Iris Pacheco (Psat/Fiocruz Brasília)
Entre os dias 4 a 10 de dezembro, ocorreu o módulo da 6ª turma da Residência Multiprofissional em Saúde da Família com Ênfase na Saúde da População do Campo (PRMSFCampo) que aprofundou reflexões sobre ética, diversidade e territórios do campo.
A relação entre comunicação e saúde esteve no centro do processo formativo deste módulo do Programa. A atividade promoveu reflexões críticas sobre o papel da comunicação nos processos de cuidado, prevenção e promoção da saúde, especialmente nos territórios do campo, das águas e das florestas.
Para a pesquisadora colaboradora do Programa de Promoção da Saúde, Ambiente e Trabalho (PSAT) da Fiocruz Brasília, Rosely Arantes, as áreas de comunicação e saúde sempre dialogam, ainda que o campo da Comunicação e Saúde seja relativamente recente no Brasil e esteja em constante construção. “Esse campo se propõe a pensar a comunicação sob outra perspectiva, distante do modelo instrumental imposto pelo mundo do capital, reconhecendo as diferentes vozes presentes na população”, explica.
Nessa abordagem, a comunicação incorpora os princípios da equidade, universalidade e integralidade do Sistema Único de Saúde (SUS), além de materializar o direito à participação social garantido pela Constituição Federal de 1988. “É por meio da comunicação, em seus diversos modelos, que é possível se aproximar — ou não — da realidade das pessoas, acompanhar desde o diagnóstico até a finalização dos tratamentos e, principalmente, atuar na prevenção”, destaca a pesquisadora.
Reflexão crítica das práticas em saúde
No contexto da Residência, o debate sobre comunicação chega como ferramenta de transformação das práticas profissionais em saúde no campo. O módulo buscou estimular os/as educandas/os a refletirem sobre seus modos de atuação no cuidado em saúde, compreendendo a comunicação como um direito e como uma estratégia que pode tanto promover saúde quanto gerar adoecimento.
Para Rosely, os processos de escuta e de fala são centrais na promoção da saúde e atravessam diretamente as relações entre profissionais e usuários do SUS. Durante o módulo, foram debatidas questões como ética em saúde, racismo e LGBTfobia, compreendidas como fatores que contribuem para os processos de saúde e doença.
“Discutimos também os impactos da comunicação, especialmente por meio das redes digitais, nos processos de adoecimento e na construção das subjetividades”, afirma. Ela reforça que as pessoas atendidas nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) não vivenciam apenas dores físicas, mas também sofrimentos produzidos por um modelo de sociedade que invisibiliza, homogeneíza e adoece determinados grupos sociais.
Desafios da comunicação nos territórios do campo
Ao analisar as barreiras de acesso à informação e à comunicação nos territórios do campo, Rosely reconhece fatores como distância, transporte, cultura, idioma e horários. No entanto, aponta um obstáculo ainda mais profundo: o desconhecimento sobre quem são e como vivem as populações do campo, realidade que também se estende às populações das águas e das florestas.
“Para mim, essa é a mais grave barreira”, afirma. A falta de compreensão sobre os modos de vida, saberes e necessidades desses sujeitos compromete a efetividade das políticas e práticas de saúde, reforçando desigualdades históricas. Além disso, Rosely lembra que a desinformação nesse cenário sempre esteve presente, mas hoje se coloca como um desafio central para a Saúde Pública.
“É necessário compreender a comunicação de utilidade pública como algo que precisa ser divulgado de forma universal”, ressalta. Isso exige mudanças profundas nas práticas de pesquisa, divulgação científica, extensão universitária e na forma como as instituições e profissionais se comunicam com a sociedade.
De acordo a pesquisadora, enfrentar a desinformação implica reconhecer a complexidade, diversidade e pluralidade que caracterizam a sociedade brasileira, fortalecendo uma comunicação em saúde comprometida com o direito à informação, ao cuidado e à vida. Uma vez que, em um cenário marcado pelo avanço das tecnologias digitais e pela circulação de fake news, os impactos da desinformação no campo da saúde se tornam ainda mais evidentes.
Fotos: Luara Dal Chiavon