Pesquisadora francesa debate novos olhares sobre saúde na Fiocruz Brasília

Nathállia Gameiro 23 de setembro de 2026


Nathállia Gameiro e Fiorenza Cadore

Do encontro com pesquisadores às conversas sobre saberes construídos nos territórios, dois dias de intercâmbio aproximaram diferentes perspectivas sobre saúde, ambiente, participação social e produção científica. Nos dias 17 e 18 de setembro, a Fiocruz Brasília recebeu a pesquisadora francesa Marie Gaille, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), para uma programação voltada ao diálogo e à identificação de possibilidades de cooperação em pesquisa e educação.

Pesquisadora do centro La République des Savoirs, do CNRS, Marie Gaille atua principalmente no campo da filosofia da medicina e da saúde. Nos últimos 20 anos, tem se dedicado a temas como tomada de decisão nos limites da vida, percursos de cuidado, multimorbidade, envelhecimento e relações entre saúde, doença e ambiente. No Brasil, tem interesse especial pela concepção de Saúde Coletiva, pela trajetória da promoção da saúde no país e pelas discussões relacionadas à saúde única.

 

A agenda reuniu pesquisadores, docentes, estudantes, movimentos sociais e representantes de diferentes áreas da Fiocruz Brasília. Mais do que apresentar projetos e linhas de pesquisa, a visita abriu espaço para o compartilhamento de experiências e a identificação de temas de interesse comum entre a instituição brasileira e o CNRS, especialmente nas interfaces entre ciências sociais e saúde.

 

O primeiro dia começou com uma recepção institucional e uma apresentação da Fiocruz Brasília, seguida de uma roda de conversa com pesquisadores da unidade. O encontro permitiu apresentar um panorama das atividades de pesquisa, ensino e atuação nos territórios, além de colocar em diálogo agendas de investigação e interesses de cooperação.

Ao longo da manhã, Marie também conheceu espaços e iniciativas da unidade. A programação possibilitou à pesquisadora entrar em contato com diferentes formas de produção de conhecimento desenvolvidas na instituuição, incluindo experiências que articulam pesquisa, formação, atuação territorial, participação social e cooperação.

No período da tarde, o diálogo foi ampliado para grupos de pesquisa, docentes, estudantes, movimentos sociais e integrantes do GT Encontro de Saberes. Sob o eixo “Diálogos entre Racismo, Território e Justiça Epistêmica”, o encontro colocou em discussão a diversidade de saberes e os desafios para a construção de uma ciência conectada às realidades e às demandas sociais.

A atividade também evidenciou a pluralidade de áreas presentes na Fiocruz Brasília e criou um espaço de interlocução entre diferentes experiências de pesquisa e produção de conhecimento. A proposta esteve alinhada a um dos principais objetivos da visita: identificar pontos de aproximação capazes de subsidiar futuras iniciativas conjuntas entre pesquisadores brasileiros e franceses.

Cooperação e novas agendas de pesquisa

O segundo dia começou com uma agenda dedicada especificamente às possibilidades de cooperação. O encontro deu continuidade às conversas iniciadas no dia anterior e permitiu aprofundar interesses comuns e perspectivas de aproximação entre a Fiocruz Brasília e o CNRS.

Para a pesquisadora e vice-diretora da Fiocruz Brasília, Denise Oliveira e Silva, a visita também abre caminhos para novas aproximações entre os dois países. “A vinda dela pode ser precursora de outras parcerias e cooperações com a França”, destacou.

A programação foi encerrada com a mesa-debate “Saúde Coletiva e Uma só Saúde: questões filosóficas e políticas”, conduzida por Marie Gaille, com Denise Oliveira, Luciana Sepúlveda, Maria do Socorro e mediação de Gustavo Matta como debatedores.

 

Marie propôs uma reflexão sobre os fundamentos éticos e políticos da saúde pública e questões como prevenção e promoção da saúde, igualdade e equidade, vulnerabilidades e os diferentes valores que orientam a vida das pessoas.

A relação entre saúde e ambiente ocupou parte importante do debate. A pesquisadora chamou atenção para três dimensões que desafiam as formas contemporâneas de pensar a saúde: os impactos das mudanças climáticas, a poluição dos ambientes de vida e a interdependência entre saúde humana, saúde de outras espécies e condições dos ecossistemas.


A partir dessas questões, Marie abordou o conceito de Saúde Única (One Health). Para a pesquisadora, embora a ideia ainda apresente questões a serem aprofundadas do ponto de vista conceitual, ela traz uma contribuição importante ao reconhecer a necessidade de integrar diferentes campos do conhecimento e metodologias diante das emergências sanitárias e ambientais.

A pesquisadora também lançou uma questão sobre como tornar essa integração efetiva na prática, especialmente na articulação entre áreas como medicina humana e medicina veterinária e na incorporação dos seres vivos, ambientes e ecossistemas às reflexões sobre saúde.

A discussão sobre saúde e ambiente encontrou pontos de convergência com a perspectiva territorial apresentada por Denise. Para a vice-diretora, compreender os processos de saúde exige considerar os contextos em que as pessoas vivem. “Não é possível falar de saúde sem pensar em território”, afirmou.

Denise também chamou atenção para a forma como as pesquisas são construídas e a necessidade de superar abordagens que coloquem as pessoas e comunidades apenas na posição de objetos de investigação. “Como a gente vai desenvolver esse tipo de compreensão em que a gente não fortalece a ideia do objeto, e sim do sujeito? Que a pesquisa não fortaleça essa perspectiva do objeto”, provocou.


A reflexão dialogou com questões que atravessaram os dois dias da visita: como produzir conhecimento com os territórios, e não apenas sobre eles; como reconhecer diferentes sujeitos e saberes no processo científico; e de que maneira a cooperação entre instituições e campos do conhecimento pode contribuir para enfrentar problemas complexos de saúde.

Diálogo entre ciência, território e sociedade

A programação incluiu uma apresentação da Sala de Educação e Cooperação Social (SECS) e do CoLaboratório de Ciência, Tecnologia, Inovação e Sociedade (CTIS/Fiocruz Brasília), espaços dedicados ao encontro entre pesquisadores, comunidades, movimentos sociais e diferentes atores envolvidos na construção coletiva de conhecimentos em saúde.

Também foram compartilhadas experiências de cooperação internacional, como o projeto desenvolvido em Santa Marta, na Colômbia, em parceria com a Universidad del Magdalena e a Secretaria de Saúde local. A iniciativa busca fortalecer conexões entre pesquisa, realidade dos territórios e formulação de políticas públicas.

Ao conhecer as experiências apresentadas durante a visita, Marie Gaille destacou a articulação entre pesquisa científica, participação social, tecnologia e produção de dados como elementos relevantes para novas formas de compreender e atuar sobre os desafios da saúde.

Segundo a pesquisadora, a experiência apresentada pela Fiocruz Brasília demonstra um modelo de construção de conhecimento que integra pesquisadores, moradores dos territórios onde as pesquisas são realizadas e ferramentas tecnológicas para organizar, compartilhar e atualizar informações.

“O que pude ouvir dessa manhã é uma experiência científica e participativa excepcional e com uma maturidade muito grande, com uma colaboração com pesquisadores, mas também com o povo dos territórios onde você faz a pesquisa, e também o lado tecnológico para coletar, visualizar, partilhar todos esses dados e atualizar também esses dados”, afirmou.

Marie ressaltou ainda que iniciativas com essa característica contribuem para reunir diferentes perspectivas em uma mesma base de conhecimento, combinando informações quantitativas e qualitativas.

Durante a visita, a pesquisadora também compartilhou reflexões sobre sua trajetória de pesquisa e a importância de ampliar a escuta para além dos espaços tradicionais de atendimento em saúde. Ela relatou experiências de diálogo com profissionais médicos, pacientes e pessoas vinculadas a associações, buscando compreender diferentes perspectivas sobre saúde e cuidado.

“Com outros colegas, na França e em vários países, eu tive esse caminho de ouvir não só os profissionais médicos, mas também os pacientes, e também provei de ir fora dos lugares de saúde, dos hospitais, do centro de saúde, para ouvir pessoas em associações”, afirmou.

Para Marie, um dos desafios atuais é compreender como fortalecer essa capacidade de escuta considerando os contextos de vida das pessoas. “A Picaps [Plataforma de Inteligência Cooperativa para a Atenção Primária à Saúde], a iniciativa que vocês desenvolveram, mostra um tipo de abordagem muito interessante da saúde no lugar de vida das pessoas, além dos centros de saúde e dos hospitais”, afirmou.

Para Wagner Martins, coordenador do CTIS/Fiocruz Brasília, a visita representa uma oportunidade de ampliar parcerias e compartilhar metodologias voltadas ao fortalecimento da ciência cidadã e da atuação territorial.

“Recebemos com muita expectativa a visita da doutora Marie Gaille para a construção da cooperação. Estamos prontos para disponibilizar metodologias e ferramentas para desenvolver com o conjunto dos pesquisadores da Fiocruz Brasília ações que fortaleçam a saúde única nos territórios por meio da ciência cidadã”, pontuou.