Em Maceió, Seminário debate saúde, cidadania e inclusão para grupos historicamente invisibilizados

Fiocruz Brasília 24 de junho de 2026


 

Iris Pacheco (Psat/Fiocruz Brasília)

 

No último sábado, 20/6, o Auditório Ministro Pedro Acioli, na Justiça Federal de Alagoas, sediou o Seminário Promoção da Saúde e Cidadania. O espaço reuniu representantes do poder público e de movimentos populares, pesquisadores e pesquisadoras, e lideranças sociais para debater a construção de políticas públicas mais inclusivas e capazes de garantir direitos a grupos historicamente invisibilizados. 

 

Promovido pelo Programa de Promoção da Saúde, Ambiente e Trabalho (Psat) da Fiocruz Brasília, o Seminário propôs uma reflexão integrada sobre diferentes marcadores sociais que influenciam o acesso à saúde, à cidadania e aos direitos fundamentais. A programação destaca a importância de olhar para temas como gênero, deficiência, juventude e envelhecimento de forma articulada, reconhecendo os desafios específicos enfrentados por cada grupo e a necessidade de políticas públicas mais abrangentes.

 

A programação teve início em clima de celebração e valorização da cultura nordestina, que neste período comemora o São João. O Coral da Associação Brasileira dos Clubes da Melhor Idade abriu o evento com apresentações musicais que emocionaram o público. Canções como “Tocando em Frente” e “Asa Branca” transformaram o auditório em um espaço de encontro entre gerações, levando participantes a cantar e dançar ao som do forró nordestino.

 

Na cerimônia de abertura, a pesquisadora colaboradora do Psat/Fiocruz Brasília, Virgínia Corrêa, destacou a importância do diálogo intersetorial para a construção de políticas públicas capazes de enfrentar desigualdades históricas. Em seguida, Ana Carolina Barbosa, representante da Coordenação de Ações Intersetoriais na Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, reforçou a necessidade de ampliar a participação social na formulação das políticas de saúde.

 

Durante sua apresentação, Ana Carolina Barbosa também abordou a relação entre feminismo e saúde pública, destacando como as mulheres são impactadas de forma diferenciada pelas políticas públicas. A representante do Ministério da Saúde, ressaltou a importância de compreender as múltiplas formas de desigualdade que atravessam a vida das mulheres, considerando fatores como raça, classe social, território e deficiência. A discussão também enfatizou o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) na redução das desigualdades sociais e na promoção da autonomia dos cidadãos.

 

O debate principal do seminário reuniu especialistas de diferentes áreas para discutir os desafios enfrentados pelas diversas populações e a necessidade de ações integradas entre saúde, assistência social, educação e direitos humanos.

 

O presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Edmilson Silva de Sá, trouxe reflexões sobre gênero, deficiência, juventude e envelhecimento. Em uma das falas mais marcantes do evento, provocou o público com a pergunta: “Nós olhamos a potência de uma pessoa ou olhamos sua deficiência?”. Tal provocação nos convoca a olhar para a realidade desse segmento da população, que ao revisitar sua trajetória histórica tem a exclusão social e institucional como principal barreira para o exercício pleno da cidadania.

 

Edimilson destacou ainda que Maceió possui aproximadamente 100 mil pessoas com deficiência e chamou atenção para a insuficiência das políticas públicas, bem como a necessidade de eliminar barreiras físicas, sociais e institucionais que ainda limitam a plena participação desse segmento em diferentes espaços da sociedade.

 

Já o tema do envelhecimento foi abordado pela assistente social e pesquisadora Jonorete de Carvalho Benedito, que apresentou a palestra “Envelhecimento com Dignidade: direitos, proteção social e qualidade de vida na velhice”. A especialista destacou que o envelhecimento da população brasileira possui um forte componente feminino, uma vez que as mulheres representam a maioria entre as pessoas idosas, “o envelhecimento é basicamente feminino”.

 

A apresentação trouxe reflexões sobre os desafios enfrentados pela população idosa. Para a pesquisadora, é um debate relevante diante das transformações demográficas observadas no país, que exigem respostas cada vez mais efetivas dos sistemas de saúde, assistência social e proteção de direitos.

 

Um compromisso coletivo com a inclusão

A perspectiva política sobre diversidade e inclusão foi pautado pela vereadora Teca Nelma, que apresentou reflexões sobre a realidade social de Alagoas e os desafios enfrentados pelas juventudes do estado. Durante o debate, Teca destacou a importância da participação política como instrumento de transformação social e fortalecimento da cidadania.

 

Outro destaque do Seminário foi a participação da professora e pesquisadora Elvira Simões Barreto, que conduziu a discussão sobre promoção da saúde, cidadania e transversalidade. A especialista enfatizou que os desafios enfrentados por mulheres, pessoas idosas, pessoas com deficiência, juventudes e população LGBTQIAPN+ não podem ser tratados de forma isolada.

 

Segundo a pesquisadora, a construção de políticas públicas efetivas exige uma visão transversal, capaz de integrar diferentes áreas governamentais e reconhecer a complexidade das desigualdades sociais. A promoção da saúde, nesse contexto, vai além da assistência médica e envolve o acesso à educação, ao trabalho, à cultura, à mobilidade, à segurança e à participação social.

 

Nesse sentido, em um cenário marcado por desafios sociais persistentes, o encontro deixou como principal mensagem a necessidade de fortalecer redes de cuidado, ampliar o diálogo entre governo e sociedade civil e reconhecer a diversidade como elemento fundamental para a construção de uma cidadania plena e inclusiva.

 

A psicóloga e ex-deputada federal Tereza Nelma reforçou a necessidade de compromisso coletivo com a garantia de direitos e com a construção de uma sociedade mais inclusiva. A ex-parlamentar destacou ainda que mulheres, pessoas com deficiência, idosos, juventudes e a população LGBTQIAPN+ ainda enfrentam obstáculos significativos para o exercício pleno da cidadania. Para ela, a superação dessas desigualdades depende do fortalecimento de políticas públicas voltadas à acessibilidade, ao cuidado, à saúde e à inclusão social.

 

Portanto, mais do que um espaço de debate, o Seminário Promoção da Saúde e Cidadania consolidou-se como um ambiente de escuta, articulação e construção de propostas. Ao reunir diferentes vozes e experiências, o evento reforçou a importância da participação social na defesa dos direitos humanos e na formulação de políticas públicas capazes de promover dignidade, autonomia e qualidade de vida para toda a população.