Iris Pacheco (Psat/Fiocruz Brasília)
O entendimento de que as políticas públicas de saúde precisam considerar as diferentes condições de vida, os saberes e as estratégias de cuidado construídas pelas próprias comunidades tem sido reafirmado cada vez mais. Essa perspectiva atravessou a mesa-redonda “Interseccionalidades e interculturalidade para a equidade de gênero, raça e etnia em territórios de cuidado e emancipação”, realizada em 18 de setembro, durante o 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS), promovido pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), em Manaus (AM).
Realizado de 16 a 19 de setembro de 2026, na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), o congresso reuniu pesquisadores, profissionais, gestores, movimentos sociais e outros atores para discutir diferentes dimensões das ciências sociais e humanas relacionadas à saúde. Nesse contexto, a mesa reuniu representantes da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Ministério da Saúde, além de experiências vinculadas a movimentos sociais e comunidades, para discutir os desafios da promoção da equidade no Sistema Único de Saúde (SUS).
O debate organizado pelo Programa de Promoção da Saúde, Ambiente e Trabalho (Psat) da Fiocruz Brasília, partiu do reconhecimento de que as condições de saúde são atravessadas por diferentes dimensões sociais. Gênero, raça, etnia, classe, sexualidade, condições de trabalho e território se articulam e podem produzir diferentes formas de vulnerabilidade e acesso a direitos. Nesse contexto, a interseccionalidade contribui para compreender como essas dimensões se relacionam e para pensar respostas que considerem a complexidade das experiências vividas pelas populações.
Mulheres das águas: quando o território produz conhecimento
Entre as experiências apresentadas, a pesquisadora do Psat/Fiocruz Brasília, Andréa Bomfim, compartilhou reflexões construídas a partir do livro Meu nome é pescadora artesanal, destacando as trajetórias das mulheres das águas e as condições de trabalho e saúde das comunidades pesqueiras.
A experiência evidencia como as doenças ocupacionais e outros problemas de saúde estão relacionados às condições concretas em que o trabalho é realizado. Para além da dimensão laboral, questões de gênero, território, acesso a serviços e reconhecimento social também atravessam a vida das pescadoras artesanais.
Para Andréa, dar visibilidade a essas experiências é uma forma de reconhecer conhecimentos produzidos pelas próprias comunidades e fortalecer a construção coletiva das políticas públicas. “É importante construir com o território, junto com as comunidades, com os povos, porque muitas vezes as pessoas constroem uma política e não dialogam com a realidade”, afirmou.
Para a pesquisadora, esse é um desafio recorrente na formulação das políticas públicas que, quando são construídas sem diálogo com os territórios, podem não responder às necessidades concretas das populações. Essa perspectiva também esteve presente em outras experiências compartilhadas durante a mesa, entre elas a atuação dos Agentes Populares de Saúde e Igualdade Racial do Rio Grande do Sul.
Saúde e determinação social
A discussão sobre equidade também foi relacionada à necessidade de compreender como diferentes estruturas sociais interferem nas condições de saúde. Para o pesquisador colaborador do Psat/Fiocruz Brasília, Mateus Brito, raça, etnia, gênero, classe social e território atuam conjuntamente na determinação social da saúde e precisam ser considerados na formulação e organização das políticas e serviços.
“Partindo da concepção de que a saúde é fruto de um processo de determinação social, diversas estruturas sociais vão definir o quanto uma pessoa tem ou não acesso à saúde. Questões de raça, etnia, gênero, classe social e território atuam como determinantes sociais da saúde. Cada pessoa parte de uma realidade no mundo, e é isso que precisamos considerar a partir das lentes da interseccionalidade”, afirmou.
Segundo o pesquisador, essas dimensões podem se combinar e produzir diferentes experiências de vulnerabilidade e acesso a direitos. “As experiências são distintas e complexas, a depender do quanto de matrizes de opressão e de desigualdade social vão atravessar aquela pessoa. Os dados epidemiológicos mostram que são as pessoas negras, as mulheres negras, principalmente quilombolas e indígenas, aquelas que vivenciam processos mais complexos de vulnerabilidade e exclusão social”, destacou.
Para Brito, esse reconhecimento precisa estar presente tanto nas políticas públicas quanto na organização dos serviços e na formação dos trabalhadores do SUS. “Os serviços de saúde precisam considerar isso nos processos e nas políticas públicas, mas também na forma de organização do sistema e dos serviços, de modo que o cuidado em saúde considere essas diferenças a partir de uma perspectiva de equidade e cuidado integral”, afirmou.
O pesquisador também defendeu que a formação dos profissionais incorpore discussões sobre racismo, desigualdades sociais e machismo. “Muitos profissionais chegam aos serviços de saúde sem compreender o quanto o racismo, as desigualdades sociais e o machismo fazem mal à saúde. Como combater isso?”, questionou. Em sua perspectiva, essa é uma discussão que deve ser pautada na educação popular em saúde para transformar as práticas de cuidado. “Uma formação crítica e emancipadora, pode transformar pessoas que vão transformar o mundo, que vão transformar essa realidade”, concluiu.
A interculturalidade, por sua vez, amplia essa perspectiva ao reconhecer a existência de diferentes formas de produzir conhecimento e cuidado. Saberes populares e ancestrais podem dialogar com o conhecimento científico e com as políticas institucionais na construção de respostas mais conectadas às realidades locais.
Fazendo com que os territórios deixem de ser compreendidos apenas como espaços onde as políticas públicas são implementadas e passam a ser reconhecidos também como espaços de produção de conhecimentos, tecnologias sociais e práticas de cuidado.
Por fim, as experiências apresentadas no 10º CSHS apontam para a necessidade de fortalecer formas participativas de construção das políticas públicas. O desafio não é apenas ampliar a presença das políticas nos territórios, mas garantir que sua formulação considere os sujeitos, conhecimentos e experiências que já existem nesses espaços.
Ao reunir experiências de pesquisa, gestão pública e atuação comunitária, a mesa-redonda reforçou a importância de construir políticas com os territórios e não apenas para os territórios. Uma perspectiva que reconhece as comunidades como sujeitos da produção do cuidado e como parte fundamental da construção de respostas para transformar as condições que produzem desigualdades em saúde.
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