Websérie traz histórias de mulheres e do cuidado em liberdade nas grandes capitais brasileiras
Por Juliana Vargas e Fernanda Severo
Na capital baiana, entre ladeiras, batucadas e o mar, a vida pulsa em busca de novos sentidos para o acolhimento. Habitar Salvador é vivenciar a ancestralidade e os fluxos de uma cidade que transborda cultura e resistência. Onde moram nossas origens? Onde mora o bem viver?
Caminhar pelo Pelourinho ou pela Cidade Baixa pode ser desafiador, mas também é o impulso para que cada sujeito se descubra como guia do próprio chão. Salvador tem mudanças constantes que aceleram o passo e desafiam o equilíbrio, mas a liberdade surge como uma provocação cotidiana. Uma provocação que vive no dia a dia de pessoas que fizeram da autonomia a sua maior ferramenta de construção de si.
Protagonista da liberdade, Helisleide Bonfim, 55 anos, técnica de enfermagem, atriz, militante da Luta Antimanicomial e também usuária da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do SUS, é quem conduz o primeiro Episódio do Diários de Salvador, ressignificando o sofrimento através da arte e da política. “Nós, loucos, não fazemos mal para ninguém. Que bom que fiquei louca nessa sociedade adoecida e estigmatizante. A loucura caiu como manjar para eu entender a auto-afirmação, quem eu sou”, afirma Helisleide, que hoje celebra a autonomia e empoderamento para assumir as próprias escolhas.
Ex-presidente da Associação Metamorfose Ambulante (AMEA), Helisleide personifica a missão da entidade: criada em 2007, a AMEA defende direitos e amplia a participação de usuários e familiares nas políticas públicas. No palco, ela brilha como atriz do Grupo Teatro Os Insênicos, coletivo criado em 2010 que une arte e saúde para combater o estigma. Foi em Os Insênicos que Helisleide se destacou na peça Holocausto Brasileiro. “Esse espetáculo dá pra ela uma visibilidade e ela acaba ganhando o Prêmio de Atriz Revelação, na época chamado Prêmio Brasken, e ela é reconhecida pelo trabalho dela. Independente de qualquer rótulo acho que isso é muito interessante porque ela é reconhecida pelo trabalho como atriz, não pela condição (…) Hoje ela é uma mulher atuante no campo da cultura, ela tem outras relações de trabalho voltadas à produção cultural”.
A história de Helisleide encena o encontro entre a arte e a militância. Por meio das trajetórias da AMEA e dos Insênicos, o primeiro episódio mostra como o cuidado em liberdade se materializa na ocupação cultural da cidade e no fortalecimento político dos usuários. Com esse episódio, celebramos com Helisleide Bonfim e todos os usuários que participam ativamente da Luta Antimanicomial, os 25 anos da Lei 10216.
Esta criação integra a Websérie Diários de Salvador – Morar em Liberdade (onde mora o bem viver?), produzida pelo Núcleo de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Nusmad) da Fiocruz Brasília e pela TV Pinel. O projeto faz parte da iniciativa “Memórias da Saúde Mental: Cultura, Comunicação e Direitos Humanos”, em parceria com o DESMAD/Ministério da Saúde, e percorre capitais brasileiras para consolidar o fortalecimento de uma sociedade sem manicômios.
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