Entre contos e descobertas

Nathállia Gameiro 31 de março de 2026


Entre risos tímidos e olhares curiosos, 33 meninas de 12 a 14 anos chegaram na Fiocruz Brasília, na última quinta-feira (26/3), carregando mais do que mochilas, trouxeram perguntas e vivências de quem começa a descobrir seu lugar no mundo. Em um encontro onde histórias ganharam voz e escuta, o projeto de extensão Quem conta um conto aumenta um ponto: mulheres e meninas na ciência e suas histórias transformou o dia em aprendizado e afeto.

No âmbito do programa Mais Meninas na Fiocruz Brasília, estudantes do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 27 de Ceilândia se encontraram com mestrandas e residentes da instituição em uma experiência que misturou o lúdico com a reflexão. Entre jogos de cruza palavras, tabuleiro, passa ou repassa e jogo do uno, que abordaram temas como saúde, acessibilidade, violência de gênero e bullying, rodas de conversa e um show musical que carregou leveza e pertencimento, o espaço se abriu para que cada menina pudesse contar e também reinventar a própria história.

Para a diretora da Fiocruz Brasília, Fabiana Damásio, a iniciativa também é uma porta para ampliar horizontes e aproximar as jovens do universo da ciência e das políticas públicas. “A gente quer que vocês conheçam possibilidades, inclusive a de realizar pesquisa. Vocês podem ser quem vocês quiserem. Que esta casa proporcione uma diversidade de caminhos e de sonhos”, afirmou. Ao destacar o papel institucional, ela reforçou que a instituição trabalha aqui com política pública, que só faz sentido quando chega na vida das pessoas, garantindo melhores condições de vida e saúde para toda a população. Damásio também incentivou a participação ativa das estudantes durante a visita: “Aproveitem esse espaço, perguntem, dialoguem. É assim que a gente constrói ciência junto”, disse.

A professora de história do CEF 27 de Ceilândia, Mariana Raposo, destacou a importância de ampliar a presença feminina na ciência como estratégia de transformação social. “A ciência precisa de pessoas para poder sobreviver e fazer sentido na sociedade e essas pessoas precisam abarcar uma pluralidade. Quando a gente traz meninas para esse espaço, a gente planta sementes para o futuro, abre novas possibilidades e rompe com limites muitas vezes impostos pela realidade periférica”, afirmou. Em um contexto de desigualdades e violências, ela reforçou o significado da iniciativa. “Quando essas meninas se veem como pesquisadoras, estamos falando de mulheres vivas, de futuro. É essa mulher que a gente quer construir”.

A coordenadora do projeto, Fernanda Marques, ressaltou que a atividade faz parte de um processo contínuo de aproximação. “Essa visita é um marco dentro de um projeto maior, de 24 meses. A gente já foi à escola, já fez oficinas, já levou elas para a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) e, agora, elas vivem essa imersão aqui na Fiocruz”, explicou. Segundo ela, o vínculo construído ao longo do tempo é essencial: “Não é um encontro isolado. A gente cria confiança, conhece pelo nome, escuta de verdade. Isso faz toda a diferença na divulgação científica”. Ela também observou mudanças no grupo ao longo do processo. “No começo há desconfiança, mas, quando elas percebem que a proposta é real e que a opinião delas importa, tudo muda. Elas passam a confiar e a se engajar de forma muito mais potente”, completou.

Entre as participantes, a experiência foi marcada por descobertas. Para Lara Rute, de 12 anos, a visita superou expectativas. “Quando eu vim pra cá, não achei que seria muito legal, mas eu aprendi muita coisa: sobre ciência, sobre direitos da mulher e até como me defender de situações do dia a dia. Foi uma experiência muito legal, eu amei”, contou.

Já Nathália Evellyn, também de 12 anos, destacou o impacto da vivência na forma de pensar o futuro. “A Fiocruz traz novas experiências e muda a nossa mentalidade. Mostra que você pode estar na ciência, sendo menina, sendo mulher. Você pode descobrir o que gosta, aprender coisas novas e ser tudo o que quiser”, afirmou.


Quem conta um conto aumenta um ponto

Com duração prevista de 24 meses, o projeto de extensão “Quem conta um conto aumenta um ponto: mulheres e meninas na ciência e suas histórias” integra as ações da Fiocruz Brasília voltadas à promoção da equidade de gênero na ciência. A iniciativa, vinculada ao Mestrado Profissional em Políticas Públicas em Saúde da Escola de Governo Fiocruz-Brasília, foi contemplada em edital interno da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e aposta na construção de vínculos contínuos com estudantes da rede pública.

Ao longo do projeto, as participantes vivenciam oficinas nas escolas, visitas a eventos como a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia e, mais recentemente, a imersão na Fiocruz Brasília. A proposta é articular a escuta, troca de experiências e o lúdica para abordar temas como saúde, direitos e cotidiano, aproximando a ciência da realidade das adolescentes. Mais do que apresentar conteúdos, o projeto busca fortalecer o protagonismo das meninas e estimular o reconhecimento da ciência como um espaço possível, diverso e acessível.


Confira as fotos da atividade na Fiocruz Brasília

 
Saiba mais