
Como a cobertura de suicídios, violências e emergências pode afetar a saúde mental? Quais os riscos da divulgação de promessas de tratamentos e curas sem evidências? E, em um cenário de inteligência artificial e circulação acelerada de conteúdos, como produzir e consumir informação em saúde de forma responsável? Essas são algumas das questões que estarão no centro dos debates da nova edição do Seminário As Relações da Saúde Pública com a Mídia, que será realizada de 1º a 3 de dezembro, na Fiocruz Brasília.
Com o tema Comunicação e Saúde Mental, o VIII Seminário Nacional e IV Seminário Internacional reunirá profissionais da comunicação e da saúde, pesquisadores e outros especialistas para discutir as relações entre a produção e a circulação de informações e seus possíveis impactos sobre a saúde mental.
A escolha do tema acompanha uma preocupação crescente com a saúde mental e com as diferentes situações de sofrimento psíquico observadas nos últimos anos. Para Fabiana Mascarenhas, coordenadora da Assessoria de Comunicação da Fiocruz Brasília e uma das organizadoras do seminário, o contexto global de hiperconectividade, associado às recentes emergências sanitárias, especialmente à pandemia de Covid-19, contribuiu para tornar mais evidentes situações de sofrimento mental que ultrapassam fronteiras e atingem diferentes grupos da população.
“A comunicação é um dos espaços em que as nossas condições de saúde mental têm sido colocadas à prova a todo instante. São muitos os meios, as estratégias e os discursos que pressionam, moldam e, muitas vezes, constrangem e oprimem as pessoas. Assim, a relação entre comunicação e saúde mental precisa ser debatida em profundidade para compreendermos certos fenômenos e buscarmos caminhos que assegurem a qualidade e a preservação da nossa saúde mental”, afirma Fabiana.
A edição de 2026 chega também com uma novidade no nome. Criado em 2008 como Seminário As Relações da Saúde Pública com a Imprensa, o evento passa a se chamar As Relações da Saúde Pública com a Mídia. A atualização acompanha as transformações da comunicação ao longo dos últimos anos, marcadas pela ampliação das plataformas digitais e pela multiplicidade de atores, formatos e canais envolvidos na produção e circulação de informações.
Segundo Wagner Vasconcelos, assessor da direção da Fiocruz Brasília e também um dos organizadores do evento, a mudança reflete um cenário em que a formação dos sentidos sociais sobre a saúde já não está concentrada nos veículos tradicionais de imprensa.
“O nome passou por uma atualização, o que se alinha às mudanças que os novos tempos apresentam. Se antes era a grande imprensa que formava os sentidos sociais sobre a saúde, hoje isso se ampliou. Mídia, portanto, é um termo que expressa essa extrapolação, abrangendo, para além dos veículos tradicionais de imprensa (rádios, TVs, jornais e revistas), também os blogs, a publicidade, os influenciadores e, muito especialmente, as mídias ou redes sociais”, explica.
Para Wagner, essa transformação não é apenas quantitativa. A ampliação dos atores envolvidos na circulação de informações também traz novos desafios relacionados à regulação e às formas de influência exercidas sobre a sociedade. “Ela tem repercussão tanto do ponto de vista prático, uma vez que a mídia entendida de forma abrangente nem sempre tem uma regulação propriamente dita, quanto do mais subjetivo, já que o tipo de influência produzida se vale de recursos emotivos e com maior poder de impacto”, acrescenta.
A mudança de nome amplia, portanto, o olhar para além da imprensa profissional e dialoga diretamente com questões que atravessam a programação deste ano. Outra novidade é a realização do evento em parceria entre a Fiocruz Brasília e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
Para Luís Felipe Sardenberg, chefe de comunicação do escritório da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) no Brasil, o tema escolhido pela Fiocruz Brasília para o seminário é essencial. “Mais do que informar, a comunicação é capaz de influenciar percepções e contribuir para a melhoria da saúde mental e a proteção da vida”, afirma.
Segundo ele, os profissionais da mídia desempenham um papel estratégico nesse processo. “Uma reportagem, um post ou uma série bem elaborada pode incentivar a busca por ajuda, reduzir o estigma e fortalecer fatores de proteção. Já conteúdos inadequados podem reforçar preconceitos ou até aumentar riscos, principalmente em temas sensíveis como o suicídio. Uma comunicação responsável é capaz de salvar vidas”, ressalta.
Programação
Logo na primeira mesa, o seminário propõe discutir não apenas como os veículos jornalísticos, mas também blogs, sites e mídias sociais abordam casos de suicídio e quais impactos essas informações podem provocar em pessoas em diferentes condições de saúde mental.
A relação entre informação e saúde mental será abordada sob diferentes perspectivas durante os três dias de atividades. A primeira mesa, Informação que Protege: Comunicação e Prevenção do Suicídio, discutirá os cuidados necessários na abordagem do suicídio pela mídia e os efeitos que conteúdos sobre o tema podem provocar.
Ainda no primeiro dia, a mesa Violência em Foco: Os Impactos da Cobertura Midiática na Saúde Mental colocará em discussão a forma como feminicídios, massacres, guerras e conflitos armados aparecem no noticiário. O debate pretende olhar tanto para os impactos sobre quem recebe essas informações quanto para a saúde mental dos próprios jornalistas responsáveis pela cobertura de situações de violência.
A atenção à saúde mental dos profissionais de comunicação é, segundo Fabiana Mascarenhas, um dos objetivos centrais desta edição. Ela destaca que pesquisas recentes da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), em parceria com a Fundacentro, apontam um cenário preocupante de adoecimento psíquico entre jornalistas. Pressão por prazos, sobrecarga de trabalho e situações de assédio estão entre os fatores relacionados a esse contexto.
“A situação tem se tornado ainda mais evidente e frequente em função da exposição constante a tragédias e violências, como feminicídios e desastres ambientais, que afetam profundamente o psicológico da categoria”, destaca Fabiana.
A discussão continua no segundo dia com a mesa Entre o Caos e a Confiança: O Papel da Comunicação nas Emergências. A proposta é refletir sobre os efeitos da falta ou do excesso de informação em emergências sanitárias, desastres e acidentes de grande alcance e sobre como a comunicação pode contribuir para enfrentar ou amenizar os problemas decorrentes dessas situações.
Outro debate será dedicado à relação entre jornalismo e evidências científicas. Com o título ‘Milagres’ da Ciência? Comunicação, Evidências e o Fazer Científico, a mesa abordará os riscos da circulação de informações imprecisas sobre tratamentos e supostas curas, especialmente para pessoas que buscam respostas para problemas de saúde.
A programação também acompanha mudanças recentes nas formas de produzir e consumir informação. No dia 2 de dezembro, o seminário terá o minicurso Gamificação como ferramenta de comunicação em saúde, ministrado por Luís Sardenberg, da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). A atividade apresentará possibilidades de utilização de elementos de jogos para explicar temas científicos, enfrentar a desinformação, promover comportamentos saudáveis e desenvolver capacitações.
No último dia, a inteligência artificial entra no centro do debate. A mesa Inteligência Artificial e Produção de Notícias: Quem Escreve a Verdade? discutirá os ganhos de agilidade proporcionados pelas novas ferramentas, mas também riscos associados ao uso inadequado da tecnologia, como conteúdos produzidos sem checagem, fabricação de informações e mudanças nos processos de trabalho. A proposta é analisar os possíveis reflexos desse cenário tanto para quem produz quanto para quem consome informação.
Mais do que discutir ferramentas e formatos, o seminário pretende provocar uma reflexão sobre o poder exercido pela comunicação e a responsabilidade associada a ele. Para Fabiana, reconhecer a capacidade de influência da comunicação midiática sobre a saúde mental é um dos primeiros passos desse processo.
“Com o poder, vem também uma imensa responsabilidade, o que obriga, ou deveria obrigar, os comunicadores destes novos tempos a assumirem posturas mais construtivas, voltadas para o bem público. Não se trata de impor modelos ou cerceamentos a qualquer tipo de comunicação, mas de buscarmos alternativas para evitarmos a multiplicação de tragédias que vemos surgir a cada instante, no mundo inteiro, a partir de um conjunto de fatores, a comunicação dentre eles”, afirma.
O debate também pretende considerar como essas novas modalidades de comunicação atingem grupos populacionais de maneiras distintas. Entre eles estão povos indígenas, população LGBTQIA+, população negra e comunidades quilombolas, cujas particularidades, segundo Fabiana, muitas vezes são invisibilizadas ou negligenciadas.
“Será um espaço de debate, de proposição, mas também de muita escuta, que é exatamente um dos principais pressupostos de um processo de comunicação salutar”, conclui.
Uma trajetória de debates sobre comunicação e saúde
Realizado pela primeira vez em 2008 pela Assessoria de Comunicação da Fiocruz Brasília, o Seminário As Relações da Saúde Pública com a Imprensa nasceu com a proposta de aproximar os campos da comunicação e da saúde e discutir o papel e a responsabilidade da mídia na divulgação de informações sobre saúde para a população. Ao longo das edições, o evento colocou em pauta temas diretamente relacionados a diferentes momentos e desafios da saúde pública brasileira.
Febre amarela marcou a primeira edição. Depois vieram discussões sobre H1N1, a imagem do SUS na mídia e a comunicação em situações de risco envolvendo ebola, chikungunya, dengue e zika. Em 2017, a quinta edição nacional e primeira internacional foi dedicada ao Aedes aegypti e reuniu sanitaristas, pesquisadores, profissionais da comunicação e jornalistas para discutir alternativas, dificuldades e possibilidades da comunicação em saúde. Já a sexta edição abordou as fake news e saúde e resultou em um e-book, que está disponível em: bit.ly/ebook_fakenews_saude.
Em 2022, a sétima edição nacional e terceira internacional teve como tema Covid-19, o que a comunicação tem a ver com isso? e abordou comunicação científica, trabalho, mídias sociais, comunicação popular e o papel estratégico da comunicação nas instituições de saúde.
Programação
DIA 1/12
9h. Cerimônia de abertura
Representante da Opas/OMS no Brasil
Representante da Presidência da Fiocruz
Fabiana Damásio – Diretora da Fiocruz Brasília
Fabiana Mascarenhas – Coordenadora da Assessoria de Comunicação da Fiocruz Brasília
Ana Luiza Ferreira Rodrigues Caldas – Secretária de Atenção Primária à Saúde (SAPS)
9h45. Conferência magna
14h. Mesa 1: Informação que Protege: Comunicação e Prevenção do Suicídio
De que forma a mídia se comporta perante os casos de suicídio? A imprensa profissional já segue alguns códigos de cuidado quanto ao tema. Mas, e a grande mídia (blogs, mídias sociais, sites etc.) segue alguma diretriz quanto ao assunto? Que impactos as informações que circulam pela grande mídia provocam ou podem provocar nos indivíduos em diferentes condições de saúde mental (propensos ou não ao suicídio)?
16h. Mesa 2: Violência em Foco: Os Impactos da Cobertura Midiática na Saúde Mental
De que maneira as diferentes formas de violência são tratadas na mídia? Feminicídios, massacres, guerras, conflitos armados alimentam diariamente o noticiário nacional e internacional. Mas, que implicações essas informações trazem à saúde mental das pessoas? Quais os delineamentos da cobertura jornalística, se que é há, para essas situações? Para além do público que recebe esse conteúdo, como aqueles que os produzem, ou seja, os jornalistas, são impactados pelo teor daquilo que reportam?
DIA 02/12
9h. Minicurso (ministrado por Luís Sardenberg/ OPAS)
Gamificação como ferramenta de comunicação em saúde
Este minicurso apresenta os fundamentos da gamificação aplicada à comunicação em saúde, demonstrando como elementos típicos dos jogos podem ser usados para explicar temas científicos, combater desinformação em saúde, promover comportamentos saudáveis e desenvolver capacitações. Por meio de exemplos práticos e atividades, os participantes aprenderão a identificar oportunidades de uso da gamificação em seu cotidiano profissional. O minicurso é voltado para trabalhadores de saúde, profissionais de comunicação, pesquisadores, estudantes e outros interessados.
14h. Mesa 3: Entre o Caos e a Confiança: O Papel da Comunicação nas Emergências
Em momentos de emergências (sanitárias ou não), desastres (naturais ou não) e acidentes de grande alcance, quais os impactos que a falta ou o excesso de informação pode causar nas pessoas? De que forma a comunicação pode contribuir para superar ou amenizar os problemas decorrentes dessas situações?
16h. Mesa 4. “Milagres” da Ciência? Comunicação, Evidências e o Fazer Científico
O desconhecimento do modo de produção científico, associado ao potencial noticioso de algumas promessas da ciência, faz com que a mídia muitas vezes caia em armadilhas e circule informações imprecisas sobre tratamentos e curas quase milagrosas. Que impactos a profusão de notícias dessa natureza gera em especial naqueles grupos de pessoas que buscam superar problemas de saúde?
DIA 03/12
9h. Mesa 6. Inteligência Artificial e Produção de Notícias: Quem Escreve a Verdade?
As ferramentas de inteligência artificial (IA) têm dado impulso e agilidade aos processos de trabalho. No entanto (em especial diante da velocidade que se busca dar aos referidos processos), carregam riscos inerentes a possíveis maus usos: produção artificial de conteúdos, notícias sem checagem, comodismo no processo de produção da notícia, fabricação de fatos e, em última instância, substituição de mão-de-obra podem ser elencados como alguns dos distúrbios que a utilização inapropriada de IA pode acarretar. Que reflexos isso pode trazer para quem produz e para quem consome informação?
Serviço
VIII Seminário Nacional e IV Internacional As Relações da Saúde Pública com a Mídia: Comunicação e Saúde Mental
Data: 01 a 03 de dezembro 2026
Local: Fiocruz Brasília