Mateus Quevedo (Angicos/Fiocruz Brasília)
Realizado na Itália, evento abordou a integração entre democracia e práticas locais, com participação ativa de pesquisadores da Fiocruz em atividades formativas e visitas a experiências comunitárias
A Fiocruz Brasília marcou presença na 18ª edição do Laboratório Ítalo-Brasileiro de Formação, Pesquisa e Prática em Saúde Coletiva, realizado entre os dias 4 e 19 de fevereiro de 2026, na cidade de Bolonha e em outros municípios da região da Emília-Romana, na Itália. Com o tema central “Sistemas, redes e práticas locais de saúde única e democracia: da crise ambiental à livre determinação dos povos, desafios para redes trans locais”, o encontro se consolidou como um espaço fundamental para o diálogo e a construção conjunta de saberes entre o Brasil e a Itália no campo da saúde coletiva.
A participação da Fundação reforçou o compromisso institucional com a cooperação internacional e a troca de experiências que aproximam o saber acadêmico das práticas populares e do fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS).
A comitiva da Fiocruz Brasília foi representada pela vice-diretora, Denise Oliveira e Silva, pelo analista Raphael Patricio, pelo coordenador e coordenadora-adjunta do Núcleo de Educação Popular, Cuidado e Participação em Saúde (Angicos), Osvaldo Bonetti e Dandara Macedo. Também acompanharam a presidenta da Associação Brasileira de Enfermagem, Jacinta Senna, e a coordenadora-geral de Acesso e Equidade do Ministério da Saúde, Lilian Silva Gonçalves.
Diálogos entre arte, cultura e educação popular
No dia 10 de fevereiro, a programação teve um momento de imersão nas estratégias de educação popular comunitária durante a roda de conversa ‘Arte, Cultura e Educação Popular’. Realizada em forma de interlúdio, os participantes se dedicaram a compartilhar experiências bem-sucedidas de inclusão e cuidado, especialmente para populações vulnerabilizadas. Na oportunidade, Osvaldo Bonetti e Dandara Macedo apresentaram os processos formativos desenvolvidos pela Fiocruz Brasília na perspectiva da educação popular em saúde.
“Trazer a experiência do Núcleo Angicos para este diálogo, na Itália, é carregar a força das juventudes das periferias do Distrito Federal que se formaram agentes populares de saúde e nos ensinam diariamente que a educação popular é ferramenta concreta de transformação dos territórios. São esses jovens que nos mostram como enfrentar a fome, a violência e o racismo, construindo coletivamente os ‘inéditos viáveis’ que Paulo Freire nos legou”, destacou Osvaldo Bonetti, que ressaltou que a construção do Marco de Referência da Educação Popular para as Políticas Públicas no Brasil é tão estratégica. “Ele consagra que não há política pública eficaz sem escuta ativa, sem diálogo entre saberes, sem a valorização de quem vive o território.”
A mesa contou com a mediação de Emerson Merhy, do Brasil, e Angela Barrio, da Venezuela, e reuniu uma diversidade de vozes, incluindo o Ministro da Educação, o chefe de gabinete do presidente e um trabalhador da Saúde de Mianmar, além de docentes da Bahia e Rio Grande do Sul, e integrantes de movimentos sociais italianos.
Debates sobre políticas públicas e combate à fome
A comitiva brasileira participou de uma mesa de introdução ao contexto local, realizada na sede da Cidade Metropolitana de Bolonha. O encontro contou com as boas-vindas de Sara Accorsi, delegada de Bem-Estar da Cidade Metropolitana, e de Daniele Ara, conselheiro para Escolas, Novas Arquiteturas de Aprendizagem, Adolescentes, Agricultura e Segurança Alimentar do Município de Bolonha.
Na ocasião, a vice-diretora da Fiocruz Brasília, Denise Oliveira e Silva, e o analista Raphael Patricio, do Programa Alimentação, Nutrição e Cultura (Palin/Fiocruz Brasília), apresentaram as principais diretrizes políticas do Brasil de combate à fome, à pobreza e para o desenvolvimento local. A mesa também contou com a apresentação do programa de imersão em práticas de combate à fome e desenvolvimento sustentável no setor agroalimentar, conduzida por Cinzia Migani e Mariachiara Patuelli.
Um dos pontos que mais despertou a curiosidade dos participantes italianos foi compreender como o Brasil estabelece os critérios de adesão às políticas de alimentação e aos programas de transferência de renda. Em resposta, a delegação brasileira explicou o papel central do Cadastro Único para Programas Sociais — instrumento que identifica e caracteriza as famílias de baixa renda em todo o território nacional, permitindo que o governo conheça sua realidade socioeconômica e direcione as políticas públicas de forma eficiente e segura. É por meio dele que milhões de famílias acessam programas sociais.
Durante sua exposição, Denise Oliveira destacou a importância da integração entre ciência, políticas públicas e participação social. “A cooperação científica, quando associada ao protagonismo comunitário, amplia a capacidade do Estado de formular respostas mais eficazes diante dos desafios contemporâneos. Nesse horizonte, fortalecer experiências translocais não apenas contribui para reduzir desigualdades históricas, mas também aponta caminhos para a construção de modelos de desenvolvimento mais justos, democráticos e sustentáveis.”
Outro eixo central da participação da Fiocruz Brasília foi a visita a uma cozinha popular (comedor popular), também em Bolonha, atividade que integrou o eixo temático de imersão em práticas de combate à fome e desenvolvimento agroalimentar sustentável.
O grupo participou de um almoço típico italiano ao lado dos frequentadores do espaço, vivenciando na prática o modelo de acolhimento e segurança alimentar adotado pela cidade. Após a refeição, o encontro com Domenico Isola, coordenador da cozinha popular, proporcionou uma rica troca de experiências entre os dois países.
A participação da Fiocruz Brasília no Laboratório Ítalo-Brasileiro reafirma a importância da cooperação e troca de saberes para enfrentar os desafios contemporâneos da saúde pública, integrando ciência, educação popular e determinantes sociais.
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