Uma pesquisa recente da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede-Penssan) evidenciou que a insegurança alimentar e nutricional é mais presentes em lares chefiados por mulheres negras de cidades nordestinas e de periferias de grandes metrópoles brasileiras. Desde a década de 1980, a pesquisadora Denise Oliveira e Silva, vice-diretora da Fiocruz Brasília e coordenadora do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura (Palin), vem se debruçando sobre a relação de mulheres pobres e negras com a alimentação. O seu estudo atual “O papel do sobrepeso na relação subjetiva ao trabalho e na manutenção da saúde mental de trabalhadoras pobres negras no Sistema Único de Saúde da sociedade pós-escravagista brasileira contemporânea” é fruto desses anos de estudos.
Nesta edição do “Pergunte à Pesquisadora”, Denise, que foi convidada pela Universidade Sorbonne du Nord, em Paris (França), para apresentar a sua pesquisa no Seminário Legado da Escravidão e Trabalho Contemporâneo, em maio/junho de 2025, explana sobre o aumento da obesidade nessa população, em um contexto de sociedade pós-moderna industrial, o consumo de alimentos ultraprocessados, os impactos para o Sistema Único de Saúde e a saúde mental dessas mulheres. Como mulher negra e brasileira, a pesquisadora é empática: “eu tenho refletido que estou a serviço da ancestralidade. Coloco-me no lugar de evocar estas vozes na ciência”.
O seu estudo recente traça um paralelo entre o sobrepeso de mulheres pobres e negras, a herança escravagista brasileira, relações de trabalho e saúde mental. Quais são os reflexos dessa relação observados atualmente?
Denise Oliveira – Os resultados obtidos, até este momento, sugerem uma relação subjetiva com o corpo e o aumento do peso como expressão de estratégia de defesa para lidar com os aspectos de trabalho doméstico associado ao papel da mulher afrodescendente desde o período da escravidão no Brasil. Segundo os relatos e narrativas de entrevistadas, a relação abusiva dos empregadores sobre os horários de trabalho, as funções não definidas de atividades a serem realizadas, as acomodações inadequadas, os salários baixos e, em alguns casos, a ausência de remuneração se aproximam de uma relação análoga à escravidão.
No mesmo estudo, você faz um recorte regional dos estados que tiveram maior concentração escravagista: Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco. O que observou nessas regiões a respeito da relação de sobrepeso, mulheres negras e pobres e a herança escravagista?
DO – De fato, nestas cidades, localizavam-se os maiores portos que recebiam os escravos africanos para serem distribuídos no país. Inicialmente, Salvador (BA), por questões de geografia marítima e, logo depois, o Rio de Janeiro (RJ) devido a vinda da Família Real Portuguesa, que se instala nesta cidade e determina que a capital federal fosse transferida para lá. A cidade de Recife (PE), também por questões da geografia marítima, era outra localidade de recebimento de escravizados. Os indicadores demográficos mostram que, nestas cidades, com uma população de maioria afrodescendente, 50% da população se declara como parda/preta. Este fato revela a presença afrodescendente na população e, consequentemente, associa-se como fator preditivo para o maior número de casos de excesso de peso e obesidade em pessoas pardas/negras. Resultado identificado em estudos de prevalência nacional sobre o excesso de peso e obesidade no país que revelam a população de origem afrodescendente com maior risco, em que a situação histórica e estrutural do racismo no Brasil determinou que a população afrodescendente brasileira ocupe as piores condições sociais e econômicas no país. É importante destacar que os estudos epidemiológicos carecem de dados mais consistentes sobre essa relação. Esta pesquisa está construindo arcabouço interpretativo sobre estas questões com base em dados secundários de pesquisas populacionais realizadas no país. Cabe destacar que, em recente pesquisa realizada pela Rede-Penssan, a insegurança alimentar e nutricional é mais presentes em lares chefiados por mulheres negras de cidades nordestinas e de periferias de grandes metrópoles brasileiras.
A pesquisa evidencia a figura de um corpo forte, a imagem identificada no imaginário dessas mulheres, que não se reconhecem como pessoa obesa diante do espelho. O que significa este corpo forte? Qual é a relação de impacto dele com a herança escravagista e a saúde mental dessas mulheres?
DO – Gostaria de apontar que existe a percepção da necessidade de o corpo ser forte como estratégia de defesa frente às adversidades vividas por essas mulheres, para a sobrevivência em meio às questões determinadas pelo patriarcado e o racismo sobre a população afrodescendente no Brasil. Os aspectos êmicos [perspectivas internas do grupo analisado] desta situação estão sendo investigados por meio de um percurso de abordagem fenomenológica e de interpretação hermenêutica [é o processo de compreensão e explicação de textos, atos, ou fenômenos, com foco na intenção original e no contexto em que foram produzidos]. Portanto, os significantes sobre a importância de um corpo forte estão sendo estudados pela pesquisa, mas revelam a necessidade de expressão subjetiva e coletiva do corpo como estratégia de defesa. São relacionadas várias expressões de força vital que reúnem a necessidade de o corpo estar preparado para lidar com as necessidades de superação da sobrevivência marcada por adversidades sociais, culturais e econômicas moldadas por questões de gênero e pelo racismo da população negra. Sendo que as narrativas revelam como herança adquirida de forma consciente e inconsciente por mulheres de várias gerações na biografia das entrevistadas. A referência que a fortaleza vem de longe e que elas estão cansadas de serem fortes é uma expressão trazida de ancestrais. Algumas narrativas referem que há um cansaço de criar condições psicossociais para serem “guerreiras”. As narrativas referem a reflexão de até quando será necessário manter o corpo forte (em que o excesso de peso está aceito como necessário) para lidar com todas as adversidades e desigualdades sociais e econômicas. O Estado brasileiro ainda é omisso e determina que as mulheres negras precisem ainda lutar para ter melhores condições de vida. A indagação presente nas narrativas refere-se: ‘ao ter melhores condições de vida seria necessário ter um corpo forte em que o excesso de peso compõe sua expressão subjetiva de corporeidade?’
Qual é a fase atual da sua pesquisa e quais são as próximas etapas?
DO – A pesquisa está finalizando a coleta de dados nas cidades brasileiras já referidas e avança para ser realizada com profissionais de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS). Foram definidas perspectivas em função de acordos de cooperação internacional com a Universidade Souborne du Nord, em Paris (França), para que a pesquisa possa ser realizada com mulheres afrodescendentes na França e em países que tiveram a escravidão transatlântica nas Américas e no Caribe.
Em um dos seus artigos publicados sobre o tema, você analisou o aumento do sobrepeso em mulheres negras ou pardas (71,6%) da região Nordeste, beneficiárias do Programa Bolsa Família. O que justifica essa relação?
DO – O banco de dados de mulheres que acessam programas de proteção social determinados pela renda econômica baixa. Alguns estudos populacionais mostram associação entre renda baixa, origem afrodescendente e insegurança alimentar. São estudos que estão sendo desenvolvidos por inúmeros pesquisadores no país. De fato, a relação subjetiva do corpo está associada a fatores biológicos, simbólicos e culturais. Atualmente, no Brasil, o consumo de alimentos ultraprocessados estão associados a práticas alimentares de grupos populacionais mais pobres, devido a serem baratos e de fácil preparo, assim como outros aspectos biológicos, por exemplo intervalos interpartais curtos, o que revela o aumento de peso de uma mulher independente da origem étnica, e como ela pode lidar com o aumento do peso após a gravidez; as mudanças biológicas e psicossociais do climatério, dentre outros. Para as mulheres trabalhadoras domésticas, não existem condições adequadas para o cuidado de seu corpo após a gestação e nem mesmo no período da menopausa. Os serviços de saúde têm programas com forte influência patriarcal, que privilegiam mais o papel reprodutor feminino do que a subjetividade de seu corpo.
Antigamente, a obesidade era considerada uma doença de pessoa branca e rica. A que se deve essa mudança do perfil da doença?
DO – A complexidade de compreensão da problemática do excesso de peso e obesidade revela-se por meio de diversas nuances compreensivas. Esta pesquisa parte da percepção biográfica de quem vive esta experiência pela valorização da intersubjetividade. A interpretação biológica tem o peso em quilogramas como referência, mas, em nossa pesquisa, o peso em quilogramas conta uma história subjetiva do corpo no momento presente que se relaciona de forma ancestral, com as mudanças do cozinhar e do comer nas sociedades pós-modernas industriais, de valores de beleza e imagem corporal de padrão eurocêntrico. Os hábitos e práticas alimentares baseados em alimentos processados têm um papel importante como as mudanças advindas da vida automatizada que interferiu no gasto energético. Estes aspectos determinaram o fenômeno de Sindemia Global [interação sinérgica entre três pandemias: obesidade, desnutrição e mudanças climáticas. Essas condições estão interconectadas e se reforçam mutuamente, impulsionadas por sistemas alimentares insustentáveis e desigualdades sociais], ou seja, em que estar “mal alimentado tanto quantitativamente como qualitativamente” pode causar desnutrição e obesidade.
É uma conta que não fecha. O sobrepeso dessas mulheres está relacionado ao consumo de alimentos não necessariamente saudáveis, mas sim industrializados, ultraprocessados. Alimentos considerados de fácil e rápido preparo. Como se constitui essa relação com a comida? Quais são os impactos financeiros dessa má alimentação para a saúde pública?
DO – Ao lado de comprovados avanços tecnológicos que o modelo civilizatório determinou ao planeta, estes processos foram conquistados pelo valor do capital. O alimento e o corpo são mercadorias; viver no planeta também. Este é o desafio. ‘Como evoluir como humanidade baseado somente na relação da vida como expressão de capital?’ A relação com a comida é uma destas facetas. A busca por alimentos mais fáceis de preparar, a pouca ou nenhuma priorização em ter uma comensalidade que expresse a visão humana da comida de experiência existencial de gratidão ao planeta, foi substituída pela dominação dos ciclos da natureza e da vida e são o arcabouço dos desafios de um modelo civilizatório que fracassou, devido ao valor principal do capital. O resultado determinou guerras, racismos e doenças aos seres humanos e ao planeta. A Fiocruz por ser uma fundação pública de saúde recebe as consequências negativas desta situação, pelo aumento da morbimortalidade por doenças infecciosas e crônico-degenerativas. Estudos e pesquisas que trilham caminhos compreensivos, utilizando diversas abordagens e métodos, têm apontado para a importância de valorizar a questão interpretativa biomédica à luz de fatores conjunturais que relacionam as formas de viver no planeta. Dentre alguns aspectos, podemos destacar a importância de buscar a relação entre o cozinhar e o comer como partes de estratégias de programas de promoção à alimentação adequada e saudável. A pandemia de excesso de peso e obesidade é global e afeta a todos no planeta e tem determinado custos financeiros diretos ao financiamento do SUS.
No estudo fica evidente a necessidade de mudança na abordagem e no atendimento à mulher pobre, negra e obesa pelo SUS. Quais tipos de mudanças ou políticas públicas seriam estas?
DO – Racismo faz mal à saúde! É fundamental que o SUS assuma o racismo presente em suas ações, seja relacionado ao racismo institucional ou ao racismo intersubjetivo. Os profissionais de saúde representam as facetas da branquitude como lugar de poder e privilégio. As mulheres negras, obesas e pobres que participam desta pesquisa narram que não são bem atendidas nas unidades de saúde. Apresentam relatos que, por não conseguirem atender as prescrições dietéticas de comer alimentos adequados e saudáveis e de não terem condições de tratar do corpo com recomendações estéticas, são rejeitadas nos serviços de saúde. Em geral, buscam atendimento se tiverem alguma doença crônico-degenerativa (como diabetes e hipertensão) ou infecciosa, mas para cuidar do excesso de peso/obesidade não é possível obter apoio. Os fatores referidos são a incapacidade de renda para adquirir o repertório da posologia médica e nutricional, como também o seu corpo afrodescendente que destoa da imagem de beleza referencial eurocêntrica. As mudanças no cuidado à saúde estão relacionadas a ações que tratem que: “Racismo faz mal à saúde”.
Do início dos seus estudos sobre a relação de mulheres negras e alimentação, ainda nos anos 1980, até o convite pela Universidade Sorbonne du Nord, em Paris, em 2025, o que mudou nessa relação?
DO – O estudo começou em favelas de Manguinhos, no Rio de Janeiro (RJ), nos anos 1980. A aproximação com a Universidade Sorbonne du Nord, em Paris (França), foi importante para apoiar a integração da psicodinâmica do trabalho e a herança escravocrata transatlântica. Este estudo atualmente se inseriu numa rede de pesquisadores que estudam as consequências da escravidão transatlântica, sua relação com a morbimortalidade de doenças físicas e mentais.
Ainda sobre o convite, o que isso significou para a sua carreira como pesquisadora? E para a Denise como pessoa?
DO – Eu tenho refletido que estou a serviço da ancestralidade. Esta condição agrega as diversas dimensões do meu ser. Conheço as biografias, por ser mulher negra e brasileira. Fundamentalmente, coloco-me no lugar de evocar estas vozes na ciência.