Apresentações destacam iniciativas voltadas à equidade, ao protagonismo feminino e à luta antimanicomial
Fábio Marques (Nusmad/Fiocruz Brasília)
Pesquisadoras do Núcleo de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Nusmad) da Fiocruz Brasília participaram, nesta sexta-feira (05.06) do Congresso da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme) com apresentações voltadas aos desafios e às experiências do cuidado em liberdade no campo da saúde mental. Os trabalhos foram apresentados no formato oral em Rodas de Conversa, espaço voltado à troca de experiências e ao aprofundamento crítico das pesquisas desenvolvidas em diferentes territórios do país.
Representando a equipe técnica do Núcleo, Taiane Lopes e Joyce Avelar apresentaram estudos produzidos no âmbito das ações de pesquisa do Nusmad, destacando temas como gênero, raça, sexualidade, território e direitos humanos no contexto da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
Taiane Lopes apresentou a pesquisa “Diários de Sampa e Diários de Salvador”, desenvolvida no âmbito do projeto Morar em Liberdade. O trabalho reúne ciência e arte em uma obra aberta que resgata narrativas de vida e experiências de cuidado humanizado em saúde mental de mulheres usuárias da rede de atenção psicossocial em grandes centros urbanos.
Ao longo de 2025, pesquisadoras e pesquisadores do Nusmad-Fiocruz Brasília acompanharam o cotidiano dessas mulheres em seus territórios de atuação, conhecendo iniciativas como a Escola de Samba X9 Paulistana e o grupo de teatro Os Insênicos. A pesquisa foi construída a partir de entrevistas e diários de campo, assumindo também um formato audiovisual, pensado para ampliar o alcance do debate por meio de plataformas digitais como Instagram e YouTube.
“Esta produção busca fortalecer reflexões sobre o direito à moradia, ao trabalho e à participação social, além de combater preconceitos e estigmas históricos enfrentados por pessoas usuárias da rede de saúde mental, destacou Taiane.
Já Joyce Avelar apresentou o trabalho “Panorama nacional de iniciativas sobre gênero, sexualidade e raça/cor/etnia em Centros de Atenção Psicossocial”, que busca realizar um levantamento exploratório e qualitativo de experiências desenvolvidas em CAPS das cinco regiões do Brasil. O estudo investiga práticas voltadas ao acolhimento, à equidade e à ampliação da adesão de usuárias e usuários aos serviços territoriais na perspectiva antimanicomial.
A pesquisa destaca a importância de enfrentar o racismo, o sexismo e a LGBTQIAPN+fobia como dimensões estruturantes do sofrimento ético-político vivenciado por grupos historicamente marginalizados. O objetivo é compreender como os marcadores sociais de raça, etnia, gênero e sexualidade podem ser incorporados de forma efetiva à organização do cuidado em saúde mental.
“Nessa fase do estudo, concluímos que o cuidado interseccional é estruturante para a política antimanicomial, mas enfrenta riscos como a burocratização e a dependência de engajamentos individuais. O grande desafio da RAPS é transformar ações pontuais em diretrizes institucionais perenes, garantindo recursos, formação continuada e ampliação da diversidade nos cargos de decisão”, afirmou Joyce.
Adolescência na pauta
Também nesta quinta-feira, a educadora Luciana Azevedo apresentou dois trabalhos durante as Rodas de Conversa do congresso. O primeiro, “Quando a palavra falha, o corpo fala: automutilação na adolescência e o cuidado em um CAPS IJ”, relatou a experiência do grupo terapêutico Sentindo na Pele, desenvolvido em um CAPS Infantojuvenil de São Paulo para o cuidado de adolescentes em situação de automutilação. A iniciativa evidenciou a importância dos grupos terapêuticos, do trabalho multiprofissional e da articulação em rede para acolher jovens em sofrimento psíquico.
Outro estudo foi o “Subjetividade, linguagem e adolescência: impactos do uso das redes sociais na constituição do sujeito contemporâneo” que analisou como as plataformas digitais influenciam a construção da identidade, os vínculos sociais e a saúde mental de adolescentes. Os resultados apontam que as redes sociais podem representar tanto riscos, associados a ansiedade, depressão e dificuldades de elaboração psíquica, quanto oportunidades de pertencimento, expressão e construção de novas formas de sociabilidade. Os dois trabalhos reforçam a necessidade de estratégias de cuidado em saúde mental que dialoguem com os desafios contemporâneos vivenciados pelas juventudes.
O Congresso da Abrasme
Os congressos da ABRASME se consolidaram como espaços centrais de debate e formulação política no campo da Reforma Psiquiátrica Brasileira, reunindo milhares de participantes em torno de pautas ligadas à justiça social, inclusão, direitos humanos e enfrentamento aos manicômios. A programação inclui mesas-redondas, conferências, apresentações de trabalhos científicos, atividades culturais, cine debate, feira de economia solidária e encontros temáticos voltados ao campo antimanicomial e antiproibicionista.