Primeira atividade da disciplina Notáveis Invisíveis reuniu representantes indígenas para uma troca de conhecimentos sobre ancestralidade, vida comunitária e práticas de cuidado nos territórios
Bruna Viana (Nusmad/Fiocruz Brasília)
O que a alimentação, os conhecimentos ancestrais, a convivência comunitária e o sentimento de pertencimento têm a ensinar sobre cuidado em saúde? Essas foram algumas das reflexões que marcaram o primeiro encontro do componente curricular Notáveis Invisíveis, do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas da Fiocruz Brasília, realizado na última sexta-feira (16/10).
A atividade recebeu Iremiri Luvan Tukano, Shirlene Tukano e Assunta Tukano, indígenas do povo Yepá-Mahsã, que vivem no Noroeste, em Brasília, e Hellen Kariú, do povo Kariú-Kariri. Os convidados também representantes da Casa de Cultura Bahsakewii – Casa de Cerimônias Indígenas do DF. Em uma conversa marcada pela troca de experiências com os residentes, os convidados compartilharam conhecimentos sobre modos de viver, práticas ancestrais de cuidado e a importância da coletividade para a promoção da saúde mental.
A iniciativa integra uma proposta pedagógica que busca reconhecer os conhecimentos comunitários, populares, territoriais e experienciais como dimensões legítimas da formação em saúde mental. Mais do que ouvir histórias, a ideia é inverter os papéis tradicionalmente estabelecidos na sala de aula. Nessa disciplina, são as pessoas e comunidades que, a partir de suas próprias experiências, ocupam o lugar de quem ensina.
Segundo a coordenadora executiva da Residência Multiprofissional em Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas, Jaqueline Assis, a iniciativa nasceu da percepção de que existem diferentes formas de produzir e sustentar saúde mental que nem sempre chegam aos serviços de saúde.
“A gente começou a perceber movimentos de pessoas no território, pessoas usuárias da rede de saúde mental, pessoas que conhecemos de projetos sociais, comunidades que mostravam para a gente conhecimentos sobre cuidado em saúde, formas de sustentar práticas de saúde no território que, às vezes, não chegam ao serviço”, explicou.
A ideia, segundo ela, é levar essas experiências para dentro da sala de aula, permitindo que os próprios sujeitos compartilhem com os futuros profissionais suas estratégias cotidianas de cuidado. “É um pouco falar sobre saúde e não sobre a doença, entender como no território a gente consegue fazer vínculos, criar pertencimentos, driblar processos de violência e, com isso, criar saúde”, destacou.
Saberes ancestrais e cuidado em saúde
Durante o encontro, os convidados compartilharam experiências sobre a preservação dos saberes indígenas em contextos urbanos, a importância da vida em coletividade e a transmissão de práticas ancestrais de cuidado entre gerações.
Os participantes também apresentaram a trajetória da Casa de Cultura Bahsakewii – Casa de Cerimônias Indígenas do DF. Fundada em 2022 pela família Yepa-Mahsã, sob a liderança de Álvaro Tukano, a casa é um espaço de encontro, celebração e fortalecimento das culturas indígenas. Além das cerimônias tradicionais, promove atividades culturais, sessões de cinema, feiras e outras iniciativas que aproximam e acolhem diferentes povos e a comunidade.
Um dos guardiões do espaço é Iremiri Luivan Tukano, que atua na organização das atividades, cerimônias e oficinas. Ao lado de sua família, ele se dedica à preservação e à transmissão dos conhecimentos do povo Yepá-Mahsã.
Hellen Kariú, também guardiã da Casa Bahsakewii e estudante de Pedagogia da UnB, contou sobre sua trajetória de vida na Ceilândia e chamou a atenção para a presença dos povos indígenas nas periferias urbanas. Para ela, é preciso superar a ideia de que os indígenas estão distantes ou são invisíveis na sociedade brasileira.
“Na verdade, nós somos muito visíveis. De invisível não temos nada”, afirmou.
A retomada das práticas ancestrais, segundo os relatos compartilhados, está diretamente relacionada à construção de espaços de valorização da identidade e à possibilidade de viver coletivamente de acordo com a própria cultura.
Os convidados também questionaram a hierarquia que frequentemente coloca os conhecimentos acadêmicos acima dos saberes tradicionais. Na conversa, destacaram que práticas como as rezas, o uso do tabaco em contextos tradicionais e os cuidados transmitidos pelos mais velhos fazem parte de sistemas próprios de conhecimento e de cuidado.
“Somos raízes do Brasil. Às vezes, nossa reza é um sopro na alma”, foi uma das reflexões compartilhadas por Luivan durante o encontro.
A discussão trouxe ainda um questionamento sobre a valorização do conhecimento científico publicado em artigos acadêmicos em detrimento dos saberes produzidos e transmitidos entre gerações. A alimentação apareceu como elemento importante da conversa. Para os convidados, os alimentos não estão relacionados apenas à nutrição, mas também à memória, à identidade cultural, às relações familiares e às formas de viver em comunidade.
Com leveza e bom humor, Luivan compartilhou histórias sobre as diferenças culturais de paladar. Contou que seu sobrinho, que frequenta uma creche da UnB, pediu açaí com farinha, uma combinação tradicional em sua cultura, mas estranhou o guacamole.
O episódio, que despertou risadas entre os participantes, ajudou a ilustrar como hábitos aparentemente simples carregam referências culturais. Também abriu espaço para refletir sobre a importância de reconhecer diferentes modos de vida nas práticas de cuidado em saúde.
Encontros para ampliar o olhar dos profissionais
Ao longo da atividade, os residentes fizeram perguntas, compartilharam percepções e refletiram sobre como os conhecimentos indígenas podem ampliar o olhar dos profissionais de saúde. A conversa reforçou a importância da escuta e do respeito às práticas de cuidado construídas pelas próprias comunidades.
Para o psicólogo e residente do programa de Saúde Mental, Guilherme Bisinotto, a experiência trouxe reflexões sobre a relação que os profissionais estabelecem com os territórios onde atuam e sobre a necessidade de reconhecer os conhecimentos produzidos pelas próprias comunidades.
“A partir disso, a gente estabelece também uma relação diferente com os territórios que a gente atende dentro do SUS. Muitas vezes, a gente pode centralizar o território a partir desses conhecimentos, como uma nova forma de produzir saúde, e até novas formas de fazer comunidade com as pessoas. Acho que essa é a principal questão para mim, esse é o principal ganho”, avaliou.
Para Jaqueline Assis, mais do que aprender a lidar com o sofrimento, a formação em saúde mental precisa reconhecer as possibilidades de vida que são construídas coletivamente nos territórios. A coordenadora destacou que a experiência indígena também convida a pensar sobre aquilo que se deseja transmitir às próximas gerações, não apenas as marcas das violências e das dificuldades, mas também a cultura e os saberes que sustentam a vida.
“O que a gente quer ensinar para os nossos residentes é que, mais do que só cuidar do sofrimento das pessoas, a gente precisa ajudar as pessoas a reinventar os jeitos individuais e coletivos de dançar diante da vida”, afirmou.
O encontro abriu uma série de atividades que, ao longo do percurso formativo, aproximarão os residentes de diferentes experiências comunitárias, reconhecendo o território não apenas como espaço de atuação profissional, mas também como lugar de produção de conhecimento e de cuidado em saúde.