Por Roberta Quintino (Psat/Fiocruz Brasília)
Como formar agentes populares de saúde considerando as diferentes realidades sociais, culturais e territoriais que atravessam a vida das comunidades? Essa foi uma das questões que orientaram o curso pré-congresso “Interseccionalidades, interculturalidade e equidade na formação-ação de agentes populares de saúde nos territórios”, realizado em 16 de setembro, na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), durante a programação do 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS), promovido pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), em Manaus (AM).
A atividade, proposta pelo Programa de Promoção da Saúde, Ambiente e Trabalho (PSAT) da Fiocruz Brasília, reuniu pesquisadores, estudantes, trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS) e lideranças de movimentos sociais para discutir experiências de formação-ação de agentes de promoção da saúde e igualdade racial e refletir sobre as relações entre saúde, território, cultura e desigualdades. O curso contou com a participação dos pesquisadores André Fenner, Andréa Bomfim, Mateus Brito, Virgínia Corrêa e Rose Santos.
A proposta partiu do reconhecimento de que as condições de vida e saúde não são determinadas apenas por fatores individuais ou pela oferta de serviços. Racismo, machismo, patriarcado, condições socioeconômicas e outras estruturas sociais se articulam e produzem diferentes possibilidades de acesso a direitos, proteção e cuidado. No campo da saúde, essas desigualdades também podem se expressar na organização dos serviços e na dificuldade de reconhecimento de práticas tradicionais.
É nesse contexto que a formação de agentes populares aparece como uma estratégia de aproximação entre conhecimento, participação social e realidade territorial. No curso, o debate foi organizado a partir da chamada formação-ação, metodologia que articula processos formativos com a análise da realidade e a intervenção nos próprios territórios.
Para o coordenador e pesquisador do PSAT, André Dutra Fenner, a atividade realizada no CSHS permitiu sistematizar uma reflexão sobre uma experiência que vem sendo desenvolvida pelo Programa em diferentes processos formativos. Segundo Fenner, a proposta é construída a partir de um mesmo método de formação-ação, aplicado a diferentes experiências de agentes populares. Entre elas estão iniciativas voltadas à promoção da saúde e da igualdade racial, à saúde no campo, à agroecologia.
“Na verdade, foi um modelo de fazer uma reflexão sobre a formação-ação que o PSAT vem fazendo ao longo da sua existência”, explica. A abordagem apresentada no curso procura diferenciar uma formação tradicional de um processo em que a construção do conhecimento está relacionada à realidade vivida pelos participantes. Nesse modelo, a formação não se encerra na transmissão de conteúdos, mas busca criar condições para que os agentes analisem criticamente seus territórios, reconheçam problemas e possibilidades e atuem sobre eles.
Essa perspectiva também permite colocar em diálogo diferentes experiências desenvolvidas pelo PSAT, identificando elementos comuns entre processos formativos que acontecem em contextos territoriais distintos.
No curso, essa reflexão foi articulada aos conceitos de interseccionalidade, interculturalidade, educação popular em saúde e equidade de gênero, raça e etnia. A metodologia proposta incluiu rodas de compartilhamento de experiências e discussões sobre formação-ação e metodologias participativas e um círculo dedicado às confluências e interseccionalidades na saúde.
Saberes dos territórios
Um dos pontos debatidos na atividade foi a necessidade de ampliar o reconhecimento dos conhecimentos produzidos fora dos espaços acadêmicos e institucionais. Isso significa considerar que comunidades, movimentos sociais, povos tradicionais e diferentes grupos que vivem os territórios também acumulam experiências e conhecimentos sobre cuidado, prevenção, organização comunitária e enfrentamento de problemas de saúde.
A proposta está diretamente relacionada ao tema do 10º CSHS, “Interculturalidade, ambiente e saúde: os desafios do século XXI para uma vida em conexão com os territórios”. Realizado pela primeira vez na Região Norte, o congresso ocorreu em Manaus entre 16 e 19 de setembro e reuniu pesquisadores, profissionais de saúde, estudantes e representantes de movimentos sociais.
Para a Abrasco, o congresso foi concebido como um espaço de diálogo entre a produção científica e conhecimentos oriundos de povos indígenas, povos negros, povos das águas e das florestas, comunidades das periferias e favelas e pessoas que atuam cotidianamente na construção do SUS.
Nesse cenário, discutir a formação de agentes populares de saúde significa também discutir quem produz conhecimento sobre saúde, quais conhecimentos são reconhecidos e de que maneira eles participam da construção das políticas e práticas de cuidado.
Da formação para a atuação
A experiência apresentada pelo PSAT dialoga com iniciativas que já vêm sendo desenvolvidas pelo programa. Em 2026, uma dessas experiências foi o Curso Livre de Agentes Populares de Promoção da Saúde e da Igualdade Racial (APPSIR), realizado em Porto Alegre e região metropolitana.
Vinculado ao Núcleo de Equidade, Gênero e Raça do PSAT, o curso reuniu lideranças negras de movimentos sociais, representantes de religiões de matriz africana, integrantes de conselhos de direitos e profissionais da saúde. O processo foi organizado para fortalecer a capacidade dos participantes de analisar criticamente a realidade, atuar nos territórios e ampliar sua participação em espaços de controle social, como conselhos, fóruns e redes institucionais e comunitárias.
Ao colocar em debate a formação de agentes populares, o PSAT aproxima dois campos que muitas vezes aparecem separados: a produção de conhecimento e a ação concreta nos territórios. A experiência apresentada no CSHS mostra que discutir equidade em saúde vai além de reconhecer desigualdades. Envolve compreender como elas são produzidas, identificar seus efeitos no cotidiano e construir estratégias de enfrentamento a partir das realidades vividas pelas comunidades.
Nesse processo, raça, gênero, cultura e território deixam de ser elementos secundários da formação e passam a integrar a própria compreensão sobre saúde e cuidado. A interculturalidade, por sua vez, amplia a possibilidade de diálogo entre diferentes formas de produzir conhecimento, sem reduzir os saberes comunitários a objetos de estudo.