ARTIGO: Geopolítica em chamas, saúde em risco

Fiocruz Brasília 19 de janeiro de 2026


Artigo de opinião de Roberta de Freitas e Manoel Amorim*

 

Publicado na edição de domingo (18/01/2026) do Correio Braziliense

 

A captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos configurou um dos episódios mais dramáticos da política internacional recente. A operação militar, que incluiu bombardeios em território venezuelano, extrapolou qualquer dimensão estritamente jurídica ou diplomática. Houve vítimas civis, destruição de infraestrutura, incluindo um hospital, e a abertura de uma nova fase de instabilidade regional.

 

Enquanto o debate público se concentra em soberania, legalidade internacional e disputas de poder, um aspecto permanece subestimado: os impactos diretos dessa ação sobre a saúde das populações da região.


Entre os alvos atingidos esteve um hospital venezuelano, comprometendo o atendimento em um país já marcado pelo colapso prolongado de seu sistema de saúde. Diante da gravidade, o Brasil enviou ajuda humanitária, com insumos médicos e apoio emergencial. A resposta reafirma o papel histórico brasileiro como ator humanitário regional, mas também expõe um paradoxo: o país é chamado a mitigar danos de uma crise que não provocou.


O fechamento temporário da fronteira venezuelana tende a agravar a situação em Roraima. Municípios fronteiriços, há anos pressionados por fluxos migratórios intensos, enfrentam riscos adicionais no acesso a serviços básicos, ampliando tensões sociais e sanitárias.


Nesse cenário, o Sistema Único de Saúde atua como linha de frente de crises internacionais. Unidades de saúde absorvem demandas crescentes com recursos limitados, mantendo simultaneamente o atendimento à população local, uma realidade recorrente, apontada por relatórios do Ministério da Saúde e do Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Não se trata de um problema novo, mas de um quadro que se intensifica sempre que instabilidades políticas regionais se convertem em emergências humanitárias.


A Operação Acolhida, criada para responder ao fluxo migratório venezuelano, tornou-se uma das maiores iniciativas humanitárias da história recente do Brasil. Desde 2018, mais de um milhão de venezuelanos receberam algum tipo de atendimento, e mais de 500 mil foram interiorizados. Além de abrigo e documentação, a operação estruturou ações centrais de saúde pública, como vacinação, atenção primária, pré-natal e acompanhamento nutricional, evidenciando que migração é também uma pauta de saúde.


A captura de Maduro insere-se em uma trajetória mais ampla de decisões dos Estados Unidos que fragilizam a saúde global. Em 2020, Washington suspendeu o financiamento à Organização Mundial da Saúde (OMS), gesto que expôs o desprezo pelo multilateralismo em um momento crítico. Em 2025, esse padrão se aprofundou: a saída dos EUA da OMS, a paralisação da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional e de programas como o Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o Alívio da AIDS resultaram no fechamento de clínicas de HIV, na interrupção de tratamentos e na projeção de milhões de mortes evitáveis até 2030.


Políticas protecionistas e ideológicas, como tarifas sobre medicamentos, revogação de vistos de profissionais de cooperação médica, destruição de contraceptivos destinados a países pobres e o desmonte de regulações ambientais, ampliam desigualdades e aprofundam crises humanitárias. Essas escolhas corroem a governança global da saúde e produzem impactos duradouros sobre a vida e a dignidade humana.


Para o Brasil, a lição é clara: crises internacionais não ficam do outro lado da fronteira. Elas chegam às unidades básicas de saúde, aos abrigos, aos hospitais de campanha e aos orçamentos públicos. Defender a saúde pública é também defender uma política externa responsável, orientada pela cooperação e pela proteção dos direitos humanos, como prevê a Constituição.


Como lembrou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante a pandemia de covid-19, a Venezuela enviou oxigênio ao Brasil para enfrentar a crise em Manaus (AM), reforçando um histórico de cooperação sanitária regional. O Brasil mantém prontidão na fronteira e está preparado para ampliar equipes e insumos, inclusive para pacientes em diálise, caso a crise se agrave.


A captura de um presidente pode render manchetes. Mas é na preservação da vida, da saúde e da dignidade humana que se mede o verdadeiro impacto dessas decisões.

 

*Roberta de Freitas é advogada, doutora em Saúde Global, pesquisadora e assessora internacional da Fiocruz Brasília.

Manoel Amorim é internacionalista e assessor internacional da Fiocruz Brasília.

 

Foto destaque: Maurenilson Freire/CB/D.A Press