Rezas, chás e encantarias: Tenda da Saúde do ATL integra saberes ancestrais e práticas integrativas com apoio da Fiocruz Brasília

Fiocruz Brasília 10 de abril de 2026


Roberta Quintino (Psat/Fiocruz Brasília)

 

O Acampamento Terra Livre (ATL), maior assembleia dos povos e organizações indígenas do Brasil, reúne mais de 7 mil lideranças em Brasília (DF), entre os dias 5 e 11 de abril, em defesa dos territórios, da vida e contra ameaças como o marco temporal e a exploração mineral em terras indígenas. Em sua 22ª edição, o acampamento se organiza sob o tema “Nosso futuro não está à venda, a resposta somos nós”.

 

O ATL, que acontece tradicionalmente no mês de abril, é também um grande território de construção coletiva, onde são organizados diversos espaços de debates, articulações, formação política e troca de saberes entre os povos. Nesse cenário, é organizada a Tenda da Saúde, espaço que expressa, na prática, a relação entre cuidado e luta vivida pelos povos indígenas.

 

É nesse contexto que a Tenda da Saúde se estabelece como um dos espaços fundamentais do acampamento. Além de um lugar de acolhimento e atendimento, a tenda é território de cura, onde saberes ancestrais se encontram e se fortalecem.

 

Yolanda Pereira da Silva, da etnia Makuxi (RO), explica que o ATL é um espaço fundamental de reivindicação e fortalecimento coletivo. “Esse é um momento onde nós reivindicamos o que nós mais ansiamos, como a demarcação de terra, melhoria na educação e saúde, proteção ao meio ambiente”, afirma. Segundo ela, o acampamento reúne milhares de pessoas “com o mesmo objetivo de estar buscando os seus direitos”.

 

É também na dimensão do cuidado que essa potência se manifesta, e a medicina tradicional indígena, milenar e transmitida de geração em geração, é a base dos atendimentos realizados na tenda. “A gente vem utilizando os nossos saberes, nossas plantas, nossas raízes. Isso é muito importante para o nosso povo, porque a gente não tem de estar tomando muitos remédios de farmácia”, explica Yolanda.

 

Garrafadas, xaropes naturais, chás, elixires e pomadas fazem parte desse potencial de cura, elaborados a partir da relação profunda com a natureza. Povos de diferentes biomas e territórios trazem consigo suas práticas e conhecimentos, compondo uma grande rede de cuidado coletivo. “Como nós somos povos diferentes, temos várias pessoas fazendo esse trabalho. Pajés, curandeiros, parteiras… e a gente valoriza o trabalho um do outro e respeita”, destaca.

 

A tenda também acolhe práticas integrativas em saúde, em diálogo com a medicina indígena. A Fiocruz Brasília, por meio do Programa de Saúde, Ambiente e Trabalho (Psat), contribui com esse espaço a partir de uma perspectiva de cuidado ampliado, que reconhece e valoriza os saberes tradicionais como centrais no processo de cura.

 

Essa atuação acontece por meio de práticas como reiki, auriculoterapia, ventosaterapia e massagem, realizadas por profissionais e residentes da instituição. O fluxo de atendimento começa com acolhimento e triagem, direcionando cada pessoa para o cuidado mais adequado. “Trabalhamos assim, integrados com a saúde ocidental. Aqui temos psicólogos, fisioterapeutas e outros profissionais. Isso fortalece nosso trabalho com a medicina indígena e precisa se expandir para além do ATL, para todo o território”, reforça Yolanda.

 

A dimensão espiritual da cura também é central na Tenda da Saúde. O curador Gilmário Tremembé, do povo Tremembé (CE), explica que seu trabalho envolve o cuidado do corpo, da mente e do espírito. “Eu trabalho com as medicinas indígenas, as ervas, a jurema, na cura espiritual, física e mental das pessoas. Faço limpezas, descarrego energético. E as minhas rezas, minhas orações que meus ancestrais me ensinaram, a minha encantaria, eu faço com meu cachimbo”, relata.

 

Para ele, a força desse conhecimento está na ancestralidade e na relação com a natureza. “O bem-estar mais natural que existe é o da natureza. Toda árvore tem sua ciência e seu fundamento para curar e ajudar nós, seres humanos”, afirma.

 

Levar essa prática para o ATL é também uma forma de resistência e continuidade histórica, em que o cuidado não se separa da luta. “Estamos aqui mostrando aos nossos ancestrais que se foram, que nós ficamos com os saberes deles para seguir ajudando as pessoas e lutar pelo nosso território livre”, conclui.

 

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