Encontro debate desafios atuais da saúde mental de crianças e adolescentes

Fiocruz Brasília 3 de novembro de 2026


Atividade reuniu cerca de 140 participantes, incluindo supervisores clínicos-institucionais de CAPS infantojuvenis e  também trabalhadores da RAPS de todo país para discutir avanços e desafios da atenção psicossocial

 

Fábio Marques (Nusmad/Fiocruz Brasília)

 

O cuidado em saúde mental de crianças e adolescentes e os desafios para o fortalecimento da atenção psicossocial no Brasil foram temas do encontro Crianças e adolescentes sujeitos plenos e os desafios atuais da saúde mental infantojuvenil, realizado na última quinta-feira (29/10). A atividade reuniu cerca de 140 participantes, entre eles supervisores de Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSij) e trabalhadores da  Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) de diferentes regiões do país.

 

A coordenadora do projeto de Supervisão Clínico-Institucional pelo Núcleo de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Nusmad) da Fiocruz Brasília, Barbara Vaz, foi uma das anfitriãs do encontro e contextualizou como o evento foi idealizado.

 

“O projeto de supervisores clínico-institucional fez uma primeira conversa entre os supervisores de CAPSij, há uns meses, e a partir dessa conversa, acho que muitas inquietudes e questões surgiram. Então o grupo de supervisores de CAPSij protagonizou para que o encontro acontecesse e fizemos o possível para chegarmos aqui nesse momento agora com vocês”, relembrou.

 

A representante do Departamento de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Desmad) do Ministério da Saúde, Ana Beatriz Pessoa, pontou a oportunidade da realização do encontro. “É muito significativo estarmos fazendo esse evento neste momento, para pensarmos os rumos que a gente quer para a política de saúde mental de crianças e adolescentes”, disse.

 

A discussão foi conduzida por Cristina Ventura, pesquisadora do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB/UFRJ), que abordou os avanços e os desafios da política de saúde mental infantojuvenil. Durante a apresentação, ela destacou a importância de revisar criticamente o caminho percorrido e refletir sobre os impactos das políticas implementadas. “É preciso que a gente acolha uma série de elementos que temos feito e que precisamos refletir sobre os impactos, desafios e alguns retrocessos que temos observado até aqui”, afirmou.

 

Cristina Ventura também ressaltou que a atenção psicossocial constitui um projeto de transformação social fundamentado nos direitos humanos e no respeito aos diferentes modos de existir. Essa perspectiva exige mudanças na compreensão do desenvolvimento, nas práticas de cuidado, nas políticas de proteção e nas formas de reconhecer e acolher o sofrimento, considerando crianças e adolescentes sujeitos de direitos e protagonistas de suas próprias histórias.

 

A pesquisadora chamou a atenção ainda para a necessidade de fortalecer as bases institucionais para que as pautas progressistas sejam incorporadas de maneira mais efetiva aos planos de governo. “Nós somos o Estado democrático em ação. O que a gente faz pode representar mais ou menos o Estado democrático, junto ao menino e à menina e sua família”, disse.

 

Avanços e desafios da atenção psicossocial

Entre os avanços no campo da saúde mental infantojuvenil, foram destacados o reconhecimento dos CAPSij como dispositivos estratégicos de cuidado, a articulação entre diferentes setores e a implantação do Fórum Nacional de Saúde Mental de Crianças e Adolescentes como instrumento de gestão. Também foram ressaltadas a valorização dos territórios e das redes colaborativas, a incorporação da clínica ampliada e a participação de crianças, adolescentes e familiares nos processos de cuidado. “Atenção Psicossocial é uma Utopia Ética! Diz Cristina Ventura.

 

Apesar desses avanços, o Brasil ainda enfrenta desafios para consolidar a atenção psicossocial infantojuvenil. Em 2026, o país conta com cerca de 358 CAPSij, mas persistem desigualdades regionais, equipes incompletas, fragmentação do cuidado e predominância do modelo biomédico. A fragilidade da articulação intersetorial, a insuficiência de ações de formação permanente, a baixa participação de usuários e familiares e o número reduzido de Unidades de Acolhimento Infantojuvenil também dificultam a efetivação dessa política.

 

Supervisão clínico-institucional fortalece o trabalho das equipes

O encontro também abordou o papel da supervisão clínico-institucional na qualificação do cuidado em saúde mental. A discussão integra o projeto retomado pela Fiocruz Brasília, por meio do Núcleo de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Nusmad), em parceria com o Departamento de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Desmad) do Ministério da Saúde.

 

Durante a atividade, Disete Devera, supervisora clínico-institucional e pesquisadora, compartilhou reflexões de sua pesquisa e da experiência de supervisão junto às equipes dos CAPSij. Ela destacou que esse trabalho busca contribuir para a qualificação do cuidado sem substituir as decisões dos profissionais que atuam nos serviços.

 

Enquanto as equipes conhecem o cotidiano dos serviços, constroem vínculos e definem as estratégias de cuidado, a supervisão oferece novas perspectivas e favorece a reflexão sobre os desafios enfrentados. A proposta não é exercer funções de chefia ou fiscalização, mas apoiar os trabalhadores na análise dos processos de trabalho e na construção coletiva de alternativas, preservando sua autonomia.

 

“Investigar a supervisão também me exige interrogar o lugar de onde eu mesma a exerço. Não basta analisar as concepções dos outros. Preciso perguntar como minhas escolhas participam do cuidado? A primeira exigência para mim é não confundir experiência com onisciência”, avaliou Disete.

 

Para quem não conseguiu participar ao vivo, a gravação do encontro já está disponível (assista aqui). 

 

O que é a Supervisão Clínico-Institucional?

A supervisão clínico-institucional é uma estratégia da política pública de saúde mental orientada pelos princípios da Reforma Psiquiátrica Brasileira, da desinstitucionalização, dos direitos humanos e do cuidado em liberdade.

 

A prática contribui para a qualificação da atenção psicossocial ao promover a reflexão crítica sobre o cuidado clínico, os processos de trabalho, a organização dos serviços e a articulação com os territórios. Também favorece a construção coletiva de estratégias de cuidado e gestão, considerando as necessidades dos usuários e as particularidades de cada contexto.

 

Ao articular qualificação técnica, equidade e direitos humanos, a supervisão clínico-institucional fortalece o SUS e contribui para consolidar uma atenção psicossocial territorial, comprometida com a autonomia dos usuários e com a garantia de direitos.