apoio à saúde mental após o tornado

Fiocruz Brasília 21 de maio de 2026


Fábio Marques (Nusmad/Fiocruz Brasília)

 

Projeto da Fiocruz Brasília e do Ministério da Saúde, em parceria com a SMS, está fortalecendo o cuidado psicossocial no município paranaense e mostra que os efeitos de um desastre vão muito além da destruição física

 

“Durante a semana, nos atendimentos individuais, todas as pessoas trouxeram medo e insegurança diante das chuvas, do vento e do céu escuro daqueles dias. A frase ‘não sei o que fazer’ tem aparecido com frequência. Ela carrega não apenas uma dúvida prática, mas também uma sensação de desamparo diante da possibilidade de um novo evento extremo”.

 

O relato da psicóloga Bianca Barbora não descreve apenas o pós-desastre. Ele traduz o estado emocional de uma cidade inteira. Em novembro de 2025, Rio Bonito do Iguaçu, no interior do Paraná, viu o tempo mudar antes de ter sua rotina arrancada pela força de um tornado que ultrapassou ventos de 250 km/h. Em poucas horas, casas foram destruídas, serviços interrompidos, famílias desalojadas e comunidades inteiras atravessadas por uma experiência extrema de perda, medo e insegurança.

 

Seis meses depois da tragédia, Bianca ainda percebe no cotidiano da população os sinais silenciosos deixados pelo desastre. O vento mais forte, a chuva insistente ou o simples escurecer do céu bastavam para reativar lembranças recentes. “Percebe-se que a informação, por si só, não resolve o medo — há algo que diz respeito à memória do corpo, à experiência recente do tornado, que se reativa quando o céu escurece e o vento sopra mais forte. Observa-se uma reativação do trauma recente”, conta.

 

O que ficou em Rio Bonito do Iguaçu não foram apenas telhados arrancados ou bairros inteiros devastados. Ficou o medo de que tudo pudesse acontecer novamente. Ficou a sensação de vulnerabilidade. E foi justamente nesse território marcado pela instabilidade emocional que o projeto “Atenção Psicossocial em Desastres Socioambientais: o que o vento não leva!” chegou para trazer cuidado e atenção à saúde mental daqueles que tanto tinham perdido.

 

Desenvolvido pela Fiocruz Brasília, por meio do Núcleo de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Nusmad), em parceria com o Departamento de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Desmad) do Ministério da Saúde e a Secretaria Municipal de Saúde de Rio Bonito do Iguaçu, a iniciativa levou atendimento psicossocial às pessoas atingidas pelo tornado, mas também produziu algo menos visível e igualmente urgente: a presença, a escuta e a reconstrução de vínculos em meio ao trauma coletivo.

 

Antes mesmo da tragédia, a rede de saúde mental do município de Rio Bonito do Iguaçu não possuía Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e contava com duas psicólogas para atender toda a população. O desastre aprofundou a necessidade de responder às demandas do dia a dia do território, que se tornaram ainda mais pressionadas diante da emergência emocional instaurada após o desastre.

 

Foi nesse contexto que o Ministério da Saúde apoiou a estruturação dos atendimentos, incluindo a instalação de contêineres para acolhimento da população, enquanto a Fiocruz Brasília e o município atuaram conjuntamente no suporte aos profissionais locais e no mapeamento das demandas em saúde mental.

 

Ao longo dos seis meses do projeto, outras cinco psicólogas, entre elas Bianca, passaram a integrar as ações de cuidado no município. Mais do que ampliar a capacidade de atendimento, a chegada da equipe de atenção psicossocial permitiu fortalecer fluxos, organizar estratégias coletivas de acolhimento e criar condições para que o sofrimento pudesse ser cuidado de maneira continuada.

 

Em meio a tanta dor, isso só foi possível graças à atuação articulada na resposta à emergência que, para além do trabalho de urgência, teve um cuidado especial com as marcas pessoais que ficam fora do alcance dos olhos: o sofrimento mental. Foi a partir desse olhar atento às demandas locais que o Projeto atuou, realizando o levantamento das necessidades do território e oferecendo apoio técnico à organização do cuidado em saúde mental, além de reunir elementos para pensar estratégias de atenção psicossocial em contextos de desastres e emergências.

 

A atuação da equipe envolve acolhimento institucional, atendimentos psicológicos individuais com adultos, crianças e adolescentes, supervisão técnica, articulação com o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), visitas domiciliares e aprofundamento teórico-clínico das equipes locais. Mas também vem exigindo um exercício contínuo de sensibilidade diante de dores que não cabiam apenas em protocolos.

 

Ao lado do acompanhamento clínico, a equipe vem trabalhando estratégias de autocuidado, reorganização da rotina, fortalecimento dos vínculos sociais e reconhecimento da importância de vivenciar o sofrimento sem culpa ou autocobrança. Em contextos de desastre, explicar sintomas nem sempre basta. É preciso reconstruir referências de segurança.

 

As marcas ficam em quem cuida também

 

O trabalho em campo das cinco psicólogas do projeto também vem transformando quem chegou para cuidar. As profissionais envolvidas relatam que a experiência ultrapassou os limites técnicos da atuação clínica tradicional. Era preciso compreender o sofrimento para além do consultório. “Se algo tem acompanhado minha trajetória no campo, é a compreensão de que existir é uma tarefa coletiva”, reflete a psicóloga Bianca, ao lembrar que, em contextos extremos, o cuidado também se constrói na presença, na escuta e no fortalecimento das redes de apoio diante da dor e da vulnerabilidade.

 

A cada atendimento, novas histórias iam sendo reveladas. “Observou-se permanência de trauma coletivo reativado por alertas climáticos, aumento de demandas relacionadas a luto, ansiedade, automutilação, vulnerabilidade social e conflitos familiares”, relata Thairini Chiott, outra psicóloga participante do projeto.

 

Como pensar a saúde mental em desastres ambientais?

A experiência do projeto “Atenção Psicossocial em Desastres Socioambientais: o que o vento não leva!” revelou a importância de inserir a saúde mental no centro das respostas humanitárias em eventos climáticos extremos. Se as perdas materiais costumam mobilizar respostas rápidas, os impactos emocionais frequentemente permanecem invisíveis, ainda que durem muito mais tempo.

 

Em Rio Bonito do Iguaçu, o tornado passou em minutos. Mas seus efeitos continuaram atravessando a vida das pessoas nos meses seguintes. E foi justamente nesse intervalo entre a emergência e a reconstrução que o cuidado psicossocial se tornou fundamental.

 

O nome do projeto carrega uma síntese poderosa da experiência vivida no município: há coisas que o vento não leva. Não leva o trauma, mas também não leva a capacidade de reconstrução coletiva. Não leva a memória da dor, tampouco a possibilidade de criar redes de cuidado capazes de sustentar a vida depois da catástrofe.

 

Em meio aos escombros deixados pelo tornado, talvez tenha sido essa a principal reconstrução iniciada em Rio Bonito do Iguaçu, a de que ninguém deveria enfrentar sozinho o peso emocional de sobreviver a um desastre, e que os impactos das crises climáticas na saúde mental exigem não apenas respostas emergenciais, mas também a estruturação de redes permanentes de cuidado.

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