Encontro articulou atores de todo o Brasil para impulsionar políticas públicas a partir da realidade local e da participação social
Beatriz Muchagata (CTIS/Fiocruz Brasília)
Representantes de movimentos sociais de todas as regiões do Brasil, além de instituições públicas e organizações parceiras, participaram do II Seminário Pedagógico – Saúde nas Periferias, realizado nos dias 22 e 23 de abril de 2026, na Fiocruz Brasília. O encontro teve como foco a construção coletiva de estratégias para o desenvolvimento de territórios saudáveis, sustentáveis e solidários, com destaque para a formação de pesquisadores e pesquisadoras populares. O evento foi coordenado pela equipe do CoLaboratório de Ciência, Tecnologia, Inovação e Sociedade (CTIS) da Fiocruz Brasília.
Durante os dois dias de programação, o seminário promoveu debates, exposições dialogadas e atividades em grupo que abordaram temas centrais para a organização territorial e a participação social. Entre os principais conteúdos discutidos estiveram os Diálogos Sociais para a elaboração de Planos Populares em Políticas Públicas, a metodologia dos Diálogos Prospectivos Territoriais (DPT), a cartografia social e a classificação de múltiplos riscos territoriais a partir dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030.
Também foram apresentados conceitos, métodos e ferramentas desenvolvidos pela Fiocruz para atuação nos territórios, como a Plataforma de Inteligência Cooperativa de Atenção à Saúde Primária (PICAPS), além da importância dos CoLaboratórios e das redes de cooperação social para fortalecer iniciativas locais.
Um dos principais objetivos do seminário foi a formação de pesquisadores e pesquisadoras populares em seus próprios territórios. A proposta parte do reconhecimento de que essas pessoas já possuem conhecimento sobre a realidade local, suas dinâmicas, desafios e potencialidades. A partir dessa vivência, são capacitadas para identificar ameaças, vulnerabilidades e também as forças existentes em seus territórios.
Esse processo permite o mapeamento participativo das comunidades, contribuindo para a construção de diagnósticos mais precisos e conectados com a realidade. Com isso, abre-se caminho para a elaboração de políticas públicas mais efetivas, construídas com base no conhecimento popular e na escuta ativa dos territórios.
Segundo Wagner Martins, coordenador do CoLaboratório de Ciência, Tecnologia, Inovação e Sociedade (CTIS), o seminário marca uma mudança na forma de pensar e construir políticas públicas no país. “O seminário foi um momento de aprendizado para a construção de um modelo de desenvolvimento territorial baseado na participação social de quem está próximo dos problemas nos territórios e pode pensar e aplicar soluções mais adequadas à sua realidade”, afirmou.
Ele também destacou o papel da formação de pesquisadores populares nesse processo. “Estamos inaugurando um modo ascendente de fazer política pública, dentro de um processo de formação de pesquisadores populares, que trarão a ciência cidadã para as políticas públicas brasileiras”, completou.
Wagner ressaltou ainda a importância da articulação institucional para fortalecer esse modelo. “A parceria entre Fiocruz, Ministério da Saúde e Secretaria-Geral da Presidência estabelece que o território saudável, sustentável e solidário será a base para esse modelo de desenvolvimento local, tendo como fundamento a transversalidade da saúde”, concluiu.
A perspectiva dos movimentos sociais também esteve presente nas discussões. Para Neila Gomes, representante do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), o seminário representa um avanço na construção de políticas públicas mais conectadas com a realidade das periferias. “O seminário da Fiocruz voltado para o nosso povo da periferia é uma importante ponte para a interação de agentes e movimentos populares que já atuam na promoção da cidadania. Mapear as demandas por políticas públicas a partir desses atores contribui para a ciência e fortalece a construção da cidadania do povo excluído, especialmente no acesso à política de saúde”, destacou.
Ela também ressaltou o papel do poder público nesse processo. “O atual governo tem investido para garantir que o poder que emana do povo se fortaleça por meio dessas iniciativas”, completou.
Para Pietro Sarnaglia, representante do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), o seminário se destacou como um espaço estratégico de formação e articulação. “O II Seminário Pedagógico foi um espaço muito rico de formação e articulação entre a esfera do poder público, Fiocruz e agentes territoriais, sobretudo por apresentar uma compreensão ampliada de saúde coletiva vinculada ao território, à inteligência cooperativa e à construção de soluções populares”, avaliou.
Ele destacou ainda o papel dos pesquisadores populares como protagonistas nos territórios. “Um dos principais aprendizados foi entender os pesquisadores populares como sujeitos estratégicos na produção de diagnóstico, cartografia social e elaboração de planos populares, fortalecendo o protagonismo comunitário”, afirmou.
Segundo Pietro, a metodologia apresentada também amplia as possibilidades de atuação dos movimentos. “Foi muito significativo conhecer a metodologia dos Diálogos de Prospectiva Territorial e sua relação com os ODS da Agenda 2030 da ONU”, disse.

Ele concluiu destacando os próximos passos do movimento. “O MTST-ES pretende utilizar esse conhecimento nos territórios periféricos em que atuamos no estado para consolidar nossa organização de base, traçar mapeamentos de forma participativa, ampliar o diálogo nas comunidades e contribuir para a construção de soluções coletivas pensadas a partir das demandas concretas da periferia”, finalizou.
Além da formação, o seminário também fortaleceu a articulação entre diferentes atores e incentivou a construção de redes, ampliando a capacidade de ação coletiva e a troca de experiências entre os participantes.
Ao reunir movimentos de todo o Brasil e promover a formação de pesquisadores populares, o seminário reforça a importância da participação social na construção de políticas públicas. A iniciativa aponta para um caminho em que o conhecimento produzido nos territórios se torna central para transformar realidades, fortalecer comunidades e promover um desenvolvimento mais justo e sustentável.
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