Merhy convida à reflexão sobre ética, vida e cuidado no SUS em abertura do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde

Fiocruz Brasília 5 de março de 2026


Mateus Quevedo (Angicos/Fiocruz Brasília)

 

Em aula inaugural, o sanitarista Emerson Elias Merhy provocou os novos residentes a pensar sobre as armadilhas do imaginário social, a violência estrutural e o papel do cuidado em saúde como potência de vida

 

A primeira semana do Programa de Residência Multiprofissional em Atenção Básica (PRMAB) da Fiocruz Brasília foi marcada por uma aula que transcendeu os limites técnicos da saúde coletiva. Com a presença do professor Emerson Elias Merhy, médico sanitarista e um dos principais pensadores da área, os novos residentes foram convidados a uma imersão teórica sobre “O Cuidado que se Produz no Território: micropolítica e trabalho vivo em saúde”. Mais do que um conceito, a exposição de Merhy funcionou como um chamado à vigilância ética e política para aqueles que atuarão no cotidiano do Sistema Único de Saúde (SUS).

 

A atividade aconteceu na tarde desta quarta-feira, 04 de março, no auditório externo da instituição e faz parte das atividades de imersão do PRMAB. O encontro teórico ocorreu com a presença de todos os Programas de Residência Multiprofissional em Saúde da Escola de Governo Fiocruz-Brasília (EGF-Brasília).

 

A aula, realizada em um momento de afirmação dos Programas de Residência da EGF-Brasília, não se furtou a enfrentar temas complexos como a herança da ditadura, o racismo estrutural e a constante disputa pelo imaginário social em torno do valor da vida. Para Merhy, o profissional de saúde precisa estar atento a essas camadas profundas da sociedade para não reproduzir, dentro dos serviços, as mesmas violências que deveria combater.

 

O valor da vida e a herança da violência

Merhy iniciou sua fala com um diagnóstico contundente sobre a sociedade brasileira, apontando o que chamou de “500 anos de genocídio”. Para ele, o país ainda opera sob uma lógica racista, patriarcal e violenta que define quais vidas são dignas de cuidado e quais podem ser descartadas. “Estamos remando contra a maré”, afirmou, citando a luta histórica de figuras como Davi Capistrano e a memória do Manicômio Anchieta como símbolos da resistência necessária.

 

O professor provocou a plateia com uma questão incômoda: “qual é o valor da vida do outro?” Para ilustrar, contrapôs a luta contra a ditadura militar com a indiferença seletiva diante da violência atual, como o assassinato de jovens periféricos. “Se fizermos uma enquete sobre a morte de 120 jovens no Rio de Janeiro nas mãos do Estado, qual a reação?”, questionou, apontando como a vida de certos grupos é persistentemente desvalorizada.

 

A potência do encontro e a ruptura com a desumanização

Para aprofundar o debate sobre a desumanização, Merhy recorreu à psicanálise e à filosofia, citando a banca de doutorado do psiquiatra Marcos Santos, homem negro e gay. A partir dessa experiência, trouxe à tona a obra de Frantz Fanon, psiquiatra e filósofo negro das Antilhas. No clássico “Pele Negra, Máscaras Brancas”, Fanon descreve o momento em que uma criança, ao vê-lo, grita: “Mãe, um homem preto”.

 

Merhy explicou que esse episódio representa uma “ruptura existencial”, um momento não planejável em que a violência colonial se materializa no olhar do outro. “A criança tinha um imaginário”, disse. O grande desafio, segundo ele, é realizar o percurso oposto ao da desumanização criada pela branquitude: perceber que, antes dessa racionalização dos corpos, os ancestrais negros e indígenas eram plenamente humanos. Trata-se, portanto, de um processo de desalienação e libertação.

 

O arsenal imaterial e a língua no cotidiano do cuidado

Um dos pontos centrais da aula foi a distinção entre a violência explícita e a violência estrutural que opera 24 horas por dia. Merhy introduziu o conceito de “arsenal imaterial” da dominação. “Não precisa ter uma arma de extermínio à mostra”, alertou. A violência se reproduz por meio de “armas imateriais”, sendo a principal delas a língua, ou seja, a forma como nos comunicamos e nos relacionamos no dia a dia.

 

No campo da saúde, esse arsenal é particularmente perigoso porque opera na “cotidianidade do cuidado”. Para que haja um cuidado genuíno, é necessário estabelecer vínculo e confiança. Mas é justamente aí que a violência pode se infiltrar, muitas vezes mascarada por um falso discurso de cordialidade.

 

“A brasilidade de que o povo é cordial é, na verdade, a produção de um povo submisso”, afirmou Merhy, citando a lógica do “estrangeiro interior”. O cuidado em saúde, para ser efetivo, precisa ir além de “não deixar morrer”. Citando o filósofo e médico Georges Canguilhem, de “O Normal e o Patológico”, Merhy definiu o cuidado como a capacidade de “potencializar no outro a possibilidade de fazer gerar mais vidas na vida vivida”. Sem isso, não há qualidade de vida, apenas sobrevivência manejada.

 

O SUS como trincheira antigenocida e a guerra do imaginário

Apesar do tom crítico, Merhy fez questão de defender a potência do SUS. “Jamais cairia no engodo de defender o SUS como uma imagem Poliana [personificação do otimismo cego]”, ponderou. “Se não fosse o SUS, não teríamos ‘apenas’ 700 mil mortos na pandemia de covid-19.” As aspas são mais do que ironia, mas uma crítica ao descaso, demostrando que sem o SUS a tragédia poderia ter sido muito maior. Para ele, a existência de um sistema público universal é o que confere “autonomia antigenocida” ao país.

 

No entanto, lembrou que essa autonomia está sob constante ataque. A guerra pelo imaginário social é feroz, e a ideia de que o serviço privado é superior ao público precisa ser combatida. Com apenas 30% da população coberta pela saúde suplementar, o SUS é a garantia de saúde para a maioria. “A saúde como bem público organiza a consciência como cidadão e não como consumidor”, afirmou, destacando a importância de formar profissionais que compreendam essa disputa.

 

Conclusão: a ética da vida como guia

Ao finalizar sua exposição, Emerson Merhy deixou um claro recado aos novos residentes da Fiocruz Brasília. O cuidado que se produz no território é um campo de disputa micropolítico, onde o “trabalho vivo” do profissional de saúde encontra a vida do outro. É nesse encontro que se define se a prática será libertadora ou opressora.

 

“Precisamos estar vigilantes para que o patriarcado e o racismo não sejam as práticas éticas imperantes no cuidado em saúde”, conclamou. Em um país marcado pela violência estrutural, a “ética da vida” deve reger a prática do cuidado, convocando no outro uma potência que ele talvez nunca tenha experimentado. A aula, assim, não foi apenas uma introdução teórica, mas um convite à implicação ética, política e afetiva de cada um na construção de um SUS mais justo e humano.