Fiocruz Brasília e Ministério da Saúde lançam projeto para fortalecer o cuidado nas Unidades de Acolhimento da RAPS
Nathállia Gameiro
6 de novembro de 2026
Iniciativa oferecerá supervisão clínico-institucional às equipes, com foco na qualificação do cuidado em liberdade, na redução de danos e na articulação dos serviços nos territórios
Bruna Viana (Nusmad/Fiocruz Brasília)
O Núcleo de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (NUSMAD) da Fiocruz Brasília e o Departamento de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas (DESMAD) do Ministério da Saúde lançaram, nesta quinta-feira (5/11), o Projeto Nacional de Supervisão Clínico-Institucional das Unidades de Acolhimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Apresentada durante webinário, a iniciativa busca fortalecer o trabalho das equipes, qualificar as práticas de cuidado e ampliar a integração desses serviços com os demais pontos da rede de saúde e proteção social.
As Unidades de Acolhimento (UAs) são serviços de residência transitória destinados a pessoas com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas, especialmente em situações de vulnerabilidade social e fragilização de vínculos familiares e comunitários. Vinculadas aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), oferecem acolhimento voluntário e acompanhamento contínuo, com foco na autonomia, na redução de danos, na garantia de direitos e na construção de projetos de vida.
Atualmente, o Brasil conta com 85 Unidades de Acolhimento habilitadas e ativas, distribuídas em 18 unidades da Federação. Desse total, 58 são destinadas ao público adulto e 27 ao infantojuvenil. Todas as UA habilitadas pelo Ministério da Saúde até março poderão receber o projeto de supervisão.
Durante o lançamento, o diretor do Departamento de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas (DESMAD) do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati, destacou que a iniciativa representa um passo importante para ampliar e estruturar a presença das Unidades de Acolhimento na RAPS. No ano em que a Lei da Reforma Psiquiátrica brasileira completa 25 anos, ele ressaltou a necessidade de uma rede capaz de oferecer diferentes possibilidades de cuidado, considerando as necessidades de cada pessoa.
“As Unidades de Acolhimento não são dispositivos pelos quais todos os usuários da rede necessariamente passarão, mas precisam estar disponíveis para aqueles que necessitarem”, afirmou. Ele também chamou a atenção para a importância de compreender o acolhimento como parte de um percurso de cuidado, e não como uma resposta isolada ou condicionada à abstinência permanente.
Nessa perspectiva, o fortalecimento das unidades contribui para que as pessoas reconheçam a existência de uma rede à qual podem recorrer em diferentes momentos de suas trajetórias, inclusive diante de situações de agravamento ou retomada do uso de substâncias. Para Kimati, a supervisão clínico-institucional constitui um primeiro passo para apoiar a qualificação desses serviços e criar condições para sua expansão, em consonância com os princípios da Reforma Psiquiátrica.
Supervisão como espaço de construção coletiva
O projeto parte do entendimento de que a supervisão clínico-institucional não deve ser confundida com fiscalização. Trata-se de um processo de escuta, diálogo, reflexão e construção compartilhada, que reconhece os desafios enfrentados cotidianamente pelas equipes e busca desenvolver respostas a partir da realidade de cada território.
Durante o webinário, o coordenador do NUSMAD da Fiocruz Brasília, André Guerreiro, destacou que a supervisão clínico-institucional é também uma estratégia de cuidado com os trabalhadores, que lidam diariamente com situações complexas e com diferentes necessidades das pessoas acolhidas.
“A supervisão não é um espaço de fiscalização, mas de construção coletiva. É uma oportunidade para que as equipes possam refletir sobre os desafios do cotidiano, compartilhar experiências e construir novas possibilidades de cuidado, considerando as singularidades de cada serviço e de seu território”, destacou André.
A proposta prevê momentos de aproximação com os serviços, identificação de potencialidades e desafios, discussão de casos e encontros periódicos de acompanhamento. As atividades serão conduzidas por profissionais com experiência no campo da saúde mental, da atenção psicossocial e da redução de danos.
A iniciativa dialoga com a experiência de supervisão já desenvolvida junto aos CAPS, mas considera as particularidades das Unidades de Acolhimento, compreendidas como espaços de moradia transitória e de construção de autonomia. A intenção é fortalecer a atuação integrada entre os serviços, respeitando as diferentes formas de organização do cuidado nos territórios.
A construção do projeto também está relacionada às discussões iniciadas em 2024, com a instituição de um grupo de trabalho que reuniu representantes do Ministério da Saúde, de outros ministérios, do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e de organizações do campo da saúde mental e da saúde coletiva.
O projeto contará com uma estrutura de gestão compartilhada entre as duas instituições, com quatro referências técnicas responsáveis por apoiar os supervisores e acompanhar o desenvolvimento das atividades.
Seleção de supervisores
Durante o lançamento, também foram apresentados os critérios e as etapas do processo seletivo dos profissionais que atuarão na supervisão clínico-institucional.
Os supervisores selecionados acompanharão de uma a três Unidades de Acolhimento, por um período inicial de seis meses, com possibilidade de prorrogação por mais seis meses. A bolsa prevista é de R$ 1.500 por Unidade de Acolhimento acompanhada, por mês.
Para participar, é necessário possuir graduação completa na área da saúde ou em área afim compatível, experiência comprovada em CAPS e/ou Unidades de Acolhimento e experiência em supervisão, apoio institucional, educação permanente, gestão ou coordenação. Também é exigida disponibilidade para atividades remotas, presenciais e deslocamentos, quando necessários.
Em breve as informações sobre as inscrições estarão disponíveis no site da Fiocruz Brasília.