Roberta Quintino (Psat/Fiocruz Brasília)
Dando continuidade ao processo formativo iniciado em março, o projeto Territórios de Cuidado realizou, entre os dias 27 e 29 de abril de 2026, o segundo módulo do Curso Livre de Promoção da Saúde e Participação Social no Polo Juazeiro/Petrolina. A atividade aconteceu no Centro Cultural João Gilberto, em Juazeiro (BA), reunindo participantes de diferentes municípios da Bahia, Pernambuco e Piauí.
Com o tema “Território, cultura e práticas de promoção à saúde”, a etapa aprofundou o olhar sobre o território como um espaço vivo, onde dimensões sociais, ambientais, econômicas, culturais e políticas se entrelaçam e impactam diretamente as condições de vida e saúde da população.
Um dos pontos centrais do módulo foi o reconhecimento da cultura como dimensão fundamental da saúde. A partir de atividades práticas e reflexões coletivas, os participantes foram convidados a olhar para seus territórios a partir das manifestações culturais, memórias e modos de vida.
Para o educador popular e poeta Caio Meneses, a cultura é um elemento estruturante na forma como as comunidades se percebem, se organizam e cuidam da vida. “A cultura tem uma influência muito grande, porque coloca as pessoas para refletirem sobre a construção da sua identidade e do seu modo de vida. E isso está diretamente ligado ao fortalecimento do território e à saúde”, explica.
Segundo ele, a análise construída ao longo do módulo permitiu compreender os territórios em duas dimensões, o resgate histórico das manifestações culturais e os desafios atuais para sua continuidade.
“De um lado, a gente olha para o que já foi construído dentro daquele território. De outro, aparecem os entraves, como o processo de invasão cultural ligado ao agronegócio, que impõe outros modos de vida e desestrutura práticas locais. E, ao mesmo tempo, há uma busca por diálogo entre gerações”, destaca.
A reflexão partiu de referências concretas, como o território Pajeú, onde a poesia aparece como elemento central da identidade local. A partir disso, cada participante foi provocado a olhar para sua própria realidade. O resultado foi expressivo, já que a turma mapeou mais de 50 manifestações culturais presentes em seus territórios, evidenciando que, apesar das pressões, a cultura segue viva e resistente.
“Isso mostra que os territórios estão resistindo também pela cultura. E essa resistência está diretamente ligada à saúde. Se a cultura está preservada, as pessoas também acessam sua dimensão de saúde, seus modos de cuidado”, conclui.
As vivências do módulo também impactaram diretamente os participantes, especialmente no reconhecimento da diversidade cultural e na ampliação do olhar sobre o território.
A educanda Almice, de Sobradinho (BA), destaca que o encontro possibilitou um contato profundo com diferentes formas de viver e se relacionar com o mundo. “Estar aqui nesse segundo módulo foi uma oportunidade de conhecer outras culturas, outras vivências, outras comunidades. A gente percebe a imensidão de culturas que existem dentro do nosso território e como as pessoas se relacionam com o meio ambiente e com a natureza”, relata.
Para ela, os aprendizados no curso são fundamentais para uma vivência cotidiana mais integrada com o território. “É uma experiência que a gente leva para a vida. Vai colocando isso nos espaços que a gente faz parte, seja na rede de mulheres, na associação, no sindicato ou na comunidade rural. São aprendizados que seguem com a gente”, completa.
Já o educando Jackson Vicente, de Petrolina (PE), resume uma das principais sínteses do curso. “O curso Territórios de Cuidado me ensinou que a saúde é cultura. E que a cultura não se divide da saúde, porque é nela que existem formas de cuidado, métodos que vêm das tradições e da fé dentro dos territórios”, afirma.
Ele também destaca o compromisso de levar os aprendizados para sua realidade. “Levo desse curso a vontade de ampliar esses ensinamentos no meu território, de escutar mais a comunidade, valorizar mais os saberes locais e fortalecer as formas de cuidado que já existem”, diz.
Articulação nos territórios
A formação tem como objetivo fortalecer a compreensão de que a saúde não se restringe ao acesso a serviços, mas está diretamente relacionada às formas de viver, produzir e se organizar nos territórios. A iniciativa é realizada pelo Programa de Promoção à Saúde, Ambiente e Trabalho (Psat) da Fiocruz Brasília, em parceria com o Ministério da Saúde, e reúne representantes de movimentos populares, trabalhadores da saúde e conselhos de direitos.
A proposta aposta na construção coletiva de estratégias de cuidado, valorizando tanto os saberes populares quanto os conhecimentos técnico-científicos, além de fortalecer o protagonismo das comunidades na defesa de direitos e na incidência sobre políticas públicas.
Ao longo dos três módulos, a iniciativa busca identificar, fortalecer e dar visibilidade às práticas de promoção da saúde existentes nos territórios, contribuindo para o enfrentamento das desigualdades e para a construção de soluções coletivas a partir da realidade das comunidades.
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