Residência aborda saúde no campo em aula

Fiocruz Brasília 8 de setembro de 2026


Iris Pacheco (Psat/Fiocruz Brasília)

 

As especificidades do cuidado em saúde de homens e pessoas idosas que vivem no campo foram tema de formação da turma VII da Residência Multiprofissional em Saúde da Família com Ênfase na Saúde da População do Campo, da Fiocruz Brasília. Realizado entre os dias 31 de agosto e 4 de setembro, o Módulo VII: Ciclo de Vida II – Saúde da Pessoa Idosa e Saúde do Homem discutiu como as condições de vida e trabalho, as relações de gênero, o envelhecimento e o acesso às políticas públicas e aos serviços de saúde atravessam o cuidado nos territórios rurais.

 

Para Iuri Trezzi, enfermeiro, especialista em Saúde da Família com ênfase na Saúde da População do Campo e assessor técnico da Coordenação de Atenção à Saúde dos Homens do Ministério da Saúde, compreender essa realidade significa partir da determinação social da saúde. “Os territórios do campo produzem condições específicas de vida, trabalho, adoecimento e cuidado. Por isso, precisamos partir da determinação social da saúde. Isso significa olhar para as condições concretas em que esses homens vivem e trabalham: acesso à terra e à renda, relações e condições de trabalho, proteção social, transporte, moradia, alimentação, escolaridade, acesso à água, exposição a agrotóxicos e outros riscos ocupacionais, como acidentes de trabalho, distância dos serviços e capacidade do SUS de chegar a esses territórios”, explica.

 

Essa realidade também não é homogênea. Agricultores familiares, trabalhadores assalariados, assentados e acampados, povos e comunidades tradicionais, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas, entre outros grupos, possuem diferentes formas de viver e trabalhar. Classe social, raça, geração, gênero e território se combinam e produzem diferentes condições de vulnerabilidade e possibilidades de acesso ao cuidado.

 

Entre os homens que vivem no campo, a relação com o trabalho ajuda a explicar parte das dificuldades de acesso à saúde. A associação entre masculinidade e resistência pode fazer com que muitos homens considerem a demonstração de dor ou vulnerabilidade como sinal de fragilidade. Segundo Trezzi, isso contribui para que parte deles procure os serviços de saúde somente quando o problema já está agravado ou começa a comprometer as atividades cotidianas.

 

“A ideia de ‘aguentar’ precisa ser compreendida nessa dupla dimensão: pode expressar um modelo de masculinidade que valoriza resistência e invulnerabilidade, mas também uma estratégia diante das condições de trabalho, renda e proteção social. Essa perspectiva evita responsabilizar individualmente os homens por uma suposta ‘falta de cuidado’ e nos permite perguntar também quais condições sociais favorecem o adiamento da procura por saúde e de que maneira os serviços podem se reorganizar para alcançar esses homens antes do agravamento dos problemas”, ressaltou.

 

Essa perspectiva muda a pergunta. Em vez de responsabilizar apenas o indivíduo por não procurar atendimento, é necessário observar se os serviços estão organizados para chegar até ele. Uma política igual para territórios diferentes chega para todos?

 

A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH) prevê ações voltadas à ampliação do acesso e do acolhimento, à saúde sexual e reprodutiva, à paternidade e ao cuidado, à prevenção de doenças, violências e acidentes. Mas, o desafio, segundo Trezzi, é territorializar essas ações.

 

Envelhecer também é resultado de uma trajetória de vida

 

No debate sobre o envelhecimento, o módulo destacou como as condições vivenciadas ao longo da vida,  incluindo trabalho, renda, acesso a políticas públicas e serviços, atravessam as experiências de envelhecer no campo. A formação também abordou os direitos da pessoa idosa, as redes de proteção e o papel das comunidades, movimentos sociais e profissionais na construção de um envelhecimento com dignidade.

 

Rosely Arantes, pesquisadora colaboradora do Programa de Promoção da Saúde, Ambiente e Trabalho (Psat) da Fiocruz Brasília, defende que “a velhice precisa ser compreendida como resultado do curso de vida. Logo, o tipo de trabalho, o acesso às políticas e serviços públicos que o não acesso definem as condições objetivas dessa fase da vida”.

 

No campo, essa trajetória é atravessada por diferentes formas de ocupação e de organização do território. Há espaços marcados pela monocultura e pelo uso de agrotóxicos, que podem produzir situações de adoecimento. Mas também existem experiências construídas por comunidades e movimentos sociais que reivindicam direitos, proteção ambiental e formas coletivas de cuidado.

 

Para Arantes, essa diferença é importante para compreender que não existe apenas uma experiência de envelhecer no campo. As condições de vida, trabalho e organização comunitária podem produzir diferentes possibilidades de cuidado e proteção.

 

“É preciso entender que o campo é um espaço de disputas […] de resistência contra essa lógica do capital, que luta por afirmação de direitos para todas as pessoas e o ambiente e que é um território de experiências para o Bem Viver. Neste, envelhecer é um desafio, mas é um espaço de alternativas mais viáveis de um fim de vida permeado pelo cuidado coletivo e familiar, mesmo sem a garantia do conjunto dos direitos”, reafirmou.

 

Outro desafio das políticas de saúde nos territórios rurais é a prevenção das violências e os fatores como a precarização econômica, o uso abusivo de álcool e outras drogas, conflitos familiares e territoriais, isolamento social e ausência de redes de proteção, sem que essas condições sejam utilizadas como justificativa para a violência.

 

Uma das estratégias apontadas para lidar com esse cenário é criar espaços permanentes de diálogo com os homens, antes que situações de violência aconteçam. Esses espaços podem abordar masculinidades, relações afetivas, paternidade, divisão do trabalho doméstico, sexualidade, saúde mental e formas não violentas de resolução de conflitos.

 

A proposta combina responsabilização de quem pratica a violência, proteção das vítimas e transformação das relações de gênero. São questões que colocam os/as profissionais que já atuam nos territórios em posição de cumprir um papel estratégico. É o caso dos/as agentes comunitários de saúde, equipes de saúde, profissionais da assistência social e da educação, movimentos sociais e organizações comunitárias conhecem as dinâmicas locais e podem ajudar a identificar vulnerabilidades, realizar busca ativa e criar espaços de diálogo onde as pessoas vivem e trabalham.

 

Para Trezzi, a atuação precisa superar uma lógica baseada apenas na procura espontânea pelos serviços. “A Atenção Primária à Saúde precisa ser territorializada, acessível e resolutiva, capaz de reconhecer as especificidades dos modos de vida e trabalho e de construir estratégias de prevenção, promoção da saúde e cuidado continuado.” O enfermeiro ainda ressaltou que as residências multiprofissionais também podem contribuir nesse processo, aproximando a formação profissional das necessidades concretas das comunidades e fortalecendo ações de educação permanente, articulação entre diferentes setores e projetos de intervenção.

 

Quando o assunto é envelhecimento, a responsabilidade pelo cuidado também ultrapassa os limites dos serviços de saúde. A família, a sociedade e o Estado têm responsabilidades na proteção das pessoas idosas. Em situações de violação de direitos, diferentes instituições podem ser acionadas, como a Polícia Civil, o Ministério Público, a Defensoria Pública, o Tribunal de Justiça e os Conselhos de Direitos das Pessoas Idosas. O desafio é fazer com que essa rede seja efetiva também para quem vive longe dos centros urbanos.

 

Para Rosely Arantes, embora a longevidade já seja uma realidade no país, o Brasil ainda enfrenta dificuldades para garantir um envelhecimento com dignidade. Entre os principais desafios está “a materialização dos direitos, como a efetividade da Rede de Atenção, especialmente para as populações do campo, floresta e águas e periferias urbanas.” Ou seja, mais do que criar políticas específicas, portanto, a questão é garantir que elas consigam alcançar os diferentes territórios. 

 

Foi a partir dessa perspectiva, que o módulo abordou os desafios para a implementação de políticas de saúde de forma territorializada, considerando as diferentes realidades das populações do campo. As atividades também trataram das especificidades das masculinidades, da prevenção das violências, da promoção do cuidado e do papel da Atenção Primária à Saúde na construção de estratégias de busca ativa e acompanhamento continuado.

 

A proposta foi ampliar a compreensão sobre os diferentes fatores que interferem no processo saúde-doença e fortalecer a capacidade dos profissionais de construir estratégias de cuidado conectadas às necessidades concretas dos territórios e das populações que neles vivem.

 

A atividade contou ainda com momentos de diálogo e troca de experiências, aproximando os conteúdos teóricos das realidades vivenciadas nos territórios de atuação das/as residentes.

 

Fotos: Roberta Quintino (Psat/Fiocruz Brasília) 

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